‘As trocas e comunicações entre as instituições e os cientistas fortalecem o processo de pesquisa e as próprias instituições’ afirma ex-aluno do DCC e atual professor da UNICAMP

Sempre apaixonado pela computação, Eduardo Valle, atualmente professor doutor do Departamento de Engenharia de Computação e Automação Industrial (DCA), na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), começou sua história no Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (DCC/UFMG) antes mesmo da graduação. Tendo como primeira mentora a prima Eugênia, que havia se graduado no DCC/UFMG, sempre pedia dicas, informações sobre o funcionamento, possibilidades e tudo o que envolvia o Departamento. Para saciar sua curiosidade, Eduardo também aproveitava os livros da época de estudos da prima, que os mantinha em uma biblioteca. “Com esse contato próximo à vivência da minha prima, pude conhecer pérolas do DCC, mesmo antes de iniciar a graduação. Apesar do meu grande interesse pela informática, minha escolha não foi tão óbvia. Várias áreas me chamavam atenção, como matemática, biologia e arquitetura. Optei pela computação por ser a que por mais tempo teve relevância para mim”, contou. 

Apesar de não ter planejado ou ser o objetivo, Eduardo chegou ao DCC provocando a curiosidade de todos os veteranos, já que foi aprovado em primeiro lugar geral no vestibular da UFMG. Durante o curso, passou por disciplinas marcantes, com professores que o inspiraram e o auxiliaram a crescer pessoalmente e profissionalmente. Ao mesmo tempo, criou um grupo de colegas unido e coeso. “Tive o prazer de aprender a ser um pesquisador e conviver com profissionais sensacionais, como os professores José Nagib Cotrim Árabe, Wilson de Pádua Paula Filho, Mario Fernando Montenegro Campos, Claudionor Coelho, Renato Martins Assunção, Arnaldo de Albuquerque Araujo, Rodolfo Sérgio Ferreira de Resende, dentre outros. Me realizei nas disciplinas e aprendi a unir teoria e prática.  Particularmente, no caso do professor Claudionor, tive uma vitória pessoal ao conseguir fazer todas as questões de uma das provas, elas eram gigantescas. Mesmo aparecendo uma barata durante a prova – tenho verdadeira fobia, o que causou a minha desconcentração – e também ter não acertando tudo, consegui uma ótima nota. Já com os colegas, desde o início, montamos uma “panelinha” para fazer todos os trabalhos. Passamos por momentos marcantes e descobrimos juntos que soluções ditas “pé de boi”, mas que funcionam, têm que ser consideradas na computação”, descreveu o ex-aluno.

Eduardo passou diversos momentos marcantes durante a graduação, iniciação científica e mestrado dentro do DCC e, segundo ele, no início, era muito cru, verde e despreparado, dando muito trabalho ao professor Renato. “Nessa época o professor era do Departamento de Estatística. Foi ele quem me orientou na primeira iniciação científica e conseguiu me dar condições de entender o que são as bases de um trabalho científico. Ele teve muito trabalho comigo, sua mentoria foi extremamente marcante, me trouxe perspectivas sobre a ciência, sobre o trabalho de pesquisa, inferências estatísticas, estatística Bayesiana, que marcaram o meu trabalho e pensamento como pesquisador até os dias de hoje. Foi uma formação humana indelével”, descreveu.

De acordo com o professor Renato, Eduardo Valle era um aluno com o qual todo pesquisador adora trabalhar. É inquieto intelectualmente, sempre disposto a questionar os métodos e premissas e pronto para oferecer alternativas que ele mesmo elabora. “Tivemos uma convivência muito agradável e era um prazer saber que sua inquietude intelectual ia além dos limites da ciência da computação, com preocupações sobre a filosofia da ciência, artes e história. Era uma convivência muito rica e o melhor é que ela pode continuar hoje em dia nas conferências e eventos de nossa área. É sempre um prazer encontrar Eduardo”, afirmou.

Outro momento marcante ocorreu junto ao professor Arnaldo. Segundo Eduardo, foi uma pessoa fundamental em sua formação como cientista e entrada no mundo da pesquisa, já que o deixava livre nos pensamentos e nas ações, além de lhe trazer uma perspectiva sobre um trabalho multidisciplinar e transdisciplinar. “Não me lembro das pessoas na UFMG estarem praticando a transdisciplinaridade de uma maneira tão agressiva como era praticada dentro do Núcleo de Processamento Digital de Imagens (NPDI) pelo professor Arnaldo. Na época, apesar de amar a computação, passei por uma crise de fé com o curso, não queria ser analista de sistemas, gostava mais da parte de humanidades e pensei em mudar de curso. Quem resolveu a minha crise foi o professor Arnaldo, que me mostrou uma visão da informática ampliada. Ele me mostrou a grandeza da informática e toda a sua amplitude”, narrou.

Após isto, dentro do Arquivo Público Mineiro (APM), onde atuou sob a orientação do professor Arnaldo, o ex-aluno desenvolveu um trabalho de iniciação científica em um momento em que a informática na instituição estava começando. “Nesse momento, percebi que a informática também era uma porta de entrada para trabalhar com humanidades e poderia contribuir até mais como cientista da computação do que como antropólogo, psicólogo ou historiador, por exemplo. Me apaixonei pelo APM, lá encontrei a minha tribo. Além disso, trabalhar dentro do NPDI era muito prazeroso e, por isso, resolvi fazer o mestrado”, ressaltou.

A discussão em digitalização de acervos, tema da dissertação do Eduardo, era extremamente recente no Brasil e, também, um tema de fronteira mundialmente. Segundo o ex-estudante, foi um assunto multidisciplinar e humano discutido dentro de um Departamento de Ciência da Computação, que não teria ocorrido se não fosse a liberdade e orientação do professor Arnaldo. “O professor, repito, foi fundamental para a minha carreira, eu não teria feito o mestrado e, posteriormente, o doutorado na França sem o apoio e articulações dele”, relatou.

De acordo com o professor Arnaldo, o NPDI, criado no início de 1990,  já teve ótimos bolsistas de Iniciação Científica ao longo destes mais de 30 anos e o Eduardo Valle se encontra na lista dos três melhores. Muito culto, inteligente e organizado, participou ativamente do dia a dia do NPDI, integrou as equipes de manutenção e envolveu-se na organização dos Workshops realizados pelo laboratório. “Para seu mestrado, escolhemos um tema envolvendo os documentos históricos do APM, órgão do estado de Minas Gerais, com o qual o NPDI tinha uma interação iniciada com trabalhos de mestrado realizados entre 1998 e 2002. Além disso, Eduardo coordenou a equipe de estagiários em informática do APM. Posso dizer que a digitalização do APM teve um grande aporte com o trabalho e a presença do Eduardo na equipe da professora Eliane Amorim, diretora do APM na época. Já para seu doutorado, escalamos o Eduardo para realizar sua tese através do nosso Projeto CAPES/COFECUB de cooperação internacional com a ENSEA e a Université de Cergy-Pontoise na França. O trabalho de tese do Eduardo utilizou as bases de dados do APM e do CR2MF Lovre, foi publicado em várias conferências e periódicos importantes da área e apresentou curso tutorial no SIBGRAPI 2009”, contou.

Ainda segundo o professor Arnaldo, Eduardo tem participado ativamente da cooperação internacional, realizou várias missões de pesquisa e visitas científicas de curta, média e longa duração, na ENSEA, na UPMC – Sorbonne Universités, na Université de Nice, na Universidad de Chile. “Um de seus alunos de mestrado realizou doutorado na Sorbonne Universités. Eduardo conseguiu financiamento para seu orientador de doutorado passar dois meses na UNICAMP, através do Programa de Cátedras Franco-Brasileiras – Consulado Geral da França em SP. Nossa cooperação com a França iniciou-se em 1988, são mais de 30 anos de cooperação internacional, que tem se mantido graças ao interesse de vários de nossos ex-doutorandos que passaram a participar do projeto. Dentre eles, a participação do Eduardo tem destaque”, relatou.

Voltando ao Brasil, em 2009, Eduardo fez um período de pós-doutorado com o professor Arnaldo. Apesar de já estar comprometido com o professor Ricardo Torres da UNICAMP, Valle permaneceu por alguns meses no NPDI e coorientou vários alunos. Mesmo indo para a UNICAMP, permaneceu como parceiro do Laboratório até que os alunos finalizassem os trabalhos. “Tenho muita gratidão pelo professor Arnaldo, por ter tido a oportunidade de começar a praticar a ciência, as orientações dos alunos, além de entender o que é a pesquisa independente após o doutorado. Lá também conheci diversos parceiros durante o período em que estive no DCC após a minha volta ao Brasil, sendo a principal a professora Sandra Avila, na época doutoranda.

Agora, como professor da UNICAMP, Eduardo mantém parcerias e colaborações no DCC, mantendo trocas de experiências frutíferas e enriquecedoras, além de publicações. Dentre as realizadas, Valle destacou as com os professores Wagner Meira Júnior, Adriano Alonso Veloso, George Luiz Medeiros Teodoro, William Robson Schwartz, Jefersson Alex dos Santos e Jussara Marques de Almeida. “Essas trocas e comunicações entre as instituições e os cientistas, fortalecem a ciência, o processo de pesquisa e as próprias instituições. Criei muitos laços com o DCC e ainda os tenho com muito prazer”, finalizou.

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