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Ciência, inovação e tecnologia
Atualizado: 9 horas 18 minutos atrás

Arte & Ciência: Velázquez segundo Ortega y Gasset

qui, 15/11/2018 - 08:00

Auto-retrato de Velázquez (1599-1660) / Coleção da Real Academia de Belas Artes de San Carlos, Museu de Belas Artes de Valência

Diversos livros especializados buscaram desvendar aspectos específicos e gerais do vasto talento e da prodigiosa habilidade de Diego Rodríguez de Silva Velázquez (1599-1660).

Em tais estudos, as pinturas do grande artista, natural de Sevilha, são minuciosamente dissecadas segundo critérios técnicos, estéticos e/ou academicistas.

De modo contrário a tais “correntes” ensaísticas, um dos mais importantes pensadores do século XX embrenha-se no desafio de analisar o grande pintor segundo preocupações completamente distintas – posto que teóricas, sociais e filosóficas.

No belo livro Velázquez, José Ortega y Gasset (1883-1955) dedica-se à obra do pintor sevilhano a partir de intrigante (auto)inquirição:

“O que um homem um tanto meditativo pode dizer sobre um assunto de que profissionalmente não entende?”.

Eis o (humilde) mote para que o autor espanhol – famoso por suas intervenções em searas teóricas as mais diversas (da filosofia à teoria social; da crítica cultural à estética) – resolvesse aceitar, em 1943, o inusitado convite da editora Iris, de Berna.

O resultado não poderia ser melhor!

Em sua saborosa (e, claro, surpreendente) jornada pelo universo da crítica de arte, Ortega y Gasset discute a “revivescência” dos quadros de Velázquez, assim como reconstitui a influência de Caravaggio sobre o artista.

Atem-se, ainda, a questões como o formalismo, os temas, a fama e o “puritanismo” do pintor, além de comentar problemáticas relacionadas aos processos de visualidade nas artes plásticas.

Leia um trecho:“Ao falar de Velázquez disse-se sempre que ele pintava o ar, o ambiente etc. Não acredito muito em nada disso nem nunca encontrei algo que esclareça o que se quer enunciar com tais expressões. O efeito aéreo de suas figuras deve-se simplesmente a essa feliz indecisão entre perfil e superfície em que as deixa. Seus contemporâneos achavam que não estavam ‘acabadas’ de pintar, e por isso Velázquez não foi popular em sua época. Ele tinha feito a descoberta mais impopular: que a realidade se diferencia do mito por nunca estar acabada.”

Ficha técnica:

Livro: Velázquez

Autor: José Ortega y Gasset

Editora: WMF Martins Fontes

Tradução e organização: Célia Euvaldo

Páginas: 197

Ano: 2016

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Categorias: Pesquisa

Pesquisadores da UFMG buscam tratamentos mais eficazes contra o câncer

qua, 14/11/2018 - 08:00

No início deste ano, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgou uma estimativa da incidência da doença no Brasil para o ano de 2018. Segundo a publicação, o biênio 2018-2019 seria marcado pela ocorrência de 600 mil novos casos de câncer no Brasil para cada ano. Ainda de acordo com o Inca, com exceção do câncer de pele não-melanoma, os tipos de câncer mais frequentes serão os cânceres de próstata (68.220 casos novos) em homens e de mama (59.700 mil) em mulheres.

Diante deste cenário, a busca por tratamentos mais eficazes e menos agressivos tem sido o objetivo de pesquisadores mundo à fora. Em Minas Gerais, um grupo de pesquisadores do Departamento de Patologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), financiado pelo Instituto Serrapilheira, tem focado no estudo sobre a influência do sistema nervoso na progressão tumoral.

Coordenado por Alexander Birbrair, o estudo apresenta conceitos completamente novos na biologia dos tumores. Segundo o pesquisador, o grupo descobriu que os nervos não ocupam um papel passivo em relação à progressão do tumor, mas sim, exercem uma função proativa e maior protagonismo, como entidades essenciais dentro do microambiente tumoral que podem afetar a progressão do tumor.

Birbrair conversou com a Minas Faz Ciência e explicou como a pesquisa pode impactar diretamente nos tratamentos do câncer por meio da criação de maneiras mais especificas para a eliminação dos tumor. Confira:

O que te motivou a realizar este estudo?

Além da busca constante de conhecimento para melhorar a nossa capacidade de agir na cura de doenças, nossa principal motivação são os pacientes com câncer. Todos nós conhecemos alguém que já passou por essa doença. Mas sabemos que ela não é necessariamente fatal. Ela pode ser tratada, porém, em muitos casos, os efeitos dos tratamentos ainda são muito tóxicos para os pacientes. Infelizmente.

Qual é o objetivo da pesquisa?

Todos nós temos células com potencial de formar câncer. Então, por que somente algumas pessoas se tornam reféns desta doença? A razão disso é que as células malignas dependem do microambiente dos tecidos onde elas se encontram. O nosso grupo, na UFMG, financiado pelo Instituto Serrapilheira, estuda a função do sistema nervoso periférico, presente em todos os tecidos, durante o desenvolvimento de tumores. Nós já sabemos que o sistema nervoso controla diversas funções no nosso organismo, como, por exemplo, os batimentos do coração. Mas será que o sistema nervoso também regula se as células tumorais vão crescer ou não dentro de nós? É isso que estamos atualmente descobrindo. Estamos identificando os mecanismos pelos quais o crescimento do tumor é regulado pelo sistema nervoso periférico; e, baseado nestes mecanismos, estamos criando maneiras de manipular o sistema nervoso periférico para inibir o desenvolvimento tumoral. Assim, esperamos que controlando o sistema nervoso periférico, possamos tanto eliminar as células tumorais como também impedir a sua volta. Nós acreditamos que essa abordagem poderá levar ao dia em que vamos poder dizer a todos vocês: todos nós temos células com potencial de formar câncer, no entanto nenhum de nós se tornará refém desta doença.

 

Alexander Birbrair coordena grupo de pesquisadores que estuda a relação entre sistema nervoso e células tumorais (Acervo pessoal)

Qual é o grande diferencial deste estudo?

Com nossos estudos, descobrimos que tanto os nervos como as células associadas a eles, as chamadas células de Schwann, têm funções muito importantes dentro dos tumores afetando o seu crescimento. Inicialmente, descobrimos que um marcador de células de Schwann estava presente dentro dos tumores. Depois, descobrimos que tais células se associavam a vasos sanguíneos. Durante o crescimento do tumor, as células desgrudam dos nervos e se juntam aos vasos sanguíneos tumorais, tentando impedir o crescimento tumoral. Também descobrimos a presença de vários tipos de nervos dentro dos tumores. Descobrimos que estes nervos não estão ali passivos, mas têm funções proativas dentro dos tumores, afetando o seu desenvolvimento. Descobrimos tanto nervos simpáticos, parassimpáticos como nervos sensoriais infiltrados dentro dos tumores. Por isso, agora estamos injetando estas células dentro dos tumores para bloquear o desenvolvimento tumoral.

Quais foram os principais resultados?

Nos descobrimos que o microambiente tumoral pode ser muito mais complexo do que antes se pensava. Descobrimos que o sistema nervoso periférico está presente dentro do tumor, tanto em câncer de próstata, como em outros tipos câncer. Agora, estamos avaliando qual a importância das inervações dentro dos tumor. No futuro, esperamos poder controlar estes nervos dentro dos tumores para regular o crescimento tumoral, para melhorar os tratamentos disponíveis atualmente, que infelizmente são muito tóxicos para os pacientes com vários efeitos colaterais. Assim, nos esperamos que o impacto no tratamento, será a criação de maneiras mais especificas para a eliminação dos tumor. Pretendemos também entender como os tecidos são afetados depois da passagem do tumor, mesmo em pacientes que estes tumores são eliminados, para entender como podemos evitar que estes tumores voltem.

Quais são as possíveis aplicações deste estudo para a área da saúde?

As principais formas de tratamento atuais são quimioterapia e radioterapia, que matam as células cancerígenas. Porém a estratégia afeta também outras partes do corpo, acarreta diversos efeitos colaterais e causa até mesmo a morte de pacientes. Pois a maioria das drogas desenvolvidas contra o câncer se baseiam em matar células que crescem sem parar (que são as células malignas), no entanto varias outras células no nosso organismo também podem crescer e se dividirem, como as células do sangue por exemplo. Por isso a quimioterapia e a radioterapia acaba afetando não só as células de câncer, mas também outras células normais. É por isso que estes pacientes muitas vezes perdem os cabelos, apresentam feridas na pele, as unhas caem muitas vezes precisam passar por transplante de medula óssea após o tratamento.

Quais são os objetivos futuros da pesquisa?

Em nossos estudos estamos utilizando modelos animais pré-clínicos de câncer, como também biopsias humanas. Usando modelos transgênicos de camundongos, somos capazes de deletar componentes específicos do microambiente tumoral e estudar a sua função nos tumores. Comparando, para saber qual a minha função dentro do meu grupo de pesquisa, eu irei analisar como o grupo funciona sem mim e como funciona comigo. Dai se o grupo funciona sem mim de uma forma diferente, eu consigo deduzir qual a minha contribuição para o meu grupo. O mesmo conseguimos fazer com células e genes. Nós conseguimos deletar genes específicos em células especificas em um dado tecido em um determinado momento. Isso nos possibilita estudar a função de cada componente do microambiente tumoral, durante a progressão do tumor de próstata assim como de outros tumores.

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Categorias: Pesquisa

Pesquisa estuda espécies de sempre-vivas em MG

ter, 13/11/2018 - 11:17

Apesar de delicadas, as sempre-vivas são muito resistentes, e têm esse nome porque conseguem manter suas flores vivas por anos, até mesmo décadas.

Pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) estudam a taxonomia — ciência que descreve as espécies — das plantas sempre-vivas.

O objetivo é conhecer sua diversidade e evolução.

A equipe é coordenada pela professora Lívia Echternacht Andrade, do Laboratório de Sistemática Vegetal do Departamento de Biodiversidade, Evolução e Meio Ambiente.

Sempre-vivas no Brasil

No Brasil, existem 630 espécies de sempre-vivas, principalmente nos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás.

A Serra do Espinhaço, onde se localiza o município de Diamantina (MG), abriga o Parque Nacional das Sempre-Vivas. Lá é possível encontrar mais de 2 mil espécies de planta, não apenas sempre-vivas.

Os pesquisadores da UFOP desenvolvem estudos que buscam responder como essa multiplicidade evoluiu no espaço e no tempo. Há grupos de espécies que são típicas dos brejos, outras, dos areais.

Segundo a professora Lívia, há um projeto em andamento em que são estudadas cerca de 30 espécies encontradas no Parque Estadual do Itacolomi e na Serra de Lavras Novas.

Outra pesquisa investiga um conjunto de 29 espécies ameaçadas de extinção, localizadas no Parque do Itacolomi.

Por que estudar a evolução das sempre-vivas?

“A gente precisa conhecer a evolução para saber como as linhagens se diversificam ao longo do tempo. Há um princípio de conservação também. Identificar a diversidade atual é o que vai permitir manter essa biodiversidade no futuro”, explica a pesquisadora.

Lívia conta que os estudos sobre as árvores evolutivas (filogenia) são recentes, e foram consolidados nos últimos 20 anos, no Brasil, em função do processo de expansão das Universidades e da pós-graduação, realizados nas últimas décadas.

“Preservar as linhagens evolutivas é preservar o potencial de evolução, o futuro da biodiversidade”, detalha a professora.

Imagem meramente ilustrativa de sempre-vivas na Serra do Cipó / Foto de Antonio José Maia Guimarães via Wikimedia Commons

Patrimônio agrícola mundial e função social

As sempre-vivas são muito utilizadas na produção de arranjos e fazem parte do mercado de flores ornamentais da região do Espinhaço desde 1930.

Elas são coletadas por diversas famílias da região, autodefinidas como “apanhadores de flores sempre-vivas“, e são um importante meio de subsistência para essas pessoas.

“Muitos aprendem o ofício quando crianças, descendo e subindo a Serra do Espinhaço e, por isso, possuem uma ligação com as plantas que vai além do financeiro e as conhecem como ninguém”, relata.

No entanto, devido ao extrativismo acelerado dessas plantas, causado por seu baixo custo no mercado, à expansão urbana, à mineração e à agricultura, muitas espécies estão ameaçadas de extinção.

“Eles se organizam não apenas para coletar em campo, mas também para enriquecer os campos com sementes. Eles coletam um número bem menor de flores e agregam valor com o artesanato”, comenta Lívia. Usando menos flores, é possível produzir um trabalho artesanal que pode ser comercializado a um preço superior, em comparação à simples venda da planta a quilo.

Diante disso, foram desenvolvidos diversos projetos de manejo controlado do ambiente e foi criada a Associação de Artesãos de Sempre-Vivas, visando promover um espaço de discussão e planejamento coletivo do cultivo das plantas.

Atualmente essas comunidades de apanhadores são referência internacional e foram indicadas ao programa da FAO/ONU como “Patrimônio Agrícola Mundial” pela Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (Codecex).

A organização social que representa regionalmente as comunidades apanhadoras de flores sempre-vivas, com o apoio de pesquisadores.

“O artesanato das sempre-vivas pode favorecer a conservação das espécies, se feito de forma manejada e sustentável“, diz Lívia.

Foto de Bruno Vinícius / Via WikiParques, no Parque Nacional das Sempre-Vivas

Pesquisa básica

A professora destaca que ainda falta muita pesquisa de base neste campo da Botânica: “Quando vamos em áreas de campo rupestre pouco coletadas, muitas vezes encontramos espécies novas para a ciência, nunca antes descritas. Isso mostra o quanto a pesquisa sobre o tema está começando, é preciso conhecer o fundamental, onde elas ocorrem, como elas são. Isso é pesquisa básica“.

O grupo de pesquisa coordenado por Lívia tem a expectativa de estender este trabalho de taxonomia para que haja um levantamento sólido, principalmente de gêneros que têm uma diversidade enorme e são pouco conhecidos.

“Desde os anos 2000, aumentou muito o número de pessoas trabalhando nessa área. Mas ainda temos muito a fazer porque, antes disso, o trabalho mais consolidado sobre o tema era do começo do século XX“, detalha.

Importância das coleções científicas

Para a consolidação dos estudos, é de suma importância também a criação e preservação de coleções científicas que, no caso das plantas, são arquivadas nos herbários.

“Pegamos os exemplares na natureza, desidratamos, catalogamos, e eles ficam arquivados em herbários para acesso de outros pesquisadores”, explica a professora.

O trabalho de criação e manutenção de herbários é importantíssimo para a pesquisa em Botânica, inclusive porque as áreas naturais vem sendo degradadas a ponto de muitas espécies não existirem mais na natureza.

Em Minas Gerais, o maior herbário é o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas a UFOP tem uma importante coleção histórica, “uma das mais antigas do Brasil e com certeza a mais antiga de Minas Gerais”, conta Lívia.

Ao comentar o incêndio do Museu Nacional, ela celebra o fato de que o herbário do MN havia sido retirado do prédio principal há alguns anos, o que o manteve preservado após a tragédia:

“É a maior coleção histórica de plantas do Brasil. É preciso preservar esses espaços”, conclui a pesquisadora.

Com informações da Assessoria de Comunicação da UFOP.

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Categorias: Pesquisa

Cirurgia robótica: tecnologia e alta precisão para medicina

seg, 12/11/2018 - 08:00

Quando falamos em robô, o que vem à sua mente? Aqueles humanoides que obedecem aos comandos? É hora de repensar esta ideia porque a robótica vai além das imagens construídas nos filmes de ficção científica. Os robôs estão, por exemplo, nos hospitais ajudando médicos em cirurgias e fazendo parte de procedimentos complexos para salvar vidas.

A cirurgia robótica é uma realidade na medicina. “Um caminho sem volta, que eu costumo comparar com o carro elétrico. Está caro, ainda temos pouco acesso, mas é algo que veio para ficar”, afirma o ginecologista da Rede Mater Dei e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Agnaldo Lopes.

De acordo com o médico, o uso dessa tecnologia representa o que há de mais avançado no campo da cirurgia minimamente invasiva. Permite alta precisão, possibilita recuperação mais rápida, menor tempo de internação e reduz a taxa de complicação em pacientes. Nesse procedimento, o médico usa um console do sistema robótico, com visualização tridimensional, alta definição e ampliação da imagem, facilitando a compreensão da anatomia cirúrgica.

A cirurgia robótica começou nos Estados Unidos por causa de uma necessidade prática e tática, conforme explica o Agnaldo Lopes. “Era preciso operar soldados no front de batalha”, afirma. Um procedimento que marcou a história foi feito, em 2001, com médicos à distância: parte da equipe estava em Nova York e outra, na França, para operar um militar. A partir daí, a tecnologia começou a disseminar.

Robô Da Vinci XI. Foto: Samuel Gê/ Divulgação Comunicação Social Rede Mater Dei de Saúde

Segundo o médico, a legislação obriga a presença de um cirurgião na mesma sala que o paciente. O robô é, na verdade, um avanço à técnica de laparoscopia, que faz pequenas incisões para entrada de um tubo bem fino com uma câmera responsável por transmitir a um monitor imagens do interior do corpo. “Todo o controle, mesmo na cirurgia robótica, continua sendo do cirurgião, mas nesse caso, há mais segurança no procedimento”, explica.

Os médicos que realizam o procedimento passam por treinamentos fora do Brasil e precisam de certificações. “O cirurgião faz provas e tem que passar por capacitação em simuladores. Depois, opera com a presença de um tutor, só então, é liberado para fazer os procedimentos com autonomia”, detalha Agnaldo Lopes.

No mundo, há cerca de 3 mil robôs usados em cirurgias O Brasil tem aproximadamente 40 robôs espalhados em São Paulo, Rio, Recife, Fortaleza, além de Belo Horizonte e Grande BH onde há 3 equipamentos Aplicações

A cirurgia robótica é comum em várias aplicações: urologia, ginecologia, cirurgia torácica, coloproctologia, procedimentos em pacientes com câncer, nas reduções de estômago, entre outras.

robô Da Vinci XI, da Rede Mater Dei, é um dos equipamentos usados em Belo Horizonte. Se tornou um diferencial em cirurgias oncológicas. No caso de câncer ginecológico, por exemplo, é possível identificar tumores em tempo real por meio de uma tecnologia de infravermelho: o Firefly. A imagem fluorescente permite que os cirurgiões tenham uma visão minuciosa, avaliem melhor a anatomia de vasos e estruturas, além de possibilitar uma pesquisa mais precisa de linfonodos.

Quando o assunto é câncer de próstata, a cirurgia robótica reduz o risco de sequelas como incontinência urinária e impotência. De acordo com a Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), há pacientes que recebem alta hospitalar com menos de 24 horas de internação, quando o normal é, no mínimo, dois dias. Os hospitais da rede Feluma – Vila da Serra e Felício Rocho, realizaram 600 cirurgias robótica em dois anos, sendo 357 (59,5%) para tratamento do câncer de próstata.

Robô Da Vinci XI. Foto: Samuel Gê/ Divulgação Comunicação Social Rede Mater Dei de Saúde

Saúde pública

A tendência é o uso de robôs em procedimentos cirúrgicos se espalhar, chegando ao Sistema Único de Saúde (SUS), mas isso ainda não é uma realidade. “Tem que criar possibilidade de disseminação, no entanto o custo do robô ainda é um empecilho”, destaca Agnaldo Lopes.

Atualmente, o Ministério da Saúde oferece incentivos fiscais para projetos que utilizem a tecnologia robótica, pelos programas de Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS) e Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (Pronon), feitos por entidades filantrópicas credenciadas. Conforme Agnaldo Lopes, somente o Hospital de Câncer de Barretos e o Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Rio de Janeiro, atendem com cirurgia robótica pelo SUS.

No âmbito das pesquisas, Agnaldo Lopes avalia que a Universidade Campinas (Unicamp) e a Universidade de São Paulo (USP) – por meio da Policlínica IESEP – estão bastante envolvidas nos estudos sobre cirurgia robótica. Talvez sejam as mais adiantadas na possibilidade de desenvolver tecnologias brasileiras para a área.

Algoritmos

O professor e pesquisador Bruno Vilhena Adorno, do Departamento de Engenharia Elétrica da UFMG, participa, desde 2017, de uma pesquisa em conjunto com a Universidade de Tóquio sobre controle de robôs para aplicações cirúrgicas. Recentemente, Adorno desenvolveu algoritmos que norteiam o funcionamento “inteligente” de robôs-cirurgiões.

Em maio deste ano, a equipe da Universidade de Tóquio apresentou, durante a International Conference on Robotics and Automation (ICRA/2018), realizada na Austrália pelo Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE), um sistema que possibilita, por exemplo, operar o interior do tórax de fetos sem risco de quebrar costelas ou danificar tecidos. Adorno participou do desenvolvimento do software para o robô montado pelos pesquisadores japoneses.

De acordo com o professor da UFMG, ideias para projetos em robótica surgem de modelos matemáticos, ou seja, conjuntos de equações que regem o funcionamento dos sistemas e se traduzem em um programa de computador.

No caso da operação robotizada, o médico manuseia alavancas em uma plataforma à parte, que funciona como extensão de seu corpo. Esse sistema “inteligente” interpreta os movimentos do médico com bastante precisão, o que possibilita o uso de técnicas para anular ruídos, como os tremores naturais das mãos.

(Com informações da assessoria de comunicação da UFMG)

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Categorias: Pesquisa

Reaproveitamento de resíduos sólidos da construção civil

sex, 09/11/2018 - 15:59

A construção civil é um segmento da indústria que têm gerado impactos visuais e ambientais. Grandes empreendimentos alteram a paisagem e geram resíduos sólidos: tijolos, telhas, revestimentos cerâmicos, vidros, gesso, madeira e plásticos, entre outros, são exemplos dos materiais descartados nos processos de construção.

Raphael Tobias de Vasconcelos, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG, pesquisa a gestão desse tipo de resíduo. Estuda o processo de gestão, as quantidades produzidas e faz análises da caracterização dos resíduos e do potencial de aproveitamento. Ele fala à Minas Faz Ciência sobre os resíduos sólidos gerados pela indústria da construção e sobre soluções sustentáveis para o reaproveitamento desse tipo de material.

MFC: Quais são os resíduos sólidos da construção civil?

Raphael Tobias: Antigamente, tratava-se como se fosse o entulho da construção: cimento, areia, argamassa etc. Hoje, além desses materiais mais tradicionais, aparecem agora como resíduos da construção civil alguns plásticos, metais e papeis, que servem como embalagem de outros produtos ou que são usados em parte construção. Há também resíduos como as latas de tintas, antes consideradas perigosas, em função da presença de metais pesados. E também materiais de dragagem e de limpeza. É uma quantidade grande de materiais em proporções distintas, que dependem do tipo de obra.

MFC: Qual a dimensão da geração de resíduos sólidos na construção civil?

Raphael Tobias: Uma parte passa pelo controle de órgãos públicos de fiscalização, outra parte é feita clandestinamente: feito em locais onde o poder público tem pouco controle. Mas fala-se em 1 kg por habitante/dia. São milhões de toneladas acumuladas. Então, apesar do material não ser necessariamente perigoso, pelos volumes descartados ele oferece muito transtorno e tem impactado zonas urbanas e rurais.

MFC: Quais são os impactos ambientais associados?

Raphael Tobias: Há impacto visual e impacto sobre o trânsito. Do ponto de vista ambiental, se esse material é descartado de maneira inadequada, acaba indo parar nos leitos dos rios, provocando assoreamento. Dificulta também a vazão dos rios e começa a oferecer resistência, impedindo que a água flua. O assoreamento acaba ainda aumentando a proliferação de vetores de doenças. Nesses materiais aparecem pontos de retenção de água que acaba favorecendo o aumento do número de mosquitos, por exemplo.

MFC: Quais são soluções possíveis? Como a construção civil pode gerar processos mais sustentáveis?

Raphael Tobias: A solução começa com um bom projeto arquitetônico e de engenharia, que já prevê o aproveitamento correto dos materiais e que evite muita perda. Por exemplo, algumas esquadrias são medidas com 6 metros. Se um projetista determinar que a dimensão de uma janela vai ser um valor de 1,5, 2 ou 3 metros, ao ser cortado, é possível aproveitar tudo do material. Se for um valor que não seja múltiplo de 6, vão sobrar pontas. Então um bom projeto prevê o aproveitamento tão integral quanto possível dos materiais. Depois, são importantes alguns cuidados na obra, para evitar a geração de resíduos e, se gerado, a separação dos materiais pensando em um possível reaproveitamento.

MFC: Nas universidades e centros de pesquisa, o que está sendo pensado para confeccionar novos materiais ou para trazer soluções mais sustentáveis?

Raphael Tobias: Alguns experimentos são no sentido de produzir materiais novos, reaproveitando materiais já usados e garantindo condições de qualidade. Conhecer esses materiais, saber em que proporções eles podem ser misturados e o tipo de aproveitamento que pode ser feito são passos essenciais nesse processo. São formas de aproveitar essas sobras de uma maneira mais fácil e eficiente.

Mas o grande segredo, independente da pesquisa, é a separação desse material no momento da geração. É possível aproveitar agregado com agregado (cerâmica com cerâmica, vidro com vidro, etc), mas algumas misturas não dão certo. O material precisa ser separado pensando nesse eventual reaproveitamento.

E por mais que exista alguma tecnologia adequada, se não houver uma participação determinada das pessoas, em todos os níveis, engenheiros, executores e compradores, nada vai funcionar. É preciso que a sociedade tenha esse nível de consciência para que a tecnologia possa ser usada de maneira conveniente e completa.

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Categorias: Pesquisa

Pela primeira vez, missão brasileira escavará tumba egípcia

qui, 08/11/2018 - 18:40

Por William Araújo

Amenenhet – Acervo Bape (Brazilian Archaeological Program in Egypt)

Em 10 de janeiro de 2019, pela primeira vez, por meio da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Brasil enviará brasileiros para escavar uma tumba na margem oeste do Nilo, na Necrópole de Luxor, no Egito. O idealizador do Projeto Amenenhet, o doutor em arqueologia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor José Roberto Pellini, é também um dos fundadores do Programa Arqueológico de Brasileiros no Egito (Bape – Brazilian Archaeological Program in Egypt), que detém a concessão para investigar o local.

De acordo com José R. Pellini, desde 2008 trabalhou em missões arqueológicas na Necrópole de Luxor, porém por meio de iniciativas Argentinas. Por volta de 2012, algumas pesquisas tiveram desfecho e o governo egípcio o convidou para iniciar novo projeto. O pesquisador criou, em 2015, na Universidade Federal do Sergipe, o Bape e apresentou propostas de escavações de monumentos.

Dentre os templos e tumbas disponibilizados pelos egípcios, o Bape se interessou pela Tumba Tebana 123 (TT 123 – Theban Tomb), em que jaz o sacerdote e escriba Amenenhet, responsável pela contagem dos pães no Templo de Karnak durante o governo do faraó Thutmosis III, no período do Novo Império (por volta de 1500 a.c). Por isso, a missão arqueológica passou a se chamar Projeto Amenenhet (Project Amenenhet).

A equipe é composta por brasileiros, húngaros, franceses, argentinos e outras nacionalidades e fez algumas incursões em 2016 e 2017, que serviram para identificar diretivas. Atualmente, segundo José, o projeto tem três objetivos:

  • Arqueológico – com investigações por meio de escavações
  • Antropológico – com a comunidade local para identificar características e significados históricos
  • Cultural – com a criação de narrativas alternativas à científica para que todos públicos possam absorver conhecimento sobre a tumba.

Consoante pesquisador, a tumba também foi escolhida por ser inédita, ou seja, ainda não escavada, e ter traços atípicos sobre a história. A tumba é clássica, tem formato em T, todas paredes têm pinturas e esculturas em baixo-relevo que contam a história do escriba.

Sala que será escavada este em 2019 – sala anexa – Acervo Bape (Brazilian Archaeological Program in Egypt)

Professor José Pellini – Foto William Araújo – Minas Faz Ciência

No século XIX, um arqueólogo adentrou o lugar, ficou um dia e fez anotações, mas nenhum trabalho além desse. A expedição brasileira terá 50 dias para escavar a sala anexa à câmara funerária, que tem, aproximadamente, 12m² e 3m de altura e é onde o escriba guardou seus pertences, diz José.

Serão 18 integrantes a retirar rochas e sedimentos, evidenciando objetos e materiais arqueológicos. Todos os artefatos encontrados passarão pelo processo de conservação e serão entregues ao governo egípcio. No futuro, a equipe planeja mapear a tumba virtualmente e criar um simulador de visitas em realidade virtual.

Existe, ainda, ligada ao local, outra Tumba Tebana (TT 368), à qual o Bape também tem permissões para escavação. Essa tumba pertence a Amenhotep, que foi superintendente do ateliê de escultura do faraó. Conforme dados do boletim UFMG, seu estilo e decoração sugerem que tenha sido construída na época de Ramsés II, na 19ª Dinastia. Ela parece ter um quarto da área de TT 123, com a qual se conecta, e corre risco de ruir, razão pela qual só poderá ser escavada depois de passar por serviços de estabilização da estrutura”.

Veja mais no vídeo abaixo.

 

Leia mais

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Categorias: Pesquisa

Pesquisadoras criam barras de cereal de flor de hibisco

ter, 06/11/2018 - 08:00

As barras de cereal se popularizaram como lanches rápidos e práticos, ganhando preferência na dieta de quem se esforça para emagrecer.

No entanto, o consumo dessas barrinhas pode ser uma armadilha, pois muitas delas têm alto teor de açúcar e gordura.

Outro alimento frequentemente consumido por quem está de dieta é o famoso chá de hibisco.

Na Universidade Federal de Lavras (UFLA), duas pesquisadoras dedicaram-se a unir a praticidade da barra de cereal com as vantagens nutricionais do hibisco.

Nos departamentos de Química e de Engenharia de Alimentos, a estudante Vitória Pinto dos Santos e a professora Luciana Lopes Silva Pereira uniram seus esforços de pesquisa para colocar todos os benefícios da flor de hibisco em barras de cereal.

Benefícios do hibisco Além dos benefícios nutricionais agregados à adição do hibisco, as barras desenvolvidas na UFLA ainda contêm 60 calorias em uma porção de 20 gramas, ou seja, são menos calóricas do que a barra convencional encontrada no comércio (em torno de 70 calorias).

O hibisco é uma planta exótica de origem africana. Rica em compostos antioxidantes, a planta é popularmente conhecida por sua ação diurética.

Para a pesquisa, o hibisco foi desidratado e se tornou ingrediente de geleia sem adição de açúcar.

Com a fórmula, as pesquisadoras criaram duas barras de cereais: uma recheada e outra com a geleia misturada na composição.

Para enriquecer o alimento, foram acrescentados aveia, rica em fibras e proteínas, e óleo de chia, famoso pelo alto teor de antioxidantes e ômega 3.

Vitória Pinto dos Santos e sua orientadora, Luciana Lopes Silva Pereira. Reprodução / UFLA

Barras de cereal aprovadas no teste de sabor

Oitenta voluntários avaliaram as barrinhas desenvolvidas nos laboratórios da UFLA nos quesitos sabor, textura, aparência e impressão global.

“A composição da barra foi pensada para atender valor nutricional e pelo menos 85% dos participantes aprovaram o produto”, informou a estudante Vitória Pinto dos Santos.

Os efeitos da adição da geleia de hibisco em barra de cereal convencional também foram analisados.

A inovação duplicou o percentual de fibras e proteínas do produto:

“Comprovamos a diminuição da quantidade de lipídios (gordura) e a redução de carboidratos no alimento”, afirmou a orientadora, a professora de Bioquímica Luciana Lopes Silva Pereira.

Confira o resumo da pesquisa também em vídeo:

Há quatro anos, a UFLA investe em pesquisas para desvendar a flor de hibisco.

 

Com informações da Assessoria de Comunicação da UFLA.

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Algoritmos ajudam a encontrar, rastrear e identificar pessoas em vídeos

seg, 05/11/2018 - 11:42

Se lembra de algum filme em que reconhecimento facial, verificação de íris e imagens de câmeras de segurança são fundamentais para resolução de crimes ou servem para grandes heróis salvarem a humanidade dos perigos? Aposto que sim, porque é comum o cinema retratar as tecnologias em narrativas de ação e ficção científica.

Essas histórias estão cada vez mais inseridas no mundo real, muito além do que você pode imaginar. O grupo de pesquisadores do Laboratório Smart Sense, do Departamento de Ciências da Computação (DCC) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), estuda e desenvolve sistemas de “Vigilância Inteligente”, que ajudam a extrair informações relevantes de imagens geradas por câmeras de segurança. São cerca de 20 pessoas envolvidas em projetos de pesquisa com foco em três elementos: vigilância, biometria e computação forense.

O coordenador, William Robson Schwartz, explica que a “Vigilância Inteligente” ajuda no trabalho de quem gerencia ou toma decisões a partir de sistemas de vigilância. Por exemplo: quando é necessário verificar imagens de segurança para identificar pessoas ou entender dinâmicas de um crime, o que se faz é coletar imagens armazenadas e analisá-las. Na “Vigilância Inteligente”, as informações são processadas durante a captura da cena e algoritmos filtram somente dados relevantes para o operador do sistema. Assim, potencializa o “olhar” dessa pessoa que não conseguiria acompanhar o tempo real de muitas câmeras, nem mesmo processar os dados manualmente.

Nesses contextos, os cientistas desenvolvem soluções para problemas que vão desde encontrar uma pessoa nas cenas de vídeo, rastrear, identificar, entender atividades realizadas, até entregar informações filtradas para quem precisa tomar decisões.

Os pesquisadores usam vídeos disponibilizados por outros grupos de pesquisa que coletam imagens em cenários reais, como shoppings. Utilizam também dados de projetos em parceira com empresas que demandam o trabalho da equipe Smart Sense para resolver problemas específicos. Ademais, criam seus próprios espaços de vigilância, como no caso do DCC.

“Temos câmeras que focam na parte interna do Departamento e a gente faz experimentos. Trabalhamos, por exemplo, o conceito de câmeras ativas em que são desenvolvidos algoritmos para rastrear pessoas no cenário. A pessoa nem percebe que a câmera está seguindo e num cenário real poderíamos usar esses mesmos algoritmos”, conta o professor.

As demandas que os pesquisadores recebem são de monitoramento e análise de vídeos. Imagine que o dono de uma loja queira saber em quais ambientes do estabelecimento circulam mais clientes. Com monitoramento visual, ele pode identificar são áreas de produtos mais atrativos, mostruários mais chamativos ou, apenas, zona de circulação. “O interesse não é controlar as pessoas, mas sim maximizar o lucro da empresa. O empresário pode colocar produtos onde as pessoas mais veem”, explica do professor.

No vídeo abaixo, você confere outros tipos de aplicações da “Vigilância Inteligente”. Até a repórter foi monitorada num sistema interno do DCC. (Imagem e edição: Rodrigo Patricios)



Vigilância: Big Brother da vida real

Aquela famosa frase da jornalista Glória Lopes, conhecida pelos mineiros, “se você não quer aparecer, não deixe que o fato aconteça”, vai precisar de uma nova versão. Algo como “se você não quer aparecer, não apareça” porque os sistemas de vigilância são, hoje, implacáveis na captura de atividades humanas. A ciência tem ajudado a torná-los ainda mais eficientes criando algoritmos que reduzem imprecisões. Se é necessário identificar alguém na cena, o cuidado será total para que não haja alarmes falsos como confundir um poste com uma pessoa e, assim, conferir credibilidade ao sistema.

Operadores de sistemas de vigilância estão, quase sempre, em busca de eventos fora do comum ou “eventos anômalos” nas cenas cotidianas. Segundo William Schwartz, os agentes principais da “Vigilância Inteligente” são as pessoas, atores que mudam o cenário. “O primeiro passo é detectar a pessoa, mas a entrega final é se a atividade dela é corriqueira ou anômala. Tem que separar aquilo que é suspeito e apontar para o operador: atenção para a pessoa que veste azul e aparece na câmera X”.

Pessoa pulando catraca pode ser exemplo de evento anômalo. Imagem: Arquivo do pesquisador

Mas, afinal, como os sistemas computacionais transformam imagem em dados? O professor explica que a imagem capturada é uma matriz de números. Os algoritmos são responsáveis por transformar esses números em representação que o computador vai identificar. “Quase sempre estamos focando em apresentar ao computador similaridades como: esta imagem é parecida com uma pessoa uma árvore? Esta face é da pessoa A ou B?”, exemplifica William Schwartz.

Ainda há espaço para pesquisas científicas sobre representação de imagens em vídeos, pois é um desafio trabalhar com essas informações, conforme explica o coordenador do laboratório. “Quando você tem uma foto, a informação é espacial, tem largura e altura do objeto. Nesse caso, tem os pixels para a representação. Em vídeo, tem altura e largura ao longo do tempo, ou seja, os pixels e a questão temporal estão juntos numa relação que não é trivial”.

Biometria: muito além das digitais

A biometria envolve as formas de identificação de pessoas em ambientes monitorados e vai muito além da digital dos dedos. A patela do seu joelho, assim como a forma como você anda são informações biométricas. “Uma câmera de segurança consegue identificar uma pessoa pela maneira como ela dá os passos”, afirma o professor.

Se há um sistema de segurança no qual somente pessoas autorizadas podem entrar num ambiente, é possível usar biometria.  Outro exemplo, conforme William Schwartz, é de aplicação em ambientes de trabalho. A equipe Smart Sense está desenvolvendo um sistema para a Petrobras em que será possível monitorar o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) pelos funcionários.

“Estamos criando algoritmos em sistema de vigilância para plataformas de petróleo. Não é para vigiar as pessoas em termos de situações suspeitas, mas sim monitorar o uso de EPIs. Se o colaborador entra em uma oficina sem luvas, protetor auricular ou capacete, será monitorado e identificado”, diz.

Nesse caso, os dados das câmeras vão para um servidor, um algoritmo é executado e gera informações para ao supervisor da oficina, que, em tempo real, saberá se está acontecendo um desvio nas normas de segurança.

O desafio da biometria em sistemas de vigilância é que ali as pessoas, quase nunca, estão disponíveis a ceder suas informações.  “Na vigilância, a gente assume que a pessoa está fazendo o que está fazendo, sem interferências, e tenta extrair a informação”, afirma o professor. Segundo ele, é diferente de alguém ceder o DNA para um teste de identificação. Em ambiente monitorado, não há colaboração da pessoa que precisa ser reconhecida.

Quando você vai ao banco, insere o cartão em uma máquina ou informa o número da conta, o uso a biometria por meio da digital vai apenas verificar sua identidade. “Você já falou quem é você. O sistema já sabe que só existe uma pessoa com aqueles dados, por isso apenas confirma sua digital. Seria totalmente diferente se você colocasse a digital sem dar outra informação. O sistema teria que buscar na base de milhões de clientes quem é o dono daquela digital. Identificar um para um é mais fácil. Quando é um para muitos, fica mais complicado”

O reconhecimento de faces também é biometria. Nesse caso, o desafio é a mudança que um rosto pode ter ao longo do tempo, com marcas, cicatrizes ou uso de barba. “Quando você tem uma lista de pessoas que vai monitorar, ou seja, um banco de dados com conhecidos, todas as outras que aparecem na imagem serão descartadas. Se aplicarmos isso num aeroporto, seria feito em duas etapas: verificar se a pessoa está na lista e, se estiver, saber quem é. Isso chamamos de watch list”, ensina William Schwartz.  Caso não exista uma lista de pessoas, o sistema fará uma busca em “galeria aberta”, que é bem mais complexa.

Computação Forense: crimes x tecnologia

A extração de conhecimento em imagens de câmeras de segurança pode ser grande aliada na resolução de crimes. Pode ajudar no reconhecimento de placas de carros ou identificação de pessoas suspeitas. Se alguém entra em um prédio com sistema de vigilância instalado, é possível rastrear, descobrir ações suspeitas, mostrar com que conversou e apontar todas as atividades realizadas.

“Dado que aconteceu um crime, por exemplo, e quero encontrar evidências, é possível pelas imagens olhar o que aconteceu. Manualmente, iremos verificar os dados armazenados pelas câmeras. A Vigilância Inteligente faz um processamento automático dos dados”, explica o professor.

Vigilância Inteligente pode ser usada na identificação de placas difíceis de reconhecer. Imagem: Arquivo do pesquisador

Também é possível fazer reconhecimento de placas em tempo real, conforme William Schwartz. “Imagine que um carro passa em alta velocidade, é detectado por uma câmera de vigilância e acontece um crime ali perto. Conseguimos criar métodos para ver a placa, por mais que os olhos humanos não consigam distinguir. Trabalhamos com placas difíceis de reconhecer, usando método de deep learning. O sistema identifica nuances nas letras da placa, que o homem não consegue ver”. Dessa forma, a computação pode ajudar em investigações policiais.

E o papel da computação vai até onde? Segundo o professor, o objetivo é sempre extrair a informação visual, processar e entregar aos responsáveis. “Não é substituir os operadores do sistema de vigilância, mas auxiliá-los. A ideia não é automatizar tudo e colocar um robozinho para tomar decisão”.

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Sensor monitora presença do Aedes aegypti

sex, 02/11/2018 - 16:29

Como detectar e prevenir novos surtos de dengue, chikungunya e zika? Estudos e ações procuram responder essas questões e auxiliar no combate ao mosquito Aedes aegypti. É o caso de projeto do Grupo de Estudos em IoT, do Inatel. Coordenado pelo professor Joel Rodrigues e conduzido pelo estudante de mestrado Diego Amorim, a pesquisa tem como objetivo obter informações sobre a prevalência do mosquito em determinadas áreas.

Para isso, os pesquisadores desenvolveram um sistema de sensoriamento óptico capaz de identificar o Aedes aegypti a partir da frequência do batimento das asas dos mosquitos. “Nosso desafio de aplicar a tecnologia nesse cenário foi desenvolver novos sensores, que pudessem ser autônomos, com baixo consumo de energia, com baixa necessidade de poder de processamento e que fizessem esse registro da frequência fundamental de batimento de asas dos insetos”, explica o pesquisador.

Como microfones exigem gravações ininterruptas e são suscetíveis a interferências externas, o grupo optou pelo desenvolvimento de um sensor óptico, com confiabilidade de aproximadamente 98%. Até o momento, os testes de validação do sensor e de comparação com dados coletados por microfones foram feitos em laboratório. O próximo passo é a instalação em ambientes reais.

Confira, no Ondas da Ciência!

Novos dados sobre o Aedes aegypti

Hoje, a maior parte das técnicas disponíveis para monitorar possíveis focos de mosquitos vetores depende de ação direta de equipes de saúde, e geralmente da contagem de larvas de mosquito. “Onde os mosquitos se reproduzem e deixam as larvas não necessariamente reflete o habitat dessas espécies. A possibilidade de monitorar onde, a quantidade e as condições em que esses mosquitos estão dispostos no ambiente oferece um dado relativamente novo. É um dado de estudo que pode ser mais fidedigno ao que as pessoas estão expostas”, afirma Diego.

O sistema em desenvolvimento no Inatel objetiva permitir o monitoramento de áreas remotas e por longos períodos de tempo. “Temos um cenário completo de IoT, em que podemos inclusive contextualizar os dados coletados no sensor com outros dados”, diz o pesquisador. O sistema pode conversar, por exemplo, com uma estação meteorológica e cruzar dados de prevalência dos insetos com dados de temperatura e umidade. A partir desses cruzamentos seria possível gerar informações de predição da mudança na prevalência de insetos.

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Lições de literatura com Paul Valéry

qui, 01/11/2018 - 09:00

Muitos foram os escritores e críticos a delinear conceitos, métodos e princípios da literatura – de sua abrangência histórica às nuances da caracterização estética.

Poeta, ensaísta, prosador e grande pensador de seu tempo, Paul Valéry (1871-1945) também se dedicou a tal imprescindível ofício, sempre com vistas à problematização dos “fenômenos positivos da produção e do consumo das obras do intelecto”.

Contudo, aos olhos daquele que, no entreguerras, fora considerado o “poeta oficial da França”, a mera historicização do exercício literário – a seu ver, atividade “altamente desenvolvida” e com oferta de “numerosas cátedras” – não abrangia, em seu espectro crítico, o estudo da própria “atividade intectual que engendra as obras mesmas”.

Daí o investimento do autor em apresentar suas Lições poéticas, livro no qual propõe pensar a literatura – e/ou a arte em si, de modo geral – não apenas como conjunto de “obras acabadas”, mas, desde o início, como atos dos “intelectos” (que a compõem e que a recebem).

Neste sentido, o escritor torna ainda mais complexo (e fascinante) o riquíssimo debate acerca da relação entre a construção da obra e o convívio com os leitores – aqueles que, na definição do poeta e crítico paulista José Paulo Paes (1926-1998), dedicam-se à (trans)leitura, posto, que, estimulados pela obra literária, acionam seu particular “corredor de ecos”, no qual soam vozes da (trans)experiência individual.

O livro de Paul Valéry é dividido em quatro partes:

Na primeira, o escritor aborda “O ensino da poética no Collège de France”. Nas outras três, conforme dá a ver o título da obra, dedica-se à primeira, à segunda e à terceira lições de seu “curso de poética”.

Aos interessados por mistérios e ideários da expressão literária, sugiro que se sentem nas primevas carteiras desta “sala de aula” incomparável – libertariamente ministrada diante de seus olhos de (trans)leitor.

Leia um trecho:“Uma história aprofundada da literatura deveria portanto ser compreendida não tanto como uma história dos autores e dos acidentes de sua carreira ou de suas obras, mas como uma história do intelecto enquanto produtor ou consumidor de ‘literatura, e essa história poderia até ser feita sem que nela se dissesse o nome de um único escritor. Pode-se estudar a forma poética do Livro de Jó ou do Cântico dos cânticos sem a menor intervenção da biografia de seus autores, que são totalmente desconhecidos.”

 Ficha técnica:

Livro: Lições de poética

Autor: Paul Valéry

Editora: Editora Âyiné

Tradução: Pedro Sette-Câmara

Páginas: 91

Ano: 2018

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20 anos do Enem: pesquisa aponta perfil das questões de Linguagens

qua, 31/10/2018 - 09:00

O Exame Nacional Do Ensino Médio (ENEM) está chegando e jovens de todo o país se concentram para encarar os desafios de uma prova que testa conhecimentos e define futuros. Em 4 de novembro, candidatos farão provas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Redação e Ciências Humanas e suas Tecnologias. Em 2018, o exame completa 20 anos de existência. Nesse período, passou por muitas mudanças, principalmente, no que diz respeito ao uso dos resultados. Inicialmente, o objetivo do Enem era apenas avaliar a qualidade do Ensino Médio no país e, hoje, se tornou uma forma de ingresso nas universidades.

O exame é, certamente, objeto de pesquisas científicas considerando a relevância e o impacto para a educação brasileira.  Um desses trabalhos foi desenvolvido por pesquisadores do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), campus Divinópolis, que mergulharam nas provas do Enem para compreender ‘” o lugar das literaturas de expressão portuguesa”. Considerou-se manifestações brasileiras, portuguesas ou africanas de expressão portuguesa. O trabalho investigou todas as provas aplicadas para analisar duas perspectivas:

  • O modo de organização das questões que, nomeadamente, abordam conteúdos de Literaturas de Língua Portuguesa, analisando quais textos (verbais e não verbais) são privilegiados, tipo de atividades propostas para os candidatos e a natureza das orientações/instruções fornecidas.
  • Inserção de determinados autores, obras, períodos literários e/ou temas explorados em relação às literaturas de expressão portuguesa.

Arthur Phillipe junto com o orientador. Pesquisa foi apresentada na Semana de Ciência e Tecnologia no CEFET-MG. Foto: Arquivo do pesquisador

De acordo com Arthur Phillipe Milanez Santa Cecília, autor do estudo, um dos objetivos era que o diagnóstico servisse de aprimoramento dessa política pública que tem se revelado bastante influente para elevação da qualidade da educação formal do país. A ideia é que as investigações pudessem servir de subsídio para próximas edições do Enem, organizadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

“O Enem é uma das maiores provas do mundo, alguns dizem que é a maior. É de grande impacto, pois o ensino médio circula ao redor de se dar bem no exame e acertar mais questões,  a ponto de entrar em uma universidade federal ou instituições privadas por meio de bolsa. Vimos nesta pesquisa que é possível atender a cursos preparatórios, professores e  ao Inep”, explica Arthur Phillipe.

O trabalho é resultado de pesquisa de iniciação científica, sob orientação do professor Rodrigo Alves dos Santos. Na época, Arthur Phillipe era estudante do ensino médio e técnico (Eletromecânica) e, atualmente, cursa direito na Universidade Federal de Lavras (UFLA).

“Sempre acreditei que o ensino não se dá somente na sala de aula. É preciso um extra, como ter contato com outras metodologias. Eu encontrei isso na iniciação cientifica, pois que tinha uma questão (problema) e precisava encontrar um caminho de solução. É uma experiência que mudou meu jeito de ver o ensino. Vi que ele é feito mais de perguntas do que respostas propriamente ditas”, relata.

Passo a passo

A pesquisa se dividiu em duas etapas, sendo a primeira de levantamento histórico sobre o Enem, considerando contextos políticos e sociais. “O exame é influenciado pelo presidente em exercício, partido que está no poder e ministro da educação. Foi importante estudar o porquê a prova se dava daquela maneira, de acordo como contexto histórico-social. Inclusive, a metodologia de correção e a abordagem das questões – podendo ser perspectivas mais cotidianas ou voltadas ao ensino de sala de aula”, explica o pesquisador.

Arthur Phillipe fez planilhas para tabular as de prova e organizar os dados. Em um segundo momento, analisou efetivamente as questões para analisar estrutura e referência a autores/obras.

O que as questões cobram

Segundo Arthur Phillipe, considerando as duas perspectivas da pesquisa, foi possível concluir que:

– As questões do Enem cobram do candidato entendimento do conteúdo e interpretação dos textos referenciados na prova. Além disso, tratam de linguagem – se é coloquial ou formal – e abordam muito o sentido de determinadas palavras no texto.

– Grande parte das provas insere referências a autores e obras brasileiras do século 20, sendo a maior parte de textos em prosa. A abordagem prioritária é sobre o assunto tratado e a linguagem explorada pelos autores nos textos.

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Esgoto vira fertilizante nas mãos de pesquisadores mineiros

ter, 30/10/2018 - 09:00

Pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) trataram resíduos sólidos de esgoto e transformaram em fertilizantes organominerais.

Esses fertilizantes são eficazes para uso em plantações de cana-de-açúcar destinada à produção de biocombustíveis, não para consumo humano.

O produto final tem aspecto granulado (foto em destaque) e reúne a parte orgânica – o lodo de esgoto tratado -, com a parte mineral, formada por ureia, cloreto de potássio e ácido bórico.

Nesse formato, pode-se controlar a liberação do nutriente no solo e diminuir reações como volatilização da ureia, erosão do nitrogênio, fósforo e potássio, lixiviação do nitrogênio e potássio e fixação do fósforo.

Do esgoto ao fertilizante

A pesquisa transformou lodo em fertilizante porque, no esgoto, é possível encontrar proteínas, aminoácidos e sais minerais como nitrogênio, fósforo e cálcio dos alimentos que comemos – boa parte disso, em função dos líquidos que saem dos vasos sanitários!

Em Uberlândia, na estação de tratamento do Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae), os resíduos são separados em líquidos e sólidos. A parte líquida passa por um tratamento e é lançada no Rio Uberabinha. A sólida forma um lodo que é enviado ao aterro sanitário.

Segundo o Dmae, são 2,7 milhões de metros cúbicos de esgoto tratados por mês em Uberlândia.

Os pesquisadores da UFU fizeram uma parceria com o Dmae e levaram amostras desse esgoto sólido para a Fazenda do Glória, área experimental da universidade em Uberlândia.

Lá, desenvolveram um protótipo para fazer tratamento em pequena escala que pode ser desenvolvido em larga escala, posteriormente.

“Nós utilizamos uma caixa de alumínio coberta com vidro e a massa [lodo de esgoto] a gente misturou com cal hidratada (30%). Essa cal inativa microrganismos através do aumento do pH [escala de acidez ou basicidade de uma solução]. Coberta por vidro, a própria insolação ajuda”, explica o professor Camargo.

Depois desse primeiro processo, os pesquisadores pegam essa massa tratada e misturam com fertilizante mineral, que é altamente concentrado, para fabricar o fertilizante organomineral em forma de pelete (foto em destaque).

Sulcos do plantio e adubação com fertilizante organomineral peletizado (à esquerda) e fase de maturação da cana-de-açúcar (à direita) (Fotos: Divulgação)

Tecnologia sustentável para a produção de biocombustíveis

A pesquisa é fruto da tese de doutorado “Biossólido e torta de filtro na composição de fertilizantes organominerais para a cultura da cana-de-açúcar“, da autoria do biólogo Carlos André Gonçalves.

A orientação é do professor Reginaldo de Camargo, com co-orientação da professora Regina Maria Quintão Lana, no Programa de Pós-Graduação em Biocombustíveis.

O programa é uma parceria bi-institucional entre a UFU e a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).

Os orientadores do projeto explicam que o produto desenvolvido leva à menor contaminação do lençol freático e maior economia de nutrientes. Por isso, o fertilizante é uma tecnologia sustentável: por usar um passivo ambiental [lodo de esgoto] e reduzir perdas dos nutrientes que normalmente acontecem quando se utiliza adubação padrão.

O fertilizante foi testado na plantação de cana-de-açúcar para produção de etanol, em uma área experimental de 1,75 hectare da Companhia Mineira de Açúcar e Álcool, no município de Prata (MG).

Segundo Gonçalves, que fez os testes junto com o colega doutorando Emerson Moraes, os resultados foram excelentes:

“Na metade da dose recomendada agronomicamente a gente já atinge os mesmos níveis de produtividade do fertilizante convencional”, afirma.

Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

Ciência que retorna à sociedade

A tecnologia está disponível para qualquer empresa pública ou privada interessada em implantá-la em escala industrial.

Para isso, é preciso construir uma estação de tratamento de esgoto e uma fábrica de produção do fertilizante.

O enfoque foi a produção de biocombustíveis a partir da cana-de-açúcar devido à sua importância para a matriz energética brasileira.

Em 2016, a cana-de-açúcar foi responsável por 17,5% de toda a oferta nacional de energia. Mas o fertilizante organomineral pode ser utilizado em outras culturas, desde que observadas as exigências sanitárias.

A pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Com informações da Assessoria de Comunicação da UFU.

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Como a ciência pode ajudar na construção mais sustentável das cidades?

seg, 29/10/2018 - 10:16

Já parou para pensar na relação entre clima e a construção das cidades? Pois a ciência, sim. O processo de urbanização altera o comportamento das variáveis climáticas em âmbito local, produzindo condições atmosféricas que definem o clima. Por isso, geógrafos, meteorologistas, arquitetos, climatologistas, biólogos, engenheiros, físicos se unem em estudos sobre clima que podem ser aplicados ao planejamento urbano.

O trabalho deles é promover pesquisas que ajudam a entender o impacto da ocupação das cidades no clima e, consequentemente, em variáveis climáticas como temperatura do ar, umidade, velocidade do vento,  temperatura da superfície, entre outras. Eles se movem em busca de respostas para questionamentos como: que tipo de cobertura do solo pode absorver mais ou menos calor, conforme a incidência solar? Como representar cidades tão heterogêneas em informações que sejam úteis para os planos urbanísticos desses espaços?

A pesquisadora Daniele Gomes Ferreira, da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é uma dessas cientistas empenhadas em agregar informações úteis ao cenário das cidades. Ela tenta traduzir estudos complexos sobre clima – utilizando imagens de satélite, dados coletados em campo e modelos matemáticos – em informações com linguagem acessível, que possam ser usadas por arquitetos e gestores no planejamento de territórios. Na pesquisa de doutorado, constrói um arcabouço de dados essenciais para ajudar na construção mais sustentável de espaços urbanos. O trabalho é orientado pela profa. Eleonora Sad de Assis.

“A gente tem problemas nos climas tropicais e ainda não sabemos exatamente os impactos das cidades no clima por escassez de estudos nestas regiões. Existem mais estudos sobre o assunto no Hemisfério Norte, em climas temperados. Por aqui, estamos ainda na teoria”, explica.

O que instiga Daniele Gomes a pesquisar são as formas de transformar informações muito técnicas em algo que qualquer “tomador de decisão” possa usar em projetos para cidades. É preciso pensar em tecnologias ligadas ao desempenho termo-energético, luminoso-visual, acústico e antropométrico do ambiente construído, mas de uma forma bem prática para os que trabalham com planejamento.

Conforto ambiental

Ao pensar em tecnologias aplicadas à Arquitetura e Urbanismo, alguns pesquisadores se dedicam aos estudos sobre conforto ambiental. Significa entender os impactos que a cidade provoca no território onde ela se desenvolve.

“Dependendo da forma como a gente constrói as cidades, há impactos maiores ou menores no ambiente, criando condições de maior ou menor conforto para os seres humanos. Portanto, pensamos no planejamento urbano como um todo, inclusive na escala dos edifícios. Como um prédio altera o clima e como podemos diminuir o impacto? A forma como projetamos edifícios e toda a cidade pode melhorar a qualidade de vida”, afirma.

Pensando em conforto ambiental, arquitetos avaliam tipos de materiais para construções, a implantação de edificações, dentre outros aspectos, visando minimizar o impacto no clima. “Os estudos estão avançando no sentido de avaliar o efeito de áreas vedes, permeáveis, cobertas por vegetação e com presença de água. Tudo isso junto à composição de edifícios. Às vezes o efeito destas estratégias é só local, mas o efeito local também é importante”, explica a pesquisadora.

Segundo ela, a atuação do arquiteto e urbanista não é necessariamente diminuir o impacto da cidade no clima global, mas sim, mitigar efeitos localmente. A preocupação global é muito pertinente e fica por conta, quase sempre, de ambientalistas e meteorologistas.

Ciência x decisões de planejamento

Daniele Gomes considera que às vezes há um distanciamento entre a ciência e os arquitetos que estão fazendo o planejamento urbano. Do ponto de vista das pesquisas cientificas, há áreas de zoneamento urbano que confrontam com as questões ambientais. “Em Belo Horizonte, por exemplo, há locais em que seria preferível preservar corredores de ventilação, porém na legislação urbanística está previsto o adensamento”, afirma a pesquisadora.

Ainda de acordo com Daniele Gomes, há uma grande dificuldade em traduzir a informação do clima urbano para a tomada de decisão, mesmo com esforço de prefeituras em considerar as pesquisas científicas.

Mapa Climático Urbano

Uma das aplicações em que se utilizou  instrumentos para traduzir os dados climáticos foi no estudo “Análise de Vulnerabilidade às Mudanças Climáticas do Município de Belo Horizonte”, encomendado pela Prefeitura de Belo Horizonte e desenvolvido pela empresa WayCarbon. O trabalho foi publicado em 2016 e Daniele Gomes foi colaboradora. O “mapa climático urbano” é baseado na metodologia desenvolvida pelo professor Lutz Katzschner, da Universidade de Kassel, Alemanha, e considera informações do uso do solo e de aspectos geográficos (topografia e dados meteorológicos).

O documento estima os impactos do clima na cidade com projeções para o ano de 2030 apontando, principalmente, regiões de alta vulnerabilidade aos efeitos do calor e da chuva (inundações e deslizamentos).

Para construir parte deste estudo, os cientistas e técnicos usaram a metodologia alemã chamada “mapa climático urbano”. É um método que avalia informações do uso do solo e de aspectos geográficos (topografia e dados meteorológicos). Depois viabiliza uma análise representada em mapas que podem ser aplicados no planejamento urbano.

Em BH, para construção do mapa climático considerou-se ocupação urbana, declividade das áreas, quantidade de área verde, cobertura do solo, velocidade dos ventos, entre outros fatores.

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Trilha sonora em jogos digitais

sex, 26/10/2018 - 16:59

Em dissertação de mestrado defendida na Escola de Música da UFMG, Marcos de Lima e Mello estudou a evolução da trilha sonora em jogos digitais. Desenvolveu ainda uma análise sobre as funções e efeitos da música em vídeo games e traçou um comparativo com a produção musical para o cinema.

“Há muitas relações e peculiaridades encontradas quando comparamos cinema e trilha de jogos. Mas os dois exemplos mais fortes estão na narrativa e na música interativa. Na narrativa, há o leitmotif, que é quando um tema musical lembra algum cenário ou personagem”, diz Marcos. Ele dá o exemplo da trilha Marcha Imperial, composta por John Williams, que evoca cenas da série cinematográfica Star Wars, com passagens da história sobre o império e o vilão Darth Vader. O mesmo é percebido em jogos com trilhas famosas, como o Mário Bros., da Nintendo.

Confira, no Ondas da Ciência:

A dissertação de mestrado Trilha sonora em jogos digitais: uma análise histórica, funcional e suas relações com a música no cinema foi defendida em setembro de 2018.

Evolução da trilha sonora de jogos

O áudio nos jogos digitais começou com um efeito sonoro, no jogo Pong, do Atari. “Isso já foi revolucionário para a época. E então começaram a aparecer as primeiras trilhas musicais, usando apenas os chips de áudio presentes nos consoles de vídeo game”, conta Marcos Mello. O pesquisador explica que, na época, não era possível produzir para jogos músicas mais elaboradas. Com limitações na tecnologia, ficaram famosos os sons característicos dos jogos de oito bits.

O uso de CDs para vídeo games, caso do PlayStation 1, lançado em 1994, tornou possível reproduzir sons mais complexos, de orquestras, corais, guitarras e canto. A qualidade, entretanto, ainda não era ideal. “Até você chegar agora, ao nível do cinema, que não existe limitação. A qualidade do som muitas vezes é melhor nos jogos digitais”, afirma Marcos. Uma tecnologia muito utilizada e que ajuda a causar imersão no jogo são os sistemas de surround, que dividem os sons por canais, em diferentes direções.

Imersão e interatividade

Em jogos digitais, a música interage com o jogador como guia. A trilha sonora ajuda a explicar o que está acontecendo na tela. “Há jogos como Tomb Raider e Uncharted, em que a partir do momento em que o jogador é descoberto por inimigos, a trilha sonora muda e fica mais tensa e agitada. É um indicador de que o jogador precisa lutar. Quando a luta acaba, a trilha sonora acaba também, mostrando que o jogador pode ficar mais tranquilo”, exemplifica Marcos Mello. Segundo o pesquisador, outro fator importante é a interação por ação do jogador. Ao mudar de cenário, por exemplo, ocorrem mudanças no estilo da trilha sonora.

Além de permitir interação, a trilha produz e reforça a dramaticidade da narrativa. Em um jogo de suspense, a música gera mais tensão, por exemplo. Além disso, ajuda a contextualizar cenários e criar ambientação. E, segundo Marcos Mello, a trilha produz efeitos de imersão, que passam pelas fases de comprometimento, absorção e imersão total do jogador. O comprometimento ajuda a apresentar a ideia do jogo. A absorção, a manter o jogador focado e imerso. “Por fim, há a suspensão da descrença, quando você faz o jogador perder a noção de onde está. Ele esquece que está em um sofá, jogando vídeo game, com um controle na mão. É quando você consegue a imersão total”, explica.

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Alunos de engenharia da UFMG vencem disputa nacional de eficiência energética

qui, 25/10/2018 - 20:16

Por William Araújo

No dia 11 de outubro, no Centro de Convenções Riocentro, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, a equipe “Milhagem” da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), dos cursos de engenharia, venceu a disputa de eficiência elétrica da competição Shell Eco-Marathon Brasil, que avalia os protótipos de veículos criados por universitários de todo país pelo critério de quantidade de distância percorrida versus consumo de energia. O grupo é coordenado pelo professor Fabrício Pujatti e galgou o primeiro lugar na categoria Bateria Elétrica (carro elétrico).

Prêmio do primeiro lugar na categoria Bateria Elétrica – Shel Eco-Marathon Brasil – Foto – William Araújo

A competição

A equipe saiu de Belo Horizonte na noite do domingo de eleições (7) portando dois carros, um elétrico e outro de combustão interna a gasolina. De acordo com Keverson de Almeida Carvalho, estudante de engenharia elétrica e diretor da eletrônica do protótipo elétrico, como os veículos são totalmente desmontáveis, foi possível levá-los em um caminhão simples e com todas as ferramentas da oficina que eram necessárias.

A competição ocorreu em uma pista oval de 750m e similar às usadas pela Associação Nacional de Automobilismo Stock Car (National Association for Stock Car Auto Racing – Nascar). Segundo comunicação do evento, as equipes participantes tiveram três dias para aperfeiçoarem seus veículos, passarem na inspeção técnica e, finalmente, testarem seus protótipos na pista, a fim de obter marcas válidas para entrarem na briga pelo primeiro lugar nas categorias Gasolina, Etanol e Bateria elétrica.

Conforme Rodrigo Fernandes Lara e Guilherme Sávio Nogueira Souza, ambos competidores pela equipe “Milhagem” e alunos da engenharia mecânica, “até a escolha dos pilotos foi calculada com base no peso de cada um, para que o protótipo obtivesse o melhor resultado. Entre as exigências do evento estava a necessidade dos carros terem ao menos 50kg (com o piloto) e percorrerem com a velocidade mínima de 25km/h”.

Quando na pista, o carro de combustão interna a gasolina teve problemas e não conseguiu pontuar. Segundo estudantes, o tempo dedicado ao veículo influenciou no desfecho. Já o protótipo elétrico surpreendeu. Com 37,5kg (sem piloto) e 2,40m de comprimento, aproximadamente, o carro de bateria elétrica rodou pelo circuito com a velocidade média de até 40Km/h e apresentou a maior eficiência energética entre os competidores – 266,4 km/kWh (quilômetros por gasto de quilowatt hora).

Segundo Keverson, foram 14 voltas na pista e, em comparação com medidas externas, a distância percorrida pelo consumo de energia seria equivalente a dizer que uma viagem de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro custaria em torno de R$ 1,30, com referência nas tarifas da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig).

A “Milhagem” recebeu na cerimônia de premiação um troféu e o valor de R$ 20 mil.

Professor Fabrício Pujatti – UFMG – Foto – William Araújo

A equipe

A “Milhagem” tem 13 anos de existência e já obteve resultados melhores em corridas de eficiência. Subiu ao pódio nas três vezes que participou do Shell Eco-Marathon Brasil: foi segundo lugar em 2016, na categoria gasolina, e terceiro lugar em 2017, na categoria bateria elétrica”.  A melhor marca do time em competições é no desempenho de um protótipo de combustão interna a gasolina, que atingiu 598km por litro do combustível – recorde latino-americano.

A equipe é composta por 27 estudantes dos cursos de engenharia elétrica, controle e automação, mecânica e produção da UFMG. Alguns estão, inclusive, nos primeiros períodos acadêmicos. O coordenador da equipe, Fabrício Pujatti, é doutor em engenharia mecânica pela UFMG e atualmente é professor associado do Departamento de Engenharia Mecânica.

Veja abaixo o depoimento dos alunos e coordenador do projeto.

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Notificações de mensagens prejudicam a saúdem mental

qua, 24/10/2018 - 11:17

A competitividade do mercado de trabalho, a cobrança excessiva, a preocupação com os prazos e o relacionamento com chefes e colegas são fatores que podem comprometer a saúde mental de um profissional. Com o surgimento e popularização dos smartphones, um novo fator pode impactar diretamente no estresse dentro e fora do ambiente de trabalho: as notificações de mensagens nas redes sociais.

Pesquisas realizadas em diversos países têm apontado uma relação entre o uso constante de tecnologias e o estresse. Isso porque, quando o usuário recebe uma notificação de mensagem, seja no e-mail, Whatsapp, Facebook ou outra rede, uma reação de adrenalina é disparada, fazendo com que a pressão arterial do usuário suba. Dessa forma, o usuário acaba se tornando “viciado” na tecnologia, permanecendo constantemente alerta às novas mensagens.

Segundo Ana Maria Costa, psiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), existem trabalhos e publicações que comprovam, do ponto de visto científico, que a exposição excessiva às mídias sociais acaba agravando transtornos de ansiedade e depressão.

“A hiper conexão agrava também o processo de concentração, pois você cria uma necessidade de comunicação de ordem imediata. Outro problema é que a exposição constante que acontece nas redes sociais cria uma ilusão de vida perfeita no usuário. Isso também causa problemas em sua saúde mental”, afirma.

A sensação de estar sempre alerta, esperando por uma oportunidade de comunicação, acarreta em uma exaustão que pode impactar na saúde mental do usuário. Quando isso está associado ao trabalho, o estresse do profissional pode se tornar algo mais grave.

“Se, em um ambiente de trabalho, há uma exigência de hiper conexão, o trabalho acaba se transformando em estresse. Por exemplo, se você não responde de forma imediata um e-mail ou uma mensagem de trabalho, isso é entendido como se você não estivesse sendo efetivo em sua função. A hiper conexão tende a demonstrar a efetividade, e isso pode gerar problemas sérios para a saúde do profissional”, pontua Ana Maria.

Transtornos comuns

Os transtornos de ansiedade e a depressão são os transtornos mentais mais comuns em ambientes de trabalho estressantes. Eles abrangem outras categorias, como ansiedade social, a síndrome do pânico e uma série de condições depressivas. O estresse pode se encaixar dentro dessas categorias ou se sustentar como uma condição de curto e longo prazo.

O estresse profissional, quando chega a seu ponto máximo, é classificado como Síndrome de Burnout. A doença descoberta no fim da década de 60, pode estar associada a qualquer profissão. Entretanto, trabalhos que impactam diretamente na vida de outras pessoas deixam os trabalhadores mais suscetíveis à doença, como profissionais da saúde em geral, jornalistas, advogados, professores.

As discussões sobre a síndrome ganharam força nos últimos anos. O termo “burnout” é a união das palavras em inglês “burn“, que quer dizer queima, e “out“, que significa exterior. Portanto, a síndrome de Burnout corresponde a um desgaste emocional intenso capaz de impactar em elementos físicos e emocionais de uma pessoa.

Os sintomas mais comuns são: fadiga, cansaço constante, distúrbios do sono, dores musculares e de cabeça, irritabilidade, alterações de humor e de memória, dificuldade de concentração, falta de apetite, depressão e perda de iniciativa. Em seu cotidiano, a pessoa com Síndrome de Burnout tende a ficar arredia e isolada, o que impacta na produtividade na empresa.

Ana Maria Costa alerta que nesses casos, é recomendável, primeiro que o profissional tente gerenciar o uso de smartphone e das redes sociais. “Caso isso não seja possível, nem traga resultados, o ideal é que pessoa recorra a um profissional, seja um psicólogo ou um psiquiatra”, finaliza.

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Como divulgar ciência em um mundo em constante mudança?

ter, 23/10/2018 - 08:00

Dentre os desafios de divulgar ciência na atualidade, fake news e desigualdades de gênero são dois destaques dentre os temas mais citados no III Comunicar Ciência, evento promovido nos dias 18 e 19 de outubro, em Portugal.

A conferência contou com a apresentação de trabalhos de duas jornalistas da equipe Minas Faz Ciência, Alessandra Ribeiro e Verônica Soares.

Organizada a cada dois anos pela Universidade da Beira Interior, com sede em Covilhã, a conferência tem por objetivo reunir pesquisadores em torno do tema da comunicação científica.

Os organizadores promoveram encontros entre pesquisadores da Europa e da América Latina, em diversos campos das ciências, incluindo as Humanidades, para refletir sobre o sentido e estatuto da comunicação científica num mundo globalizado e em mudança.

Foram debatidos o futuro das publicações científicas em periódicos. O ponto alto foram as manifestações em defesa da slow science, que prevê não apenas a reconfiguração dos modelos de publicação, em busca de mais qualidade e não quantidade, mas também um olhar mais cuidadoso para o design e a circulação de textos acadêmicos em ambientes digitais.

A palestra sobre o tema foi conduzida por uma das organizadoras do evento, a professora portuguesa Catarina Moura.

Conferência da professora portuguesa Catarina Moura sobre design e slow science

Brasileiros em destaque

A conferência deste ano foi dividida em quatro painéis principais: Publicação Acadêmica, Slow Science, Ciência nos Media e Mulheres na Ciência.

Nas mesas de abertura, um dos destaques foi a participação do professor brasileiro André Azevedo da Fonseca, da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Além de professor e pesquisador, André é também YouTuber e foi o vencedor da competição Euraxess Science Slam, em 2016, com a apresentação abaixo:

 

Minas Faz Ciência representado

Duas jornalistas do projeto Minas Faz Ciência tiveram seus trabalhos aprovados para apresentação na conferência: Alessandra Ribeiro e Verônica Soares apresentaram estudos em torno do tema Mulheres na Ciência.

Alessandra propôs uma discussão pautada pela entrevista que será publicada na próxima edição da revista Minas Faz Ciência com a pesquisadora Fernanda Staniscuaski (UFRGS). 

Fernanda é uma das organizadoras do Parent in Science, promove discussões sobre maternidade e da paternidade de cientistas. Um dos aspectos mais urgentes em debate é a flexibilização da produtividade acadêmica na licença maternidade.

Já o trabalho de Verônica fez uma análise comparativa entre canais no YouTube de divulgação matemática no Brasil e em Portugal.

Os dois trabalhos tiveram ressonância na mesa final do evento, que apresentou dados sobre as desigualdades de gênero nas ciências em Portugal e os caminhos para promoção da igualdade.

Um dos pontos levantados foi a necessidade de espaços destinados às crianças em eventos acadêmicos, de modo que mais mães e pais possam participar das conferências.

As diferenças salariais e os déficits de mulheres em cargos de chefia também foram colocados em questão.

Na mesa final do evento, Carla Cerqueira (Universidade Lusófona do Porto | CECS), Ana Catarina Pereira (UBI) e Sílvia Socorro (UBI) debateram as desigualdades de gênero nas ciências

Em breve, os artigos serão publicados em livro! Divulgaremos o link aqui.

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Conheça influência africana na linguagem dos sinos em São João del-Rei

seg, 22/10/2018 - 08:00

São João del-Rei é conhecida como a terra onde os sinos falam, pois carrega uma cultura secular de sineiros que encantam a cidade em dia festivos. Existe até uma linguagem dos sinos com padrões e toques especiais para cada celebração.

Ouça esta batucadinha e preste bem atenção em cada detalhe porque vamos contar a história desse ritmo…

Com mais de 300 anos de história, São João del-Rei preserva a tradição das badaladas em igrejas e prédios públicos. A linguagem dos sinos passou de geração para geração e foi registrada, em 2009, como um Patrimônio Nacional. Para alcançar esse importante posto, uma pesquisa documental e científica foi feita para comprovar que os sinos representam história e memória do município de nosso país.

Toques, repiques, e improvisos marcam a rotina dos moradores. Essa cultura de se comunicar por meio dos toques musicais foi trazida ao Brasil pelos portugueses, principalmente para registrar celebrações da igreja católica. O que muita gente talvez não sabe é que o conteúdo musical dos sinos em Minas tem grande influência de ritmos afro-brasileiros.

Sons da África em terras mineiras

O estudante de música da Universidade Federal de São João del-Rei (UFJS), Yuri Vieira, orientado pelo professor Marcos Filho, estudou o dossiê feito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que documentou a tradição do sinos. O universitário foi em busca de entender os padrões rítmicos dos sineiros e estudou a relação dessa musicalidade com repiques africanos trazidos ao Brasil pelos negros.

Segundo Yuri Vieira, muitos livros contam a história de atuação dos negros escravizados como sineiros. Assim, o pesquisador fez uma conexão: se os negros eram responsáveis por tocar os sinos e tinham uma origem musical muito própria, pode ser que tenham colocado um pouco de ritmos deles nas badaladas.

Foi dito e feito. Durante uma pesquisa de iniciação científica, Yuri Vieira conseguiu comprovar a influência africana na tradição sineira. Descobriu que na batida dos sinos há variações de uma “fórmula rítmica” batizada de tresillo,  muito presente na música afro.

“Autores da história já estabeleceram possíveis relações entre a linguagem dos sinos e as tradições musicais do Congado e Candomblé. Mostraram que há um possível paralelo, mas ninguém havia estudado as questões técnicas”, conta o pesquisador.

Confira registros da rotina de sineiro feitos pelo fotográfo de Thiago Morandi:

Caminhos dos repiques

Yuri Vieira procurou saber quem eram os sineiros e de quais regiões vieram. Conheceu a cultura musical que carregavam e compreendeu como imprimiam identidade afro na música. Se inspirou em estudos anteriores feitos por outros pesquisadores sobre a influência africana na musicalidade brasileira.

O que é abordagem etnomusicológica? É uma abordagem que estuda as relações do homem com a cultura e mais especificamente, como a música se modifica a partir das relações humanas. O pesquisador que escolhe essa abordagem, geralmente, coleta material, mas se preocupa em compreender quem são as pessoas por trás daquela produção musical.

“Há um trabalho com abordagem etnomusicológica que fez um estudo parecido com o samba. O pesquisador analisa as mudanças na sonoridade do samba a partir da década de 30. Avalia os padrões da África negra e chega a algumas formas de organização do pensamento musical como, por exemplo, o tresillo”.

Depois dos estudos bibliográficos, Yuri Vieira foi vivenciar a rotina dos sineiros em São João del-Rei para coletar sons e costumes. Durante as celebrações da Semana Santa de 2017, período muito representativo para a tradição sineira, gravou em áudio os toques e repiques.

Em seguida, transcreveu esses sons em partituras para analisar tecnicamente. Foram 40 áudios com registros de 10 repiques diferentes. O pesquisador catalogou, separou e datou todos os sons, para um registro científico da própria pesquisa. De acordo com Yuri Vieira, foi possível encontrar seis variações de padrão musical, bem parecidas com aquele ritmo de bate-palmas em roda de capoeira.

“Foi necessário entender como funciona a dinâmica dessa música, que não é padrão de uma música que toca na rádio. Foi preciso pensar na relação dos sineiros e como pensam a estruturação dos repiques”, explica o estudante.

Afeto e memória

Yuri Vieira é do Sul de Minas Gerais, mas vive em São João del-Rei há 10 anos,. Além de estudar música, trabalha com bateria e percussão. Sempre se interessou pela cultura afro-brasileira, por isso decidiu desenvolver esta pesquisa.

“A primeira vez que estivem na cidade, fique hospedado em uma casa ao lado da Igreja de São Francisco. Acordei com a revirada do sino e fiquei assustado porque nunca tinha ouvido. Fiquei impressionado e percebi que existia uma forma de tocar. Mais tarde, vi que era uma forma muito próxima das manifestações culturais afro-brasileiras”, conta.

Além de São João del-Rei, há nove cidades com tradição em linguagem de sinos, porém na cidade histórica mineira a cultura é mais preservada. Em outras localidades, a técnica de tocar foi alterada.

“Por aqui, o sino assume vários papeis. Já teve um caráter de comunicador, como por exemplo, o toque do nascimento quando uma mulher dava à luz, ou o toque da morte. Com o crescimento urbano, fica impossível comunicar esses acontecimentos. Com o tempo, o sino assumiu a função de engrandecer os festejos”, afirma.

Segundo o pesquisador, um dos eventos mais simbólicos é o Ofício das Trevas, na quarta-feira da Semana Santa, um ritual que acontece do mesmo jeito há 200 anos e nem mesmo o Vaticano faz com tanta fidelidade à tradição.

Em meio aos toques, nascem relações de amor e ódio pelos sinos. “Quem mora no Centro gosta porque tem isso como memória de vida. Tem gente que acha incômodo porque há festejos em que o sino está tocando às 5h. O fato curioso é que a própria população se mobilizou para pedir ao IPHAN o registro de Patrimônio Nacional, o que ajudou a cidade a ganhar o título de terra dos sinos que falam”.

Relevância da pesquisa

O trabalho de Yuri Vieira foi premiado, em 2018, como a melhor pesquisa na área de artes da sessão de pôsteres da 70ª reunião da Sociedade de Pesquisa para o Progresso da Ciência (SBPC), maior evento de divulgação científica da América Latina. Para o pesquisador, o grande legado do trabalho foi discutir sobre patrimônio e memória trazendo a questão do negro como protagonista de uma tradição.

“É preciso lembrar que o negro escravizado não podia entrar na igreja católica naquele período, mesmo sendo sineiro. Hoje a gente descobriu que existe grande influência desses negros na linguagem dos sinos. As tradições são contadas por alguém que, necessariamente, coloca luz em alguns lugares e esconde outros. O papel do cientista é colocar luz em lugares antes não iluminados e mostrar que existe outra visão. Assim, é possível ressignificar a história na cabeça das pessoas”, conclui Yuri Vieira.

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