Departamento de Ciência da Computação da UFMG promove inovação na indústria nacional

sex, 16/10/2020 - 19:30
Português, Brasil

Cientistas de jaleco, equipamentos de testes, supercomputadores. No imaginário de muita gente o ambiente de um laboratório parece um lugar à parte do mundo, onde coisas fantásticas acontecem às escondidas. Mas, no mundo real, a busca por competitividade, melhores produtos e serviços leva à conexão entre pesquisa e indústria e acaba com essa ideia de laboratório isolado. Mais do que nunca a pesquisa é pensada de forma aberta e compartilhada, em sintonia com as demandas da sociedade.

É assim no Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (DCC/UFMG), que trabalha nessa aproximação desde a década de 1980. O departamento também é reconhecido com uma unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), desde 2016. Agora, o DCC reforça essa vocação através de uma parceria com a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), que vai atuar na promoção da conexão da pesquisa realizada no departamento com a indústria.

 

Pesquisas em Visão computacional unem DCC e indústria

O Laboratório de Visão Computacional e Robótica (VeRLab) do Departamento de Ciência da Computação (DCC/UFMG) é um desses lugares que para a maioria das pessoas ainda parece cenário de filme de ficção. Fundado em 1992, o laboratório desenvolve trabalhos em diferentes linhas de pesquisa. Entre os grandes desafios dos pesquisadores estão as pesquisas em Visão Computacional e Robótica, áreas da Inteligência Artificial que interagem com o mundo físico.

Segundo o professor associado do VerRLab, Douglas G. Macharet, o laboratório possui um longo histórico de projetos de pesquisa e desenvolvimento com a indústria, com atuação em segmentos como Óleo e Gás, Mineração, Energia e Telecomunicação. “Com a criação da Unidade Embrapii DCC/UFMG, essa vocação se tornou ainda mais abrangente, facilitando a parceria com outras empresas de vários outros segmentos. A Fundep é, também, uma parceira muito importante, nos auxiliando principalmente nas atividades administrativas e burocráticas. Dessa forma, é possível gastar melhor o tempo focando principalmente no desenvolvimento da pesquisa em si”, analisa Macharet.

Um dos projetos destacados pelo professor é o de operação remota de equipamentos de mineração, em colaboração com o Instituto Tecnológico Vale (ITV/Vale). O objetivo é estudar e desenvolver métodos que facilitem o controle de equipamentos de grande porte por um operador remoto. A teleoperação possui um papel importante, trazendo benefícios como: redução da exposição a ambientes insalubres; melhoria das condições de trabalho; disponibilidade de mão de obra em áreas remotas e redução de custos com transporte e mudanças de turnos.

“Um dos grandes desafios está principalmente no aspecto humano e na sensação de imersão que o operador terá em relação ao ambiente em que a máquina está operando. Para isso, avaliamos dispositivos de realidade aumentada e principalmente o uso de interfaces hápticas, que permitem ao operador sentir a ‘força’ que o equipamento está fazendo. Dessa forma, tanto a máquina quanto o humano podem trabalhar de maneira colaborativa para realizar o trabalho da melhor maneira possível”, afirma o professor.

 

Parceria da academia na trajetória de aprendizado

Do lado da indústria, a Maxtrack, empresa de rastreamento e telemetria que tem sede em Nova Lima e unidade fabril em Betim, ambas na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), é uma parceira antiga do DCC. Em 2017, quando começou a estudar um projeto na área de visão computacional buscou ajuda no departamento.

De acordo com o CEO da Maxtrack, Gustavo Horta Travassos, essa é uma parceria que deve ser renovada durante muito tempo. Para ele, estar próximo da academia e, em especial, do DCC, é determinante para o resultado dos negócios. “Fizemos um projeto que inaugurava uma nova área para nós, que é a visão computacional. Era difícil porque se tratava de um projeto de risco. Nesse tipo de trabalho, nem sempre o investimento dá origem a um produto. Nessa parceria com o DCC e a Embrapii, a gente divide o investimento e isso facilita tudo. Para nós, inovação é um processo permanente, então, íamos enxergando em cada módulo realizado as oportunidades que surgiam dali para frente”, relembra Travassos.

Atualmente, o projeto dessa parceria envolve o desenvolvimento de um dispositivo capaz de integrar imagens e dados coletados dentro do veículo, sem a necessidade de enviá-los para uma central. A ideia é que os dados possam ser lidos e analisados em lugares remotos com baixa ou nenhuma conectividade. Em um país com as dimensões continentais e desigualdades regionais como o Brasil, a solução pode facilitar a vida de empresas e trabalhadores de diferentes setores. “Existem soluções parecidas com as nossas, mas que exigem uma boa conectividade para o envio de dados para a nuvem. Queremos atender setores como a mineração e o agronegócio, por exemplo, que já conseguiram digitalizar a atividade do ‘portão para fora’, mas não conseguem fazer a mesma coisa no interior da operação”, destaca o empresário.

No comando de uma equipe de 126 pessoas e depois de ver a operação paralisada por causa da pandemia de Covid-19, ele começa a sentir uma leve recuperação mas acredita numa retomada efetiva apenas no ano que vem. Para isso, também é importante estar perto de um centro de pesquisa de excelência. “Estar perto do DCC nos ajuda a atrair profissionais com ótima formação e que continuam interessados em manter a vida acadêmica. Depois do impacto do fechamento da economia, quando tivemos que diminuir o tamanho da equipe, já voltamos a contratar em agosto. O mercado brasileiro oferece muitas oportunidades para o trabalho que realizamos e é nele que concentramos nosso foco agora”, completa o CEO da Maxtrack.

 

Elo conector

De acordo com o coordenador da unidade Embrapii DCC/UFMG, professor Geraldo Robson Mateus, estar perto da comunidade é uma “obrigação” da Universidade, mas nem sempre o contato direto com as empresas é fácil. Daí a importância de se ter um intermediador como a Fundep. “Ser uma Unidade Embrapii (UE) nos deu mais visibilidade, mas, ainda assim, esse contato com as empresas não é uma tarefa tão simples. Hoje, somos demandados por muitas delas, mas podemos fazer mais. Aí que entra a Fundep. Ela tem o papel de ir até a base da universidade para buscar o que está sendo feito e levar à sociedade o que é de interesse dela. A Fundep pode fazer esse trabalho de prospecção com a sua expertise, nos deixando mais liberados para a pesquisa e o atendimento à demanda espontânea”, explica o professor.

No Brasil essa conexão entre pesquisa e indústria é urgente. Publicado em junho desse ano, o Anuário de Competitividade Mundial 2020 (World Competitiveness Yearbook – WCY) registrou o avanço do Brasil em três posições, ocupando agora o 56º lugar. É o quarto ano consecutivo que o país apresenta ganhos de competitividade. Apesar do avanço, o resultado é pouco satisfatório. O estudo, publicado pelo IMD (International Institute for Management Development), em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC), conta, ao todo, com a avaliação de 63 nações.

Segundo Janayna Bhering, de Negócios e Parcerias da Fundep, a parceria entre a Fundação e o DCC tem o objetivo de potencializar as ações referentes à conexão ICT (Instituição de Ciência e Tecnologia) e empresas, no intuito de aumentar a capilaridade de projetos Embrapii, nesta unidade. “A Fundep construiu uma metodologia para atuar no processo de prospecção ativa, bem como, na criação de estratégias comerciais e de comunicação. Dessa forma, o fruto da nossa parceria tem como foco potencializar o DCC como um ambiente promotor de inovação nacional e internacional. Vale a pena destacar que o Marco Legal da C,T&I estimula este tipo de interação e, assim como o Programa Embrapii, existem oportunidades de utilizar incentivos e benefícios fiscais como a Lei do Bem, a Lei da Informática e outros, de forma a se estabelecer uma gestão estratégica dos recursos para inovação”, pontua Janayna Bhering.

As empresas interessadas podem fazer contato com a Fundação por meio das redes sociais ou pelo e-mail do time de negócios: lorenasouza@fundep.com .br