Estudo do DCC sobre o percurso de pesquisadores brasileiros em sua formação revela que a maioria busca emprego em instituições próximas ao local onde cursou a graduação

Reportagem de Ana Rita Araújo - Boletim UFMG 1923

Diferentemente dos europeus e norte-americanos, pesquisadores brasileiros tendem a buscar emprego, ao final de sua trajetória, em instituições próximas “de casa”, ou seja, daquelas em que fizeram o curso de graduação, revela estudo desenvolvido no Departamento de Ciência da Computação (DCC) e recém-publicado no periódico Plos One.

Ao analisar a carreira de cerca de seis mil pesquisadores vinculados aos 100 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) do país, a pesquisa também mostra que atualmente os brasileiros têm optado por construir em instituições nacionais a maior parte de sua formação – graduação, mestrado e doutorado –, realizando apenas o pós-doutorado no exterior.

“Os padrões mais frequentes são os que mostram a pessoa em instituições localizadas na mesma região durante toda a carreira. O pós-doutorado no exterior é uma possibilidade para quem permaneceu muitos anos no mesmo lugar de expandir horizontes e tomar contato com outras realidades institucionais”, avalia o professor Clodoveu Davis, que orientou dissertação de mestrado de Caio Alves sobre o assunto, defendida em julho deste ano. Além de revelar aspectos da cultura brasileira, o trabalho também oferece pistas sobre o crescimento da estrutura nacional de pesquisa e pós-graduação, pois mostra que, embora instituições da região Sudeste continuem a atrair muitos estudantes de todo o país, a distribuição dessa estrutura parece estar melhorando nos últimos anos, tendo decrescido a prevalência de São Paulo.

Ao destacar que cerca de 80% dos pesquisadores dos INCTs obtiveram seu doutorado no Brasil, Clodoveu Davis comenta que o trabalho – feito em colaboração com Marcos André Gonçalves e Jussara Marques de Almeida, também professores do DCC – abre perspectivas para a investigação de questões como mobilidade, representatividade regional da ciência brasileira e impacto das políticas nacionais de fomento à pesquisa e ao desenvolvimento. Em novos estudos, Davis pretende expandir o conjunto de dados, incluindo todos os pesquisadores cadastrados na plataforma Lattes, repositório mantido pelo governo brasileiro, a fim de obter “uma visão mais ampla dos movimentos de carreira feito por cientistas brasileiros”.

Regiões

Para a pesquisa relativa aos cientistas vinculados aos INCTs, foram analisadas as cinco regiões geopolíticas brasileiras – o estado de São Paulo figura como uma sexta região, destacada, para fins metodológicos, da região Sudeste. “Isso se justifica pelo viés populacional do estado, habitado por 44 milhões de pessoas, 22% da população brasileira”, diz Clodoveu Davis, lembrando também que os INCTs são os mais qualificados grupos de pesquisa no Brasil e cobrem bem todas as áreas de conhecimento. Utilizando o filtro de busca pelas etapas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, a pesquisa revela que a maioria ainda procura a região Sudeste e São Paulo.

No que se refere à influência das regiões mais desenvolvidas cientificamente sobre a formação dos grupos brasileiros, o professor do DCC comenta que, no universo pesquisado, a busca por formação é maior na América do Norte, em algumas áreas, e na Europa, em outras, mas a participação das instituições brasileiras na formação de cientistas cresceu ao longo das últimas décadas. Trajetórias que incluem outros países da América Latina praticamente não existem. “Há muito mais pessoas vindo desses países para o Brasil”, comenta Caio Alves. Segundo ele, o estudo mostrou que o fato de o pesquisador ir para o exterior não influencia na mudança de região dentro do país, “mas aqueles que se mudam, o fazem em geral logo depois da graduação”.

Analisados com técnicas de geoinformática, os dados mostram que o padrão mais frequente é o do pesquisador que passa a trabalhar na mesma região em que fez toda a sua formação. A segunda situação mais comum é a do pesquisador que realizou toda a sua formação na mesma região em que se graduou, com a exceção do pós-doutorado, desenvolvido no exterior.

O artigo cita a trajetória de um dos autores, o professor Marcos André Gonçalves, que não segue o padrão prevalente. Gonçalves obteve seu diploma de bacharel em uma instituição no estado do Ceará, fez mestrado em São Paulo e pós-graduação na Virginia (EUA). Após o doutorado, voltou ao Brasil para fazer pesquisas de pós-doutorado na UFMG, onde passou a trabalhar, fixando-se em Minas Gerais. Por outro lado, o professor Clodoveu Davis cursou graduação, mestrado e doutorado na UFMG, onde atua.

Os dados da pesquisa podem ser visualizados em gráficos, por meio de ferramenta desenvolvida por Caio Alves, disponível em site que abriga diversas pesquisas do grupo coordenado por Clodoveu Davis.

Artigo: A Spatiotemporal Analysis of Brazilian Science from the Perspective of Researchers’ Career Trajectories
Publicado na revista Plos One, em 29 de outubro de 2015
Autores: Caio Alves Furtado, Clodoveu Davis, Marcos André Gonçalves e Jussara Marques de Almeida