Cida: amor pelos filhos e pelo trabalho é inspiração

Maria Aparecida Scaldaferri Lages, ou simplesmente Cida como é conhecida pelos amigos e colegas do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (DCC/UFMG), trabalhou no Departamento por mais de 20 anos e por lá passou por grandes emoções. Esposa do saudoso professor Newton Alberto de Castilho Lages, falecido em 1989, criou praticamente sozinha os três filhos, mas apesar de todas as adversidades, não desistiu. Passou por diversas áreas dentro do DCC, sempre exercendo o trabalho com responsabilidade e companheirismo com os colegas. Se desdobrou entre as atribuições do lar e do trabalho, se desdobrando para prover o necessário aos filhos e, assim, aflorando e mostrando a todos seus outros dons, como o da culinária e do artesanato. 

A história da Cida, dentro e fora do DCC, é regada de muita luta, vitórias, altos, baixos, alegrias e tristezas, mas, acima de tudo, de muito amor e perseverança. Prepare-se para se emocionar e se inspirar. Para isso, essa história não poderia ser contada se não por ela mesma e, se não a conheceu enquanto esteve no Departamento, conheça agora a Maria Aparecida Scaldaferri Lages, a CIDA!

Querida Cida,

Começo minha mensagem agradecendo por tudo que me ensinou. Quando cheguei ao DCC  me acolheu com todo carinho e me ensinou tudo o que tinha aprendido, com muita paciência e generosidade. Você é uma excelente profissional, pró-ativa, preocupada em desempenhar suas atividades com eficiência e responsabilidade, sempre disposta a aprender coisas novas e ajudar os colegas. Sem contar na mulher incrível que é: talentosa, amorosa, guerreira, batalhadora, forte, que mesmo diante de todas as adversidades foi o pilar da casa e construiu uma linda família. Você é um exemplo de vida e de superação, te admiro demais! Abraço forte!

Adriana Aparecida Costa

Cida: minha vida e meu amor ao Departamento de Ciência da Computação…

E tudo começou assim…

“São seis horas da manhã; amanheci muito tristonha… Não tenho força senão para chorar e pensar no meu dia de hoje e nos meus dias.  Tinha tantos planos… E, de repente, quando acordo de um sonho, vejo que meu pesadelo continua. Ontem, domingo, estive péssima. Sábado também. Representei no palco da minha vida uma alegria falsa, uma esperança sem esperança, um sorriso cínico, tentando fingir para mim e para os outros a fortaleza que todos imaginam que eu seja.

Quantas vezes tentei consolar pessoas. Eu, logo eu, que no fundo queria um ombro amigo para chorar meu desespero, minha saudade, o nosso amor tão covardemente cortado numa fase tão linda de nossa vida! Tantos planos! Ver os filhos formando, trabalhando, casando e bem sucedidos. E nós dois cheios de orgulho, já velhinhos e felizes, tornando real uma poesia que costumávamos ler juntos  “Quando formos bem velhinhos encarquilhados branquinhos, estaremos lado a lado.” Como é doce escrever o seu nome! Como é doce falar o seu nome, mas tenho que falar calada. Por quê? Quero nossa vida; quero até implicar com os cinzeiros sujos (quando fumava) e os jornais espalhados pelo chão… Quero nossos dias transbordando de alegria e amor ao lado dos meninos, o sussurro em meu ouvido, o ciúme, as gargalhadas ao nos lembrarmos de coisas boas, o elogio da comida gostosa, o sono de depois do almoço e até aquela impaciência no trânsito… Quero que o tempo passe depressa… Que este desespero não me sufoque… Mas sei que jamais me esquecerei daquele que me mostrou o mundo, as coisas boas da vida; os filhos, o sol na praia, a chuva caindo à noite no bosque de Campinas, parecendo gotas prateadas sob a luz dos refletores, os ipês floridos da Av. Pedro II, o nosso jardim cheio de azaleias, os prados do Rio Grande do Sul, as hortênsias de Gramado, o Hotel Tambaú de João Pessoa, o verdadeiro significado de família feliz, enfim o viver.

E viver com você foi muito bom. Valeu a pena. Foram poucos anos, mas vividos intensamente, com muito amor e carinho. Você se foi…  e a vida continua e agora fria e indiferente…

Dias se passaram. As dificuldades foram tornando-se cada vez mais temidas e presentes, apesar da ajuda de pessoas queridas.  Por sete anos recebi um salário mínimo. Pedi revisão do processo e somente depois de tantos anos consegui receber um retroativo e pude consertar minha casa que caía aos pedaços, assim como eu. Continuo com a pensão do INSS pois não tive acesso ao RJU; não foi aprovado dentro do prazo. Todos sabiam da minha situação e ninguém se conformava.

Certo dia encontrei com um professor amigo nosso, colega de trabalho do Newton, de festas e viagens e, perguntando sobre a pensão, contei-lhe sobre a situação em que me encontrava. Não vou citar o nome, mas ele sabe o quanto sou grata, o quanto me ajudou e dias depois estava sendo chamada para trabalhar no DCC.

1ª foto: Newton (esposo) e os filhos Daniel, Larissa e Bruno.. 2ª foto: netos Manuela, André, Felipe, Bruna e Henrique 3ª foto: Cida com os filhos. 4ª foto: Cida e o esposo Newton

E assim minha vida recomeçou…

Insônia e preocupações… se me daria bem, se aprenderia as tarefas… a máquina de escrever e posteriormente o computador. Eu no DCC….

Iniciei nova etapa de minha vida, sem ele, mas sempre em meus pensamentos, deixando-me ora triste, ora alegre. Entrei no meu carro sentido UFMG. Pensei que estaria parando meu carro entre tantas vagas, mas, coincidentemente, pararia na mesma vaga que ele parava. Ao subir os degraus do DCC, estaria pisando, no meio de tantas, mas em suas próprias pegadas. A sua sala, já ocupada, para mim seria sempre sua. Você marcou! Você soube passar… E, parada em frente à porta, pensei e pedi que quando notasse que me sentia fraca, chegasse até mim me envolvendo, me inspirando; dando-me vida novamente.

Fui muito bem recebida, mas não tinha sala (rsrsrs). Improvisaram um cantinho para mim e começaram a comprar mesa, cadeira, máquina de escrever, curso de datilografia. Até então só entendia de confecção de roupas da minha fabriqueta. Tudo era novidade. Mas fui crescendo, o medo se afastando e fui adquirindo o meu espaço querido, mesmo que, às vezes, não fosse muito bem visto. Adquiri com garra e amor e é isto o que me importa. Fiz vários tipos de serviço. Trabalhei na sala do café, no xerox, na pós, na especialização, na secretaria, na extensão, em vários congressos e, finalmente, nos meus 13 últimos anos de DCC, no setor de compra de passagens, adiantamentos de viagens, prestação de contas. Finalmente achei o meu canto.

Foram 21 anos a contar do DCC antigo, do outro lado da rua. Fiz novas amizades e fui notando que meu trabalho era sempre valorizado, pois recebia mensagens de professores de vários estados elogiando e dos professores do Departamento também. Um deles, quando soube que eu estava saindo, se levantou e disse: Ah! Se eu pudesse trazê-la para cá!!! Quer maior e melhor elogio que este?! Todas as agências de turismo com quem trabalhei me tratavam com muita delicadeza e, também, meus amigos da FUNDEP, que gracinha!

Mas nem tudo corria como eu queria. Alguns dissabores apareciam, mas acho que é normal no meio de seres humanos. Mas águas passadas… Preferível perdoar e esquecer. Tudo é forma de aprendizado, tudo engrandece, conforme o ângulo em que é visto. Nunca fui brava nem exigente desempenhando minhas funções, mas, sim, muito preocupada em acertar e dar o melhor de mim. Acho que era vista como mãezona, pois adorava os meninos que compravam as passagens e me preocupava, principalmente, com aqueles que iam para longe, sem nunca ter feito uma viagem para o exterior. Ficava apreensiva, queria que voltassem logo e sem problemas. Ah, me solidarizava, também, com as preocupações das mães que me ligavam, às vezes. Os sentimentos que me passavam eram sempre os meus. Mãe é mãe! Sentia-me, também, mãezona de colegas, talvez por ser a mais velha da turma e com uma experiência de vida marcante, criando sozinha filhos pequenos. Mas sempre fui companheira de festas, viagens, amiga e confidente. Acho que tudo que uma pessoa pretendia em um ambiente bom de trabalho eu tive. Mesmo sendo vista como mãezona, o que não desqualifica ninguém. Desempenhava meu trabalho com amor e responsabilidade, pois ser mãezona não é não saber trabalhar, mas, sim, ser reconhecida pelo amor que dá e que recebe.

O DCC foi um grande marco em minha vida. Entrei para o Departamento, como já disse, pois estava em situação financeira muito difícil. Senti que queriam me ajudar e fiz tudo que pude para retribuir este carinho, dei meu sangue, como dizem, e acho que não decepcionei. Acho que não decepcionei. Fiz tudo com muita garra, muito carinho e muito amor. Muitos professores ajudaram na educação dos meus filhos pagando, para eles, o Colégio Pitágoras. Hoje todos são formados, casados, pais de família. Me orgulho disso e sinto enorme gratidão por aqueles que participaram deste plantio e colheita. Agradeço também a todos que compraram meus congelados. Lembram-se? Enchia o freezer de pequenas marmitas, com orgulho e amor.

O DCC foi para mim uma família. Fui até a Mamãe Noel, junto com o Papai Noel Clarindo (muito engraçado). Um local gostoso de trabalhar, bonito, com boas acomodações e tantos os professores e colegas de sala com grande capacidade para desenvolver seus trabalhos. Recomendo o DCC. Para quem é estudioso e quer garantir um lugar de sucesso, o DCC é a chave. Tenho saudade de tudo e sonho com todos; cada sonho mais maluco e sempre participando de eventos, aulas, passeios e almoços. Algumas coisas meio chatinhas também, mas…o que seria do verde se todos gostassem do amarelo… Não só no DCC, mas em todo setor sério de trabalho deve existir amizade, respeito, disponibilidade, responsabilidade, solidariedade, carinho, palavras ditas com amor e nunca com rispidez e agressividade e muita vontade de acertar.

Os anos foram passando e amizades sólidas foram se formando. Quanta alegria, quantas fotos, quantas festas! Tenho lindas recordações, boas gargalhadas e coisas que tocaram fundo meu coração, como este grande momento, que não posso deixar de relatar. Presto, aqui, uma homenagem a quem escreveu e toda a minha gratidão a esta pessoa por ter me proporcionado  momentos de grande emoção. Ela deixou claro, em suas palavras, que colhemos os frutos que plantamos e que o legado deixado para os nossos filhos são nossos atos honestos e cheios de amor. Refiro-me ao professor Christiano Becker – nosso também querido professor – que foi o patrono da turma de formandos do DCC, no ano de 2001, ano da formatura do meu filho Daniel. Em seu discurso, ao final, proferiu, com sensibilidade, as seguintes palavras que de imediato fizeram com que meu coração batesse ainda mais forte.  Senti que seriam minhas estas palavras. Trêmula e com lágrimas caindo pelo rosto escutei com a alma o que saía de um coração:

*Aproveitando esta minha fala, eu gostaria de, neste momento, fazer uma homenagem muito especial e particular para um dos formandos aqui presente. Eu quero homenagear o Daniel Scaldaferri Lages e, desta forma, prestar uma justíssima homenagem ao seu saudoso pai – meu ex-colega na Universidade, o meu também saudoso amigo – o professor Newton Alberto de Castilho Lages. Daniel, seu pai foi um grande colega, um profissional extremamente competente e de grande visão, um amigo de todas as horas, nós – eu e ele – compartilhamos a mesma sala no DCC durante algum tempo e ainda sinto a falta dele. Eu sei que o Newton está nos acompanhando agora e, certamente, está lhe abençoando muito neste momento. Ele está muito feliz com a sua conquista. Eu gostaria, também, de prestar uma homenagem especial à Aparecida – mãe do Daniel – sabemos que teve muita dificuldade para criar toda família após a perda tão precoce do nosso colega Newton – mas conseguiu, com determinação, empenho e, sobretudo, com muito amor, conduzir muito bem os destinos da família. Onde está você  Aparecida? – Aparecida – um beijo muito grande para você – eu queria pedir a todos uma salva de palmas para Aparecida”.

Então, amigos, hoje quem presta uma homenagem ao professor Christiano sou eu, levando para vocês tão meigas palavras que expressaram a grandiosidade dele, lembrando-se  de um colega que soube, também, ser grande para os amigos e que também faz parte da história do DCC. Com certeza, hoje, estão os dois em outra esfera, compartilhando de uma mesma sala, como antigamente, discutindo cálculo, algoritmos, estruturas de dados e matérias, além da nossa imaginação, porém, lembrando-se de todos nós que continuamos a escrever a nossa própria história.

E os anos foram se passando e eu na compra das passagens que tanto amava e que tanto me preocupava. Até tenho um caso divertido, mas muito sofrido na época… Passei grande aperto, mas até hoje sei que não tive culpa. Ele vai ler e vai se identificar… Estava comprando duas passagens, se não me engano, para uma cidade da China, para um professor e um aluno. Tantas foram as vezes que ele trocou este trecho que acabei comprando o errado e, o pior, mandei para que verificasse se estava correto e retornasse. Houve o retorno e, obviamente, foi um tudo ok. Ele partiu. Dias depois me ligou, apavorado, perguntando se eu não queria que ele voltasse a tempo de um evento que participaria. Esse tinha sido o motivo de tantas visitas à minha mesa, naquele impasse de troca, não troca, muda horários, dias, etc. Muitas vezes estas trocas causam problemas por causa da tarifa, que na maioria das vezes aumenta. Cheguei a propor à agência que arcaria com a despesa. Mas, conversando com o gerente, o vendedor conseguiu resolver de forma que ninguém saísse em prejuízo. Sofri, viu! Ah, teve também outro caso engraçado, de uma assinatura que pedi para o chefe do Departamento. Ele estava embaixo da mesa consertando uma tomada e a assinatura era urgente. Não vacilei e entrei, também, debaixo da mesa e lógico… viram a cena e virou chacota.

E, assim, foram meus 21 anos de DCC. E, assim, chegou a hora de dizer adeus. Minha despedida foi no almoço de confraternização. Não sabia se ria ou se chorava, mas sentia que ali entregava mais um capítulo do livro da minha vida. Foram lindas as homenagens que recebi no momento de despedida. Agradeço muito a Emília, pelo meu clip, aos professores Mário e Bigonha, pelas lindas palavras, Renata e colegas agradeço por tudo… pela torta, orquídea, presentes, mensagens e por todo carinho que exalava naquele momento.

Sinto falta dos meus queridos colegas – Cláudia (que falta nos faz!) Emília, Juliana, Adriana, Linda, Saulo, Maristela, Sônia, Renata, Stella, Sheila, Orlando, Geraldo, Bianca, Gilmara, Ludmila, David, Antônia, Rosencler, Maria Helena, Paula, Ricardo, Luciana, Jorge, dos ex-colegas e de todos os meus amigos do CRC, do Grupo São Tomé, do Synergia e da Biblioteca. 

Hoje estou aposentada, feliz e gorducha rsrs. Já entreguei para Deus essas gordurinhas; a idade chegou mesmo. Para que sofrer com isto!!! Nesta idade tudo é permitido! O mais importante é que dei a volta por cima. Caí perdendo o meu amor, caí caindo mesmo e tenho 11 parafusos nos dois tornozelos, mas me levantei nas duas vezes, aliás três vezes. Graças a Deus. Atualmente  sou uma artesã de mão cheia. Faço peças lindas e vou conseguindo manter o meu equilíbrio mental, cortando pedrinhas e formando um todo em tudo, assim como fiz com minha vida. Catei todos os pedacinhos e me reconstruí. Modéstia a parte, sou uma vencedora!

Deixo aqui uma frase de um ilustre conhecido, certamente muitos saberão o autor…

“Cuidemos do nosso coração porque é de lá que sai o que é bom e ruim, o que constrói e destrói”. 

E com o coração e a bondade de todos vocês do DCC, me reconstruí…

Cida Saldaferri Lages

A Cida está com seus artesanatos no Instagram

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