Entre a sorte e a competência

 

Estudo do DCC investiga o peso de variáveis aleatórias e de habilidade na definição de campeões esportivos

por Luana Macieira, Boletim UFMG

 

O modo como esses dois fatores – habilidade e sorte – atuam na campanha de um time vencedor foi analisado por grupo de pesquisadores do Departamento de Ciência da Computação da UFMG (DCC) no artigo Luck is hard to beat: the difficulty of sports prediction, apresentado na conferência KDD 2017 – especializada em mineração de dados –, realizada em julho, no Canadá.

Durante a pesquisa, o grupo percebeu que sorte e habilidade são fatores que atuam de forma diferente de acordo com o esporte analisado. Para testar a influência da aleatoriedade, o grupo debruçou-se sobre 270.713 jogos, 1.503 temporadas esportivas, 84 países e quatro esportes: basquete, voleibol, futebol e handebol. Entre as ligas analisadas, estão o Campeonato Brasileiro de Futebol da Série A, a National Basketball Association (NBA) e a Premier League Inglesa – a primeira divisão do futebol inglês.

As análises foram feitas por meio de cálculos estatísticos realizados em um software. O grupo comparou o histórico de partidas jogadas pelos times ao longo dos campeonatos e realizou simulações aleatórias, como se o placar de todas as partidas fosse resultado do acaso. “Depois, comparamos a simulação aleatória com o campeonato real. Quando a variância real fica muito distante da variância aleatória, o campeonato não foi definido apenas por sorte, ou seja, a habilidade dos times teve papel fundamental na definição dos campeões”, explica Pedro Olmo, um dos autores do trabalho e professor do DCC.

O papel da habilidade na definição dos campeões ocorre por meio de coeficiente que varia entre o infinito negativo e 1. Quanto mais perto de 1, maior será a importância da capacidade técnica para definir o campeão e menor será a interferência da sorte nos resultados. O grupo constatou que o futebol e o handebol são esportes em que a sorte tem maior peso. Os torneios de voleibol e de basquetebol, por sua vez, são decididos, majoritariamente, pela habilidade das equipes. “A NBA não é um torneio aleatório. É muito raro que uma equipe ruim vença uma boa. Não há zebras na classificação final; é muito fácil olhar a tabela e apontar os times que podem ser os campeões”, diz o professor.

Segundo Pedro Olmo, a qualidade dos jogadores pesa tanto na NBA que, para se tornar um campeonato aleatório, seria necessário que, em média, metade das equipes saísse do torneio. Ele observou situação oposta na Série A do Campeonato Brasileiro deste ano, pois bastaria apenas a retirada de um time para que o fator sorte passasse a ser preponderante.

“Analisamos 189 jogos das 20 equipes do primeiro turno do Campeonato Brasileiro e vimos que, se retirássemos apenas o Corinthians, o Brasileirão ficaria completamente aleatório, pois reuniria times de qualidade similar, tornando impossível prever o campeão. Por isso, a briga por vaga na Taça Libertadores da América é tão intensa. Se excluirmos o Corinthians, o campeonato já se torna aleatório”, exemplifica.

O professor do DCC explica que o Brasileirão tem um perfil difícil de analisar, uma vez que sua aleatoriedade varia ao longo dos anos. “Nossos cálculos mostraram que o Brasileiro de 2009, vencido pelo Flamengo, enquadra-se como campeonato aleatório, enquanto a campanha vitoriosa do Cruzeiro em 2014 foi definida pela habilidade. Além do Cruzeiro, o Internacional e o Criciúma também deveriam ser removidos do campeonato daquele ano para torná-lo aleatório. No caso do Corinthians de 2017, tudo indica que ele será campeão também pela habilidade”, prevê.

 

Veja a reportagem completa no Boletim UFMG, nº 1987

 


Artigo: Luck is hard to beat: the difficulty of sports prediction
Autores: Raquel Aoki, Pedro Olmo e Renato Assunção
Apresentado na KDD 2017 e disponível no site

 

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