Três empresas formadas por professores do Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG e originadas de pesquisas realizadas no Departamento, foram selecionadas para a nova etapa de incubação do InovaLab, programa da Inova UFMG voltado ao desenvolvimento de empreendimentos de base tecnológica ligados a pesquisas e ao capital intelectual da Universidade. A 4SAIT, a MIRA – Mapeamento e Robótica Ltda. e a æqualis passam a integrar o grupo de novas spin-offs incubadas pela Inova UFMG, em uma etapa que busca aproximar as tecnologias desenvolvidas na universidade do mercado.
O InovaLab é estruturado em duas fases. Na primeira, as equipes trabalham na qualificação da oportunidade, em validações técnicas e de mercado e na elaboração do plano de incubação. Na segunda, esse plano é executado com acompanhamento especializado e conexões com parceiros do ecossistema de inovação. Entre os recursos oferecidos estão mentorias personalizadas, capacitações e acesso a parceiros e ao mercado.
A seleção representa, para as três empresas, uma mudança de etapa: os desafios deixam de estar concentrados apenas no desenvolvimento tecnológico e passam a incluir questões como modelo de negócio, mercado, propriedade intelectual, comercialização, formação de equipes e obtenção de recursos.
Na 4SAIT, que conta com a participação do professor do DCC, Omar Paranaiba Vilela Neto, a tecnologia desenvolvida está voltada à análise de dados para caracterização de grafeno e outros materiais avançados. A empresa desenvolve ferramentas automatizadas de análise, sistemas de gestão e modelos de predição de propriedades para apoiar produtores, laboratórios e desenvolvedores na caracterização desses nanomateriais. Além do professor Omar, a 4SAIT conta com em seu quadro societário com o pesquisador João Luiz Campos, a doutoranda em inovação tecnológica, Gabriella de Almeida, a ex-diretora da Gerdau Graphene, Valdirene Peressinotto, além da FabNS, spin-off da UFMG.
Segundo o professor, a participação no InovaLab tem sido importante justamente por abordar aspectos que não fazem parte do desenvolvimento tecnológico em si. “Transformar uma tecnologia em uma empresa exige conhecimentos que vão muito além do desenvolvimento tecnológico”, afirma. A equipe da 4SAIT buscou o programa para avançar em temas como validação de mercado, modelo de negócio, posicionamento e estruturação da empresa.
Entre os desafios atuais da 4SAIT está a formação de uma equipe qualificada diante das limitações financeiras de uma empresa em estágio inicial. A precificação também é uma questão em discussão, especialmente por se tratar de um software baseado em conhecimento científico e tecnológico especializado. Para a equipe, o InovaLab tem contribuído para discutir como estabelecer preços considerando o valor da solução para o cliente, e não apenas os custos de desenvolvimento.
A empresa entra agora na fase de incubação com o objetivo de transformar os aprendizados da pré-incubação em processos permanentes de validação de mercado e de sua proposta de valor. “Queremos transformar esse processo em uma prática recorrente dentro da empresa e avançar em direção a um modelo de negócio cada vez mais sustentável e autônomo”, afirma.
A MIRA – Mapeamento e Robótica Ltda. conta com a participação dos professores do DCC Héctor Ignacio Azpúrua e Paulo Alfredo Frota Rezeck, além do professor do Departamento de Engenharia Elétrica (DEE) Gustavo Medeiros Freitas e o pesquisador do DCC Gilmar Cruz Jr. A empresa desenvolve soluções para mapeamento, inspeção e robótica de serviço em ambientes confinados e de alto risco, como cavernas, dutos, túneis, galerias de barragens, drenos e plantas industriais de acesso restrito. A empresa nasceu de pesquisas desenvolvidas na UFMG, especialmente no Laboratório de Visão Computacional e Robótica (VeRLab), do DCC, e no Laboratório de Sistemas de Computação e Robótica (CORO), do DEE.
A tecnologia combina sensores laser, unidades inerciais, câmeras, algoritmos de localização e mapeamento simultâneos, processamento em nuvem e robôs de serviço. A proposta é obter informações de ambientes nos quais a entrada de pessoas envolve riscos, produzindo dados que possam ser utilizados em segurança operacional, licenciamento e gestão de ativos.
Para a equipe, a seleção no InovaLab é um reconhecimento de mais de duas décadas de pesquisa. “A seleção reconhece o percurso de mais de duas décadas de pesquisa aplicada em robótica na UFMG, fornecendo um ambiente institucional para aprender empreendedorismo de base tecnológica com método”, afirmam os professores.
A MIRA já cumpriu as entregas da fase de pré-incubação e, nesta nova etapa, pretende avançar em gestão, vendas e mercado, além dos processos de licenciamento e exploração comercial da propriedade intelectual. A empresa também busca validar diferentes formas de comercialização, incluindo venda de equipamentos, prestação de serviços, robótica como serviço e processamento em nuvem.
O principal desafio agora é transformar os protótipos desenvolvidos em produtos, ao mesmo tempo em que a empresa avança no licenciamento da propriedade intelectual e na conquista dos primeiros contratos com clientes. Para os professores, o programa ajuda a transformar esses desafios em um plano de ação com prioridades, prazos, indicadores e governança.
A terceira empresa ligada ao DCC é a æqualis, criada a partir de pesquisas da UFMG para gerar dados sintéticos destinados à tomada de decisão em problemas de saúde. A solução trabalha com populações virtuais construídas a partir de evidências existentes, acompanha sua evolução ao longo do tempo e permite comparar cenários e possíveis desfechos de diferentes intervenções. O diferencial apontado pela equipe está na modelagem de trajetórias de pacientes que evoluem e se ramificam.
Na empresa, que tem os professores do DCC Gisele Lobo Pappa e Anísio Mendes Lacerda, além dos médicos Gustavo Jacob e Ricardo Cabral como sócios, a pesquisa científica já alcançou uma etapa mais madura, com artigos aceitos, patentes depositadas e validações com parceiros em cenários de oncologia. O desafio passou a ser comercial, ou seja, definir como apresentar, vender e posicionar os modelos desenvolvidos. As mentorias da pré-incubação ajudaram a equipe a estruturar um plano de negócios e a compreender melhor como comercializar a solução.
“É um reconhecimento a todo o trabalho que já desenvolvemos. Sabemos que a ciência que produzimos tem potencial para se tornar um negócio e o InovaLab oferece exatamente o suporte de que precisamos neste momento para fazer esta transição da universidade para o mercado”, afirmam os representantes da æqualis.
A empresa aponta como desafios a transformação da capacidade técnica em um negócio sem perda do rigor científico, a demonstração da aplicação dos modelos em outras áreas da saúde, além da precificação e do acesso a capital e fomento. O principal objetivo na nova fase é conquistar o primeiro contrato e aperfeiçoar o modelo de negócios.
Embora atuem em áreas diferentes, materiais avançados, robótica e saúde, as três empresas enfrentam uma questão comum, ou seja, transformar resultados de pesquisa em soluções que possam ser oferecidas de forma sustentável fora da universidade. É justamente nessa passagem que o InovaLab concentra sua atuação. O programa busca apoiar empreendimentos de base tecnológica desde a qualificação da oportunidade até a operação em ambiente de mercado, trabalhando aspectos técnicos, mercadológicos e de gestão.
Para os professores da 4SAIT, essa aproximação exige que os pesquisadores passem a observar suas tecnologias também pela perspectiva de quem enfrenta um problema e pode se tornar cliente. “Uma tecnologia pode gerar valor quando existe um problema real, uma necessidade bem identificada e uma solução capaz de atendê-la”, afirmam.
A equipe da MIRA descreve essa passagem como um momento em que a distância entre pesquisa e produto se torna mais evidente. “A distância entre um resultado de pesquisa e um produto em uso costuma ser maior do que a distância entre a ideia e o protótipo”, afirmam os professores. Para eles, iniciativas como o InovaLab ajudam a enfrentar essa etapa por meio de formação empreendedora, mentorias e conexões com o mercado.
A æqualis também destaca que a universidade reúne conhecimento científico, mas que a chegada ao mercado exige competências adicionais, como formação empreendedora, validação de mercado, proteção da propriedade intelectual, acesso a capital e relacionamento com clientes e parceiros.
A seleção das três empresas coloca pesquisas desenvolvidas com participação de professores do DCC em uma nova etapa de desenvolvimento, agora com o objetivo de transformar tecnologias e conhecimento acumulados na Universidade em produtos e serviços. Para as equipes, o processo também amplia as possibilidades de atuação da pesquisa acadêmica. No caso da MIRA, por exemplo, a expectativa é que a empresa possa contribuir para uma cadeia nacional de mapeamento e robótica e também absorver profissionais formados pela UFMG.
Na avaliação dos professores da 4SAIT, a experiência mostra que a pesquisa desenvolvida na universidade pode ser comunicada a públicos diferentes e aplicada a problemas concretos. Para a equipe da æqualis, a seleção é um marco na passagem da ciência para o negócio, enquanto a MIRA vê a incubação como uma etapa para levar ao mercado tecnologias desenvolvidas ao longo de anos de pesquisa no DCC e na Escola de Engenharia.
As três empresas estão entre as seis novas spin-offs anunciadas pela Inova UFMG ao final do ciclo do InovaLab. A seleção marca, portanto, não apenas a continuidade dos projetos em um programa de incubação, mas uma nova fase para iniciativas que já ultrapassaram a etapa de pesquisa e desenvolvimento e agora precisam estruturar sua atuação como empresas.










