DCC e Universidade de Alberta: parceria de sucesso e reflexão sobre como cientistas falam sobre resultados de pesquisa

Os alunos da pós-graduação e graduação do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (DCC/UFMG), finalizaram, nesta terça-feira, 12, a disciplina “Divulgação de Resultados de Pesquisa”. As aulas foram ministradas pelo professor José Nelson Amaral, da Universidade de Alberta, no Canadá, de forma presencial, por meio de parceria organizada pelo professor do DCC Fernando Magno Quintão Pereira, estabelecida desde 2019, quando José Nelson esteve no Departamento pela primeira vez. A disciplina trouxe aos alunos a oportunidade não só de refletir em como cientistas falam de ciência, mas também de ter contato com um pesquisador e professor de altíssimo nível de conhecimento e experiência. Frederico Carvalho, aluno de doutorado, diz sobre o curso: “Esse curso foi marcante e transformador. O Nelson é muito generoso em compartilhar momentos e ensinamentos tão valiosos”, relatou. Já Djim Martins, aluno de mestrado que atua na indústria, contou que a vinda do Nelson ao DCC impactou profundamente pelas suas habilidades humanas e pela sua generosidade. “Já comecei a praticar os ensinamentos com o meu time para propagar o que aprendi”, contou empolgado.

José Nelson é professor no Canadá há 22 anos, graduado em Engenharia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com mestrado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e doutorado na The University of Texas at Austin. Ao longo dos anos, estabeleceu vários laços com Belo Horizonte e no DCC/UFMG, incluindo uma produtiva colaboração de pesquisa com o professor Fernando. “O Fernando é um dos melhores pesquisadores na área de linguagens de programação e de construção de compiladores da América Latina. Também estabeleci contatos próximos com alunos de graduação do DCC/UFMG durante o programa Ciências Sem Fronteiras. Tivemos vários alunos que visitaram a Universidade de Alberta e a qualidade da formação deles sempre foi muito alta”, José Nelson também relatou que existem várias outras conexões importantes entre a Universidade de Alberta e a UFMG na área da computação, como os dois professores/pesquisadores de grande sucesso na área de Inteligência Artificial em Alberta, que são graduados na UFMG.

De acordo com José Nelson, uma questão que sempre é discutida pelos alunos em sala de aula é a diferença da abordagem do programa em Alberta (e no Canadá) e no DCC/UFMG (e no Brasil). “No Canadá, os alunos de graduação fazem menos disciplinas por semestre, mas cada disciplina requer muito mais tempo, pois existe a expectativa de que cada aluno vá atingir o nível de conhecimento de síntese, com projetos significativos exigidos pela disciplina. Já no DCC/UFMG (e no Brasil), os alunos fazem muitas disciplinas, mas em muitas delas o aprendizado fica no nível de análise e não necessariamente leva a implementação de projetos significativos em cada disciplina”, descreveu.

Outra questão abordada em conversas com alunos, foi a possibilidade de estudo no exterior e demais parcerias de sucesso com o Departamento. O professor lembrou que na época em que se mudou do país para estudar no exterior, em 1990, a internet não existia ainda — todo o processo de inscrição e seleção era feito através dos Correios e em formulários em papel. No entanto, o professor refletiu que os elementos fundamentais de se preparar para um curso de pós-graduação no exterior, e de ser selecionado, não mudaram muito desde então. “Durante a graduação, é importante estudar idiomas e participar ativamente em atividades de pesquisa e desenvolvimento. Desta forma, as cartas de recomendação descreverão experiências concretas e serão ilustrativas. Ao mesmo tempo, nos dias de hoje, com as facilidades de acesso à informação e estabelecimento de contatos via teleconferência, especialmente para alunos que buscam admissão num programa de doutorado, no Brasil ou no exterior, recomendo que os alunos selecionem orientadores potenciais, façam contato e tenham conversas com os alunos que estão sendo orientados ou que já foram orientados por aquele orientador, eles já têm experiência com aquele grupo de pesquisa e terão muito mais condições de dar informação. Além disso, estes contatos iniciais também poderão resultar em informações importantes que farão uma conversa muito mais rica com o potencial professor/orientador”, esclareceu.

Já para o professor Fernando, José Nelson é um dos grandes nomes na área de computação de alto desempenho. Prova disso é o fato de que em 2022 ele será o organizador geral de HPCA, a maior conferência sobre hardware de alto desempenho do mundo. “Mesmo com tanto renome, Nelson trata as pessoas com muito cuidado e atenção. Assisti a várias de suas aulas na UFMG e pude notar um genuíno carinho pelos alunos. Ele se importa em transmitir conhecimento e preparar os estudantes para se tornarem cientistas éticos e competentes. Eu e os demais colegas da UFMG que interagiram com ele, temos aprendido muito com essa convivência. Espero que possa nos visitar ainda muitas outras vezes. Cada visita é uma honra para o nosso Departamento”, falou agradecido.

No último dia de aula, alunos promovem lanche de despedida e agradecimento ao professor José Nelson.
No último dia de aula, alunos promovem lanche de despedida e agradecimento ao professor José Nelson.

Durante o bate-papo que a comunicação do DCC teve com o professor, ele contou da experiência em ensinar na UFMG e no exterior, como são os alunos das duas universidades, entre outras coisas, veja abaixo:

O que achou da experiência de ensinar na UFMG? Dou muito valor a ensinar aqui na UFMG, os alunos são muito interessados, dedicados, e têm muita curiosidade intelectual. Gosto muito da oportunidade de discutir técnicas de comunicação e alguns resultados científicos que eles podem levar para todas as carreiras com as quais podem também influenciar outros alunos em seus grupos de pesquisa, orientadores, empresas ou institutos de pesquisa com os quais interagem.

Como essa experiência difere da vivência ensinando na Universidade de Alberta? O conteúdo que trago para a UFMG é condensado. Em poucas semanas repasso as orientações que dou aos meus alunos de pós-graduação em Alberta por vários anos. Portanto, o conteúdo é diferente e a organização também. É como um workshop. Em Alberta, os conteúdos que leciono nos cursos também são mais técnicos.

Como foi a parceria com o DCC/UFMG? Tenho trabalhado com o professor Fernando há vários anos. Tivemos a orientação de aluno de doutorado e várias conversas de orientação com os alunos do Fernando durante minhas visitas à UFMG. Nós publicamos alguns artigos com coautoria em conferências internacionais e em periódicos. O Fernando é um dos pesquisadores da área de compiladores e de linguagens de programação de maior renome na América Latina e no mundo, com uma produtividade científica muito alta. É a presença do Fernando aqui na UFMG e a qualidade da pesquisa desenvolvida no grupo dele  que me motivam a vir visitar e interagir com os alunos.

Você já recebeu alunos da UFMG em Alberta? Como foi esse intercâmbio? Recebemos um aluno de Ph.D. do grupo do Fernando por um curto período de tempo e a experiência presencial foi fundamental para estabelecer uma colaboração de pesquisa que se estendeu por vários anos. Também, durante o período do programa Ciência sem Fronteiras, alguns dos melhores alunos de graduação que recebemos em Alberta vieram do DCC/UFMG. Ainda mantenho conexão com alguns destes ex-alunos e que hoje vivem em Belo Horizonte.

Como compara nossos alunos de pós-graduação com alunos dos programas de pesquisa das universidades canadenses? O nível dos alunos de pós-graduação com quem eu interajo aqui é muito similar ao nível de alunos de pós-graduação nas universidades canadenses. Eles são bem preparados e têm uma boa base. Às vezes, a única diferença é a percepção que podem ter do posicionamento dos trabalhos em relação ao que é produzido na América do Norte. À medida que os alunos amadurecem aqui, percebem que estão produzindo resultados de pesquisa no mesmo nível dos resultados produzidos no exterior.

Qual a sua linha de pesquisa? Me concentro no projeto e desenvolvimento de compiladores e em computação de alto desempenho. A tradução de um programa escrito em uma linguagem de alto nível em uma representação, que pode ser executada por um computador, requer um grande número de decisões importantes que podem ter um impacto significativo na performance do programa em termos de tempo de execução, requerimentos de memória ou consumo de energia. Na área de computação de alto desempenho, a constante evolução do projeto de arquitetura de processadores cria novos desafios para a geração de código eficiente para estes novos processadores.

Já desenvolveu parcerias com outras universidades brasileiras? Como foi essa experiência? Tenho uma experiência de longa data e com muita produtividade com a Universidade de Campinas. Tivemos muitas trocas de alunos, artigos publicados e financiamentos para a interação. Esta colaboração, no momento, inclui um engajamento importante com a IBM, o que levou ao desenvolvimento da estrutura de compiladores usada para gerar código para um acelerador para multiplicação de matrizes que existe no último processador da família POWER da IBM.

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