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Ciência, inovação e tecnologia
Atualizado: 10 horas 53 minutos atrás

Conservação da biodiversidade brasileira: 30 anos do Ibama

sex, 22/02/2019 - 13:54

Há 30 anos, no dia 22 de fevereiro de 1989, foi fundado o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Ibama. O órgão é responsável pela execução da Política Nacional do Meio Ambiente, e atua no desenvolvimento sustentável do Brasil. Com a fundação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em 2007, o foco do trabalho do Ibama é principalmente dedicado à proposição de normas, ao monitoramento e à fiscalização de unidades de conservação. Hoje, o ICMBio atua mais diretamente com pesquisa, instituição e promoção de medidas associadas à Biologia da Conservação.

“Mas historicamente, no Brasil, o órgão federal que instituiu as políticas de proteção à biodiversidade dentro de unidades de conservação, no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), foi o Ibama”, diz Henrique Paprocki, biólogo e professor da PUC Minas. Antes de virar uma atribuição do ICMBio, a expansão da rede de unidades de conservação no Brasil foi promovida pelo Ibama.

Os planos de conservação e manejo de espécies e a criação de unidades de conservação são importantes instrumentos para a preservação da fauna e da flora nacionais. Confira, no Ondas da Ciência!

Unidades de conservação

No Brasil, áreas naturais e espécies são protegidas por meio da criação de unidades de conservação (UC). Esses espaços têm o objetivo de proteger a representatividade de amostras de diferentes populações, habitats e ecossistemas. As UCs são regulamentadas pelo SNUC, criadas pelos governos federal, estaduais e municipais, após a realização de estudos técnicos.

“O primeiro estágio são esses levantamentos que vão subsidiar a criação do parque. Depois, a legislação exige o plano de manejo que vai se estabelecer nas áreas que podem ser visitadas: por exemplo, determinar o número de visitantes permitido e os locais onde pode ser construída alguma infraestrutura. E os pesquisadores participam muito ativamente na criação desses planos”, afirma Paprocki. A produção e o acúmulo de estudos sobre a biodiversidade local subsidiam revisões posteriores nos planos de manejo.

As UCs dividem-se em dois grupos, segundo informações do Ministério do Meio Ambiente:

Unidades de Proteção Integral

Nessas áreas, permite-se apenas o uso indireto dos recursos naturais, que não envolve consumo, coleta ou danos. Exemplos de atividades geralmente permitidas são: recreação em contato com a natureza, turismo ecológico, pesquisa científica, educação e interpretação ambiental.

Categorias de proteção integral: estação ecológica, reserva biológica, parque, monumento natural e refúgio de vida silvestre.

Parque Nacional do Caparaó
Foto: Flickr / Renée D´Avila

Unidades de Uso Sustentável

São áreas que visam conciliar a conservação da natureza com o uso sustentável dos recursos naturais. Atividades que envolvem coleta e uso dos recursos naturais são permitidas, mas com a proteção da perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos ecológicos.

Categorias de uso sustentável: área de relevante interesse ecológico, floresta nacional, reserva de fauna, reserva de desenvolvimento sustentável, reserva extrativista, área de proteção ambiental (APA) e reserva particular do patrimônio natural (RPPN).

Parques de papel

“As decisões nem sempre são ambientais. Elas são influenciadas pela economia, pela política, pela parte social do quanto isso vai afetar positiva ou negativamente as comunidades”, explica Henrique Paprocki, sobre o processo de determinação de unidades de conservação. Muitas vezes, a criação de uma UC produz conflitos sociais. “Para que uma área seja uma unidade de proteção integral, onde ninguém vive dentro, pessoas são retiradas das suas fazendas, das suas casas. Então esse processo nem sempre é suave, nem sempre é amigável em todos os sentidos”, reflete.

A partir do estudo inicial de diversidade, são feitas análises em diversas instâncias até a instituição de uma unidade de conservação. “Muitas vezes esses parques foram estabelecidos no papel, mas ainda não têm uma infraestrutura local de proteção”, conta o pesquisador. São chamados de “parques de papel”, mais comuns em porções remotas do País. É comum que, na Amazônia, grandes áreas delimitadas como UCs contem com baixo número de técnicos e analistas ambientais e com estrutura administrativa insuficiente.

Foto: Wikimedia commons / Leosanchez2011

Espécies bandeira e estudo da biodiversidade

Tamanduá-bandeira
Foto: Flickr/Luiz Carlos Rocha

“Às vezes uma unidade de conservação é focada na proteção de uma espécie bandeira, mas isso acaba refletindo na conservação de toda a biodiversidade daquele local”, afirma Paprocki. Mico-leão-de-cara-dourada, onça-pintada e tamanduá-bandeira são exemplos de animais carismáticos, que ganham a atenção e a afeição do público. São chamados de bandeiras e de espécies guarda-chuva: protegê-los implica na proteção de outras espécies. “É muito difícil convencer o público não especializado em biodiversidade de que conservar uma espécie de barata é importante, por exemplo. Usamos esse artifício, damos atenção às espécies bandeira, para conservar toda a diversidade”, diz o professor.

A criação de uma unidade de conservação possibilita e amplia o trabalho com o reconhecimento da diversidade local. “Taxonomistas trabalham aos poucos essa diversidade: dão nomes, ilustram e trazem para a ciência as espécies locais, para que essas unidades tenham um valor agregado. É a forma de saber quantas e quais espécies vivem lá, de tornar essas espécies, muitas vezes desconhecidas por alguns grupos, conhecidas para a ciência”, explica Paprocki. O professor, curador da coleção de Invertebrados do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, lembra que grande parte da diversidade de artrópodes ainda é desconhecida. A diversidade mais descrita é a de mamíferos.

“O Brasil é um país muito diverso, mas atrasado com relação à descrição da própria diversidade. Ainda temos muita coisa desconhecida, e dar esses nomes, fazer essas definições, é muito importante”, afirma o pesquisador. Além de conhecimento, a descrição da diversidade nacional produz ganhos econômicos, associados às indústrias de medicamentos, gastronômica e têxtil, entre outras. “Um bom manejo pode gerar uma economia em torno da diversidade”, completa.

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Categorias: Pesquisa

Democracia em risco? Obra traz reflexões após eleições 2018

qui, 21/02/2019 - 07:00

Desde as eleições 2018, uma série de questionamentos – de natureza política, social, econômica, religiosa, comportamental etc. – paira sobre a mente de milhões de cidadãos brasileiros.

Para além dos efeitos diários da truculenta polarização partidária, os fatos e o desfecho (digamos, pouco convencionais) do pleito à Presidência da República acabaram por obrigar a nação a importante autorreflexão acerca de conceitos básicos das matrizes de sua soberania – a exemplo de “democracia” e “liberdade”.

Tais preocupações em torno de nosso status político estimularam 22 importantes intelectuais brasileiros a problematizar a questão-título desta obra recém-lançada pela Companhia das Letras: Democracia em risco?

No livro, nomes como Sérgio Abranches (“Polarização radicalizada e ruptura eleitoral”), Angela Alonso (“A comunidade moral bolsonarista”), Daniel Aarão Reis (“As armadilhas da memória e a reconstrução democrática”) e Heloisa M. Starling (“O passado que não passou”) discutem múltiplas facetas dos novos desafios impostos ao País.

Para completar tal caleidoscópico universo de desassossegos, também são abordadas, na coletânea de ensaios, temáticas como “Deus acima de todos” (Ronaldo de Almeida); “Em nome do quê? A política econômica no governo Bolsonaro” (Monia Baumgarten de Bolle); “Psicologia das massas digitais e análise do sujeito democrático” (Christian Ingo Lenz Dunker); “A política brasileira em tempos de cólera (Angela de Castro Gomes); ou “Sismografia de um terremoto eleitoral” (André Singer e Gustavo Venturi).

Leia um trecho: Do texto “Polarização radicalizada e ruptura eleitoral”, de Sérgio Abranches“As rupturas de 2018 se deram em dois planos. Os resultados do primeiro turno mostraram a aceleração do realinhamento partidário que vinha ocorrendo mais gradualmente desde 2010, com o declínio do tamanho médio das bancadas na Câmara e o aumento da fragmentação partidária no Congresso.

Além disso, o PSDB ficou fora, pela primeira vez, da disputa pela Presidência. O partido ganhou as eleições presidenciais no primeiro turno, com Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998, e esteve no segundo turno contra o PT em 2006, 2010 e 2014. O segundo turno da eleição presidencial de 2018, com a derrota do PT para um candidato de partido inexpressivo e sem estrutura política de campanha, completaria a ruptura. Era o fim do ciclo PT-PSDB do presidencialismo de coalização na Terceira República, que organizara governo e oposição desde 1994.

O realinhamento partidário tende a acelerar ainda mais e se aprofundar, com a proibição das coligações em eleições proporcionais. Essa nova regra já deve ter alguma influência nas eleições municipais de 2020, mas terá efeito pleno nas eleições gerais de 2022. Em algum momento levará à substituição do sistema partidário em desagregação por outro mais articulado.” Ficha técnica:

Livro: Democracia em risco? – 22 ensaios sobre o Brasil hoje

Autores: Diversos

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 375

Ano: 2019

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Categorias: Pesquisa

Ciência divertida: inspirações na infância para construção do conhecimento

qua, 20/02/2019 - 08:00

Quem disse que não dá para unir produção de conhecimento científico e diversão? A professora Ana Paula Bossler se dedica a levar mais alegria às aulas de universitários que estão se formando para serem educadores. Ela coordena um projeto de usos de animações com massinha de modelar e mapas conceituais no processo de ensino-aprendizagem em Ciências da Natureza, aplicado aos cursos de licenciatura da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Além dessa iniciativa, desenvolve pesquisas e outros projetos que trazem um pouco do universo lúdico infantil para dentro da sala de aula.

A pesquisadora trabalha com a noção de “ciência divertida” desde as pesquisas do doutorado, concluído 2009. Ana Paula Bossler é bióloga e muito preocupada em como a informação científica vai chegar às pessoas. “Eu tento falar de ciência resgatando componentes emotivos, por isso o resultado é divertimento”, explica.

Stop motion: técnica de animação feita com recursos fotografia e edição. Cenas e são montadas com massinha de modelar e fotografadas. As fotos passam por montagem e edição – em computador ou celular – para virar imagem animada, com movimentoNo projeto com massinhas, os estudantes de graduação fazem dentro da disciplina de Tecnologia vídeos com a técnica de stop motion sobre temáticas de ciência. “São produções curtas tentando representar algum fenômeno científico. Nessa tentativa, os estudantes não estão como consumidores de conteúdo, mas sim como produtores. Na hora de fazer, percebem o que sabem ou não sobre aquele tema. Muitos têm certeza de que dominam o assunto, mas na hora de fazer a massa de modelar descobrem o não conhecimento”, afirma a professora.

Ana Paula Bossler sempre adorou cinema, fez o mestrado e doutorado na área de educação e comunicação. Dessa forma, acabou aprendendo técnica de animações e levando isso para a própria sala de aula. “A massinha exige que nenhuma etapa seja pulada, ou seja, não pode haver omissão. Quando os estudantes percebem que há um gap cognitivo trabalhamos em cima disso”, explica.

Projeto de usos de animações com massinha de modelar e mapas conceituais no processo de ensino-aprendizagem em Ciências da Natureza. Foto: Arquivo da pesquisadora

Entendendo a noção de “ciência divertida”

De acordo com a professora, as pesquisas que ajuda na construção da noção de ciência divertida indicam que o divertimento não é só para criança. “Entendemos que o jardim de infância pode ser para vida toda. Há pesquisadores que acham um absurdo abrirmos mão do divertimento quando deixamos de ser crianças. Tenho pessoas que trabalham comigo e abraçam esta ideia”, explica.

Segundo ela, o mais importante é quando os envolvidos no projeto com massinha percebem as animações como forma de substituição às provas tradicionais na faculdade.

“Ao fazer animação o sujeito acaba revelando o que não saber, diferentemente dos modelos tradicionais de aferimento de aprendizagem. Ele faz isso no ambiente de descontração, com um afrouxamento cognitivo. O sujeito não sofre, porque na brincadeira gente pode erra sem ser punido, portanto lida com o erro de um jeito mais leve”, detalha Ana Paula Bossler.

A pesquisadora comenta que o trabalho com massinhas revela problemas, por exemplo, com as imagens de fenômenos da ciência representados em livros didáticos. “O livro de ciências omitem etapas da mitose e meiose. É difícil que o estudante aprenda por completo porque há muita omissão. Faltam capítulos na narrativa e os alunos ficam frustrados quando percebem”.

Desafios

Trabalhar com ciência divertida traz desafios, principalmente de entendimento no meio acadêmico. “Há uma resistência de algumas pessoas. Sou aquela que brinca com massinha de modelar, mas fico tranquila porque nos encontros internacionais há muita gente com interesse nesses métodos. O trabalho tem sido analisado do ponto de vista da estética e da criatividade, além da possibilidade de aprendizagem”, afirma. Para ela, o estudante se relaciona com a questão estética e encara o desafio de criar, o que é muito diferente de produzir um artigo científico.

Prêmio Professor Rubens Murillo Marques: uma iniciativa da Fundação Carlos Chagas para valorizar e divulgar experiências educativas inovadorasA pesquisadora coordena outros projetos como a construção de aviões de papel e a estruturação de casas na árvore para aprender ciência. O trabalho com a massinha resultou em um modelo educativo que foi premiado e que, segundo a coordenadora, precisa ser expandido. “Recebi o Prêmio Professor Rubens Murillo Marques que não é na área de pesquisa, mas sim do ensino. O modelo virou um livro bilíngue que foi lançado no Brasil e fora daqui”, conclui.

Aqueles que abraçam a ideia da ciência divertida têm participado de cursos de formação com a professora Ana Paula Bossler. As ideias já se espalharam para docentes dos cursos de medicina e engenharias.

“Estou permanentemente com o desafio de trabalhar a popularização da ciência. A intenção e tirar o glamour da ciência e aproximar do público em geral. Quando criamos atividades de extensão, vem muita gente da comunidade. Gostam de aprender ciência fazendo bolha de sabão ou avião de papel. É preciso usar um discurso mais erudito? Não é preciso e quase desaconselhável”.

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Categorias: Pesquisa

Dietas ricas em proteína favorecem envelhecimento e aparecimento de doenças

ter, 19/02/2019 - 07:00

Churrasco, feijoada e queijo minas estão entre as delícias da cozinha brasileira. Mas, se consumidos com frequência e em excesso, são dietas ricas em proteínas e podem fazer mal à sua saúde.

Isso pode ocorrer porque o excesso de proteínas gera um efeito perverso: quanto mais consumimos, mais as nossas células quebram estas moléculas, aumentando a quantidade de aminoácidos dentro do organismo de maneira muito rápida, e essa alta velocidade leva ao aumento de “erros” nesse sistema.

Tais erros contribuem para que as células funcionem mal, favorecendo o envelhecimento precoce e o aparecimento de doenças neurodegenerativas e alguns tipos de câncer.

A conclusão é de um estudo colaborativo internacional que contou com a participação da professora Viviane Alves, chefe do Laboratório de Biologia Celular de Microrganismos e coordenadora do projeto de divulgação cientifica CeTOXY, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG).

Além dela, participaram da pesquisa cientistas da Austrália e da Inglaterra, países em que o consumo de proteínas como carnes, ovos, leite e derivados é bastante alto.

“Há muitos anos, centenas de pesquisadores estudam a relação entre alimentação e saúde. Sabe-se que quanto menor a ingestão de calorias (a chamada restrição calórica), maior a longevidade, ou seja, envelhecemos mais lentamente e de forma saudável. Carboidratos e proteínas são os mais estudados no contexto do envelhecimento e sabemos que a ingestão destes nutrientes sem controle pode alterar nossas células de várias formas. Já havia muitos indícios, na literatura, de que a ingestão excessiva de proteínas diminui o tempo de vida dos seres humanos. Nosso estudo permitiu entender melhor como e porque isso acontece”, conta a professora.

Como foi feita a pesquisa?

“Este foi um trabalho conjunto, no qual utilizamos três modelos experimentais diferentes. Aqui no Brasil, eu trabalhei com o verme Caenorhabditis elegans, que vem substituindo modelos animais na pesquisa há décadas”, conta a professora.

Na Austrália, os experimentos foram feitos com células humanas e na Inglaterra, com a drosófila, popularmente conhecida como mosquinha da fruta.

Nos três modelos, no nível celular e molecular, os pesquisadores demonstraram que a ingestão de proteínas em excesso faz com que as células tenham quem metabolizar mais rapidamente estas moléculas, e a rapidez resulta em envelhecimento.

A equipe de pesquisadores descobriu a ligação entre esses altos níveis de aminoácidos, o aparecimento de erros dentro da célula e o envelhecimento.

“Normalmente, esses aminoácidos são utilizados pelo organismo para as funções vitais. Mas quanto mais proteína ingerimos, maior a velocidade necessária para as células produzirem os aminoácidos. E quanto mais rápido este processo, maior a chance do organismo gerar proteínas defeituosas, que levam ao mal funcionamento das células e consequente diminuição da sua sobrevida”, explica a pesquisadora.

Imagem cedida pela pesquisadora, com representação do C. elegans idoso, a Drosophila e três cientistas envolvidos no estudo: Viviane S. Alves (UFMG), Chris Proud (Sahmri) e Jianling Xie (Sahmri)

Quantidade consumida versus expectativa de vida

Cientistas interessados ​​nas ligações entre nutrição, saúde e expectativa de vida têm agora mais um importante modelo para darem sequência a pesquisas que busquem compreender as relações entre as proteínas que consumimos e o envelhecimento saudável.

Segundo Viviane, para que os estudos sejam conduzidos em seres humanos, ainda pode levar um bom tempo, mas os resultados utilizando os modelos de laboratório já permitem inferir as consequências para a saúde humana.

“Tanto o verme Caenorhabditis elegans quanto a drosófila, apesar de grandes diferenças, quando comparados aos seres humanos, têm vias metabólicas parecidas com as nossas. Os achados nestes modelos também fora observados em células humanas cultivadas. Futuramente, poderemos estudar como esse processo se dá em mamíferos e em seres humanos que consomem muita proteína, como os praticantes de atividades físicas intensas, comenta a professora.

O estudo é o primeiro a demonstrar uma ligação direta entre o consumo de proteínas e o envelhecimento e traz contribuições para diferentes áreas de pesquisa, como aquelas voltadas para a nutrição, e estudos sobre produtos naturais que podem regular o metabolismo, aumentando nossa longevidade.

“Nossos achados permitem explorar moléculas que podem melhorar a sobrevivência saudável das células, ou minimizar o desenvolvimento de doenças da idade”, sugere a pesquisadora. Repercussão internacional

A pesquisa teve artigo publicado no periódico de alto impacto Current Biology e contou com repercussão midiática internacional.

“É o resultado de um trabalho de cinco anos, com muitas mãos e cabeças envolvidas para chegarmos a um dado inédito sobre a ligação entre o consumo de proteína, o aparecimento de erros metabólicos e o envelhecimento. Vamos manter a colaboração para elucidar outros aspectos. O professor Chris Proud, por exemplo, estuda como o processo de consumo de proteínas, e a utilização dos aminoácidos pelas células resulta em doenças como diabetes e câncer”, detalha Viviane.

Chris Proud é o líder do estudo e atua no Sahmri / Universidade de Adelaide, na Austrália.

Em entrevista ao site The Advertiser / Adelaide Now, ele comparou o efeito identificado ao de excesso de velocidade em um veículo: “quanto mais rápido você for, maior a probabilidade de cometer um erro”.

Clique aqui para acessar o artigo completo (em inglês).

Consumo excessivo de leites e derivados também pode desencadear o problema identificado pelos pesquisadores. Imagem meramente ilustrativa, via Pixabay

Brasileiros e o consumo de proteínas

O grão de bico também é uma importante fonte de proteínas. Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

De acordo com levantamento conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2017, o Brasil está em 6º lugar no ranking de países que mais consomem carne no mundo.

A média de consumo de carne pelos brasileiros é de 78,6kg/ano per capita.

Em primeiro lugar na lista está os Estados Unidos, seguido pela Austrália, Argentina, Uruguai e Israel. As informações são do portal da Forbes.

Mas é importante lembrar que o consumo de proteínas não se dá exclusivamente pela ingestão de carnes, ovos e peixes.

Proteínas também são encontradas em uma variedade de leguminosas, como grão de bico e lentilhas, frutas secas, como nozes, sementes e vegetais.

De acordo com a professora Viviane, não importa a fonte: qualquer excesso de proteínas, de qualquer origem, pode levar a defeitos na célula, resultando em envelhecimento acelerado e doenças associadas à velhice.

“É aquela máxima: tudo em excesso faz mal. O trabalho mostra isso em detalhes moleculares”, conclui.

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Sistema de baixo custo vai medir gases estufa na criação de vacas leiteiras

seg, 18/02/2019 - 08:00

Pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA) estão dedicados a entender os sistemas de produção de leite de Minas Gerais, principalmente na região sul. O estado é o maior produtor do Brasil, com cerca de 25% de todo o leite nacional. Na tentativa de aumentar a produção e reduzir problemas sanitários, pecuaristas testam tecnologias de confinamento das vacas leiteiras e os cientistas estão mapeando os tipos de criação intensiva de bovinos para sugerir boas soluções.

De acordo com o professor da UFLA, Flávio Alves Damasceno, a equipe de pesquisa já visitou cerca de 20 instalações para compreender a matéria prima da “cama” usada para aconchegar os animais, a produtividade, condição do produto, entre outros detalhes.

Cientistas querem medir gases causadores de efeito estufa que são emitidos em cada nas fazendas. Foto: Arquivos do pesquisador

Além do inventário com caracterização gerais dos sistemas de confinamento, os cientistas farão – em parceira com universidades da Holanda, Itália e Colômbia – a estimativa de gases causadores de efeito estufa emitidos em cada uma dessas fazendas de produção leiteira.

“A cama que serve de chão para o gado passa por compostagem e há emissão de metano e amônia, o que é ruim para o animal e para o trabalhador rural”, explica. Os pesquisadores estão desenvolvendo equipamentos de medição e sensores de baixo custo para medição dos gases.  Eles criaram, por exemplo, um anemômetro feito na impressora 3D para medir a ventilação que influencia o manejo das camas.

Compost Barn (CB)

O professor se refere, especificamente, ao tipo de sistema de criação intensiva de bovinos leiteiros chamado Compost Barn (CB). É um método que visa melhorar as condições de conforto do animal e, consequentemente, aumentar produção de leite. No Sul de Minas, o material da cama utilizado nas instalações, que geralmente é composta de serragem de madeira, tem sido trocado por restos vegetais presentes nas fazendas como, por exemplo, casca de café seca.

Essa cama cobre toda a área da criação bovina. Os animais ficam soltos sobre o material orgânico e podem se expressar ou se movimentar de forma natural.

“Como há pequenas áreas de concreto, reduzem bastante os problemas de casco dos animais, que é um desafio para a pecuária leiteira. Além disso, o Compost Barn facilita o manejo de dejetos porque o animal defeca na cama”, afirma Flávio Damasceno.

Conforme o professor, o grande segredo de manutenção dessas instalações é o manejo. As camas são revolvidas pelo menos duas vezes ao dia com trator, mantendo a cobertura macia e incorporando oxigênio.

O segredo de manutenção dessas instalações é o manejo. Foto: Arquivos do pesquisador

Legado da pesquisa

O que os pesquisadores querem é deixar um legado sobre as instalações para bovinos, principalmente no que diz respeito à medição de gases estufa. “Na Europa, o sistema de confinamento é diferente daqui. Lá eles já fizeram estimativas de emissão, mas aqui ainda é preciso saber essas quantidades. Além disso, é necessário descobrir qual material para a cama poderia reduzir a emissão e qual tipo de manejo é mais adequado”, prevê Flávio Damasceno.

De acordo com o professor, os resultados da pesquisa poderiam ajudar a mudar a cultura dos produtores, para que tenham mais consciência ambiental na questão da redução de gases.

Os trabalhos na UFLA envolvem cientistas das áreas de engenharia agrícola, veterinária, zootecnia, engenharia civil, agronomia e ciência animal.  Em abril, a equipe lançará o livro “Compost Barn como uma alternativa para a pecuária leiteira” para difundir os estudos.

Cama cobre toda a área da criação bovina. Foto: Arquivos do pesquisador

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Jogo ajuda na reabilitação motora após AVC

sex, 15/02/2019 - 15:16

Em um ambiente tropical, o jogador controla o voo de uma harpia – ave carnívora que se assemelha a uma águia. Passa por até seis fases e completa desafios, com diferentes níveis de dificuldade. O Harpy Game é um jogo sério desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Ele tem o propósito de reabilitar os braços de pacientes que tiveram sequelas motoras após um Acidente Vascular Cerebral, ou AVC.

O jogo é resultado do trabalho do mestrando Gabriel Cyrino, com orientação do professor Edgard Lamounier, do Departamento de Engenharia Elétrica da UFU. O desenvolvimento,  aplicação e estudo do jogo no tratamento de pacientes é uma parceria entre o Laboratório de Computação Gráfica e o Núcleo de Tecnologia Assistiva (NTA) da universidade. “O objetivo é criar um ambiente lúdico que motive a pessoa que teve AVC a realizar e reabilitar os movimentos do membro superior, o braço que foi afetado, de uma forma automática”, explica Eduardo Lázaro Martins Naves, coordenador do NTA.

Segundo o professor, apesar de eficientes, os exercícios propostos pela fisioterapia convencional são repetitivos e muitas vezes considerados cansativos pelos pacientes. “Se for possível agregar a esse tratamento convencional sessões de tratamento em realidade virtual, podemos ter um resultado melhor, unindo duas realidades de reabilitação”, afirma Naves.

Estímulos para a reabilitação após AVC

As pesquisas realizadas no NTA a partir da aplicação do jogo têm o objetivo de reabilitar membros superiores de pacientes que tenham espasticidade em algum dos braços. Ou seja, uma rigidez muscular que não permite o esticamento total após ter sofrido o AVC. Cada paciente irá passar por 16 sessões de até 45 minutos cada.

O estudo com os tratamentos feitos no NTA faz parte do doutorado da educadora física Isabela Alves Marques. Além de acompanhar as sessões, ela participou do desenvolvimento do jogo, auxiliando na inserção dos movimentos que deveriam ser realizados pelos jogadores. O jogo é controlado por meio de um aparelho chamado Myo. O equipamento consegue capturar os movimentos do braço do paciente, sendo possível regular sua precisão.

“Queríamos fazer algo novo, que fosse motivador. Como a gente deixa o paciente só com o sensor no braço, controlando a ave, ele faz movimentos que muitas vezes não fazia, por sentir dor. Assim, conseguimos estimular outras áreas do cérebro, para que elas reaprendam a fazer esse tipo de movimento. Além do trabalho motor, estamos oferecendo também um trabalho de aprendizagem motora”, diz a pesquisadora.

Construção e experiência com o jogo

O jogo é totalmente adaptável. É possível configurar como será cada sessão e cadastrar as informações de cada paciente. Também pode-se realizar a customização do jogo, alterando partes gráficas, controles e a interface multimodal. Tempo, precisão de movimento e esforço exigido são adaptados para cada jogador. São seis fases, das quais três estão sendo usadas no tratamento.

Cada fase prioriza um tipo de movimento. Na primeira, o jogador tem que atravessar anéis, o que prioriza a rotação do cotovelo. Na segunda, é hora de pescar, e o paciente precisa esticar e dobrar o braço. E a terceira fase exige movimentos mais precisos, quando o voo leva a harpia até o chão. “Em cada fase, propomos um desafio diferente, para que se consiga reabilitar por completo o braço”, explica Isabela Marques.

Jogo sério

“Esse tipo de tratamento, envolvendo novas tecnologias, como a sessão em realidade virtual, é muito importante, porque dá um caráter motivacional que antes o indivíduo não tinha”, afirma o professor Eduardo Naves. A tecnologia adotada pelo NTA é chamada de jogo sério. É uma categoria que abrange os jogos que têm propósitos que vão além do lúdico: reflexão, educação, conscientização social e, no caso do Harpy Game, reabilitação motora.

“Por se tratar de uma tecnologia nova, o espaço para aplicação nos centros de reabilitação é imenso. Há um campo vasto a ser explorado para desenvolvimento de jogos específicos para cada tipo de reabilitação, tanto para mobilidade quanto para comunicação”, diz o pesquisador.

Efetividade e resultados

“Tão importante quanto inovar, é importante mensurar a eficácia dessas novas tecnologias”, afirma Eduardo Naves. Foi desenvolvido, no NTA, um equipamento para mensurar a efetividade do ganho de mobilidade no membro superior. O dispositivo é parte do trabalho das mestrandas Andressa Rastrelo e Camille Alves, e avalia o ângulo de flexão e extensão do cotovelo e a rigidez muscular do indivíduo.

Além de verificar a eficácia do jogo, a tecnologia está sendo usado para avaliar outros tipos de tratamento. É o caso de aplicações de injeções de toxina botulínica, mais conhecida como botox, frequentemente utilizadas como tratamento para reduzir a rigidez muscular que muitas vezes acomete pacientes após AVC.

 

As inscrições para participar do estudo ainda estão abertas. Os atendimentos serão realizados no Núcleo de Tecnologia Assistiva (NTA), no Campus Santa Mônica da UFU. As inscrições podem ser feitas por meio do telefone (34) 99677-4474.

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UFMG passa a ter Centro de Referência Paralímpico nacional

qui, 14/02/2019 - 16:54

O esporte desperta e emerge diversas emoções e posturas: dedicação, concentração, confiança, prazer, superação, fraternidade e paixão. Os sentimentos que antes já estavam acomodados no Centro de Treinamento Esportivo da Universidade Federal de Minas Gerais (CTE UFMG), agora, se estendem a mais públicos a partir do Centro de Referência Paralímpico, em funcionamento no local desde o início de 2019.

Estes polos paralímpicos de treinamento servem a paratletas que não encontram nos locais que residem ou treinam acompanhamento técnico, atendimento multiprofissional especializado e ou estruturas adaptadas para o aperfeiçoamento do desporto que praticam. Até então, o único nacional existente era o de São Paulo.

Dra. Andressa da Silva de Mello – Centro de Treinamento Esportivo – Centro de Referência Paralímpico – Foto William Araujo – Minas Faz Ciência

A pesquisadora Andressa da Silva de Mello, coordenadora e uma das articuladoras da novidade, se envolveu com o esporte e paratletas entre 2005 e 2007, quando ainda fazia especialização ortopédica traumatológica em São Paulo. Os jogos Parapan-Americanos de 2007, ocorridos no Rio de Janeiro, serviram para solidificar a relação dela com os desportos paralímpicos.

Atualmente, Mello é pós doutora em Ciências do Esporte pela UFMG, coordenadora, também, do Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercícios Físicos (Cepe) e membra da Academia Paralímpica Brasileira do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), o qual oficializou a utilização do CTE como um Centro de Referência Paralímpico.

Ao todo, o Comitê pretende criar 20 Centros em todo Brasil até o ano de 2024. Como o CTE, por excelência, já somava algumas qualidades próprias de um polo de treinamento de paratletas, recebeu, agora, por meio do Ministério do Esporte, o recurso de R$ 1,76 milhão a serem investidos na estrutura e recursos humanos.

Mello diz que o intuito do Centro é preparar e formar paratletas que receberão atendimento profissional especializado que precisam, além de fornecer dados importantes às pesquisas na área. Para isso, as equipes serão multidisciplinares e passarão por cursos de capacitação, que ocorrerão, ainda, em fevereiro.

A perspectiva é que, nos dois primeiros anos e com o investimento, sejam atendidos até 50 paratletas e sejam capacitados mais de 100 profissionais de atendimento técnico (vagas já preenchidas). Alguns atletas paralímpicos, 12 ao todo, já utilizam o local por meio de parcerias com as associações que os mantêm. São ofertadas vagas no atletismo, halterofilismo e natação, tipos desportivos que mais trazem medalhas para o Brasil.

Paratleta Marcela Guimarães – Centro de Treinamento Esportivo – Centro de Referência Paralímpico – Foto William Araujo – Minas Faz Ciência

É o caso de Marcela Guimarães, paratleta de atletismo nas modalidades corrida de 100 metros e lançamento de dardo. Ela é moradora de Betim, frequenta o Centro de Referência Paralímpico desde janeiro e pretende disputar os Jogos Parapan-Americanos de 2019 em Lima, Peru.

Marcela conta que “em Betim a única carência era estrutural, pois não tinham muitos equipamentos e pistas”. Ela tem apoio técnico do Programa Superar, da Prefeitura, e faz o aperfeiçoamento de alto rendimento.

De acordo com a assessoria de imprensa da UFMG e Mello, outra paratleta que frequenta o Centro é “Izabella Campos, deficiente visual, medalhista de bronze no lançamento de disco nas Olimpíadas do Rio, em 2016”.

Segundo Mello, mais paratletas serão selecionados em breve e, concomitante, começará um projeto de extensão que buscará talentos no Centro de Esportivo Universitário (Ceu). As 100 vagas ofertadas para os cursos teóricos e práticos de capacitação profissional se esgotaram em duas horas após publicação, o que demonstra a necessidade de expansão de pessoas nestas modalidades de desporto.

O próximo passo do Centro é o apoio a atletas com algum tipo de deficiência na participação em competições dentro e fora do país, como, em setembro deste ano, nos Jogos Parapan-Americanos de Lima e, em 2020, nas Paralimpíadas de Tóquio.

Serviço

Centro de Treinamento Esportivo/ Centro de Referência Paralímpico: Rua Alfredo Camarate, 617, Bairro São Luiz, Belo Horizonte.

Telefone: (31) 3409-3337

E-mail: esporteparalimpicoufmg@gmail.com

Julia – Andressa – Marcela – Centro de Treinamento Esportivo – Centro de Referência Paralímpico – Foto William Araujo – Minas Faz Ciência

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Categorias: Pesquisa

Como grandes corporações criam cenário de incertezas sobre aquecimento global

qua, 13/02/2019 - 08:00

A ciência e a opinião pública envolvem controvérsias que fazem parte do processo coletivo de produção de conhecimento. O que talvez não paremos para pensar é o tanto que agências de relações públicas, corporações, agentes políticos, cientistas, jornalistas e personalidades midiáticas podem interferir nos rumos de discussões científicas. Muitas vezes, contam com estratégias concebidas para evitar a formação de consensos e a movimentação de públicos.

Esse é o tema da pesquisa de Daniel Reis Silva. Ele é vencedor do Prêmio Capes de Tese 2018, na área de Comunicação, com a tese: “Relações Públicas, Ciência e Opinião: lógicas de influência na produção de (in)certezas”. O estudo busca compreender a campanha de relações públicas financiada por grandes corporações do setor de energia e orientada para criar dúvidas sobre a existência do aquecimento global antropogênico.

O pesquisador trabalha com a ideia de “manufatura de incertezas sobre as mudanças climáticas”, uma construção social da dúvida, da tentativa de criar um cenário de ambiguidades no qual os sujeitos fiquem imobilizados e sem saber como agir ou em quem acreditar. Daniel Reis destrincha campanhas que buscam até negar a existência das mudanças climáticas.

“Importante compreender que essa campanha não assume a forma de um conjunto linear de ações, mas sim a de um emaranhado de estratégias de influência. Incorpora, por exemplo, a elaboração de falsas petições, a criação de grupos de fachada para defender pontos de vista e a confecção de materiais didáticos enviesados para estudantes do ensino fundamental”, explica.

Think Thank: funcionam como laboratório de ideias. São grupos de reflexões ou organizações de pesquisas sobre políticas públicas capazes de emitir recomendações a atores públicos.De acordo com o cientista, a tese vai além de denunciar a existência dessas ações, mas tenta compreender as dinâmicas e lógicas de influência que as conformam. “Busca-se entender como a dúvida é socialmente engendrada, como a comunicação atua nesse processo e quais as consequências dessas ações, especialmente na opinião pública e na mobilização de públicos”, afirma.

Afinal, como o pesquisador mergulhou no universo das incertezas para entender as estratégias de influência? Ele acompanhou em profundidade um think tank específico, o Heartland Institute, explorando a participação na rede de criação de dúvidas sobre as mudanças climáticas.

Desvelando os think tanks

De acordo com o pesquisador, os think tanks são ideológicos e operam com financiamento de um grupo aparentemente neutro que servirá como porta-voz perante a opinião pública. “Essa estratégia visa ocultar interesses privados, fazendo com que posicionamentos ganhem força na esfera pública a partir de uma ideia de isenção. Assim, ao invés da própria indústria de carvão fazer uma campanha para defender seu produto, ela cria um grupo de supostos especialistas neutros que terão como função realizar essa defesa em nome de uma verdade científica ou do interesse público, ocultando seus interesses financeiros subjacentes”, detalha Daniel Reis.

“(…) a credibilidade desses grupos torna possível que eles exerçam influência na tomada de decisões políticas – suas características fazem com que eles não possam se apoiar, por exemplo, no peso de representar um grande número de constituintes, na força de uma associação científica com milhares de membros ou mesmo no reconhecimento de uma instituição de ensino renomada” (trecho da tese)A pesquisa dele mostra que os think tanks ideológicos estão, atualmente, no centro da campanha de criação de dúvidas sobre as mudanças climáticas, recebendo financiamento milionário de corporações e pessoas ligadas com a indústria de energia para atuar enquanto instituições “neutras”. “Eles contribuem de maneira decisiva para o clima de incerteza, na medida em que dificultam a compreensão sobre quais interesses privados perpassam os posicionamentos envolvidos no debate climático”, ressalta.

Durante a experiência de acompanhar o think tank Heartland Institute, o desafio para o pesquisador foi desvelar elementos que foram criados para permanecer ocultos. Segundo Daniel Reis, a lógica desses grupos é manter os interesses privados que os motivam afastados dos holofotes públicos, sob o risco de perda de influência.

O foco do cientista era estudar as práticas comunicativas dentro do grupo, tentando elucidar as lógicas que perpassam suas ações de “manufatura de incertezas”. Um dos principais achados da pesquisa, de acordo com Daniel Reis, é a forma em rede na qual os think tanks atuam:

“Ao mesmo tempo que a lógica em rede torna difícil seguir os rastros de cada grupo, ela fortalece suas mensagens a partir de uma dinâmica circular que oculta as origens de cada posicionamento. Nesse ponto, o acompanhamento do grupo foi semelhante a construção de um grande quebra-cabeças no qual cada peça está escondida – e nem todas podem ser encontradas. Ainda que uma imagem perfeita não possa resultar desse processo, diversas pistas e elementos foram identificados e analisados, ampliando a compreensão sobre a atuação do grupo”

Como as dúvidas são construídas?

A pesquisa sinaliza que a ciência é construída socialmente a partir de práticas retóricas. De acordo com o cientista, isso implica um afastamento de visões positivistas que igualam ciência com uma verdade superior inata e objetiva. “Ao contrário dessas, nosso entendimento é sobre como o fazer científico é permeado de contradições e processos não-lineares de negociação que abrem espaços para intervenções estratégias diversas, dentre as quais estão ações de relações públicas”, esclarece.

Mais especificamente sobre mudanças climáticas, o pesquisador apurou que relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) mostram que seriam necessárias mudanças sem precedentes na vida moderna para limitar o aquecimento do planeta a 1,5ºC até 2052. “Tais mudanças impactariam radicalmente a vida de todos nós, já que precisaríamos diminuir nossa pegada de carbono, limitando o uso de automóveis e viagens de avião, diminuindo o consumo de energia e mesmo alterando nossa alimentação”, analisa.

Perante tantas alterações, muitas delas inconvenientes para nosso dia a dia, como podemos apoiar e aceitar esse cenário?

Conforme Daniel Reis, isso só pode ocorrer quando tivermos certeza de que o IPCC e seus cientistas estão corretos, de que tais medidas são imperativas para preservação da vida na Terra como conhecemos. Em outras palavras, quando houve consenso social sobre o tema. É nesse ponto que entra em jogo a “manufatura de incertezas” e a interferência de práticas de relações públicas nos rumos de uma controvérsia:

“A campanha que lidamos na tese não é orientada para convencer cientistas, mas sim para criar dúvidas na opinião pública. Ela atua de forma a sugerir para a população que o debate científico não está encerrado, criando estratégias comunicativas orientadas para evitar a formação dos consensos necessários para a adoção de medidas significativas de controle de emissão de gases estufa”, conclui o cientista.

Três perguntas para o pesquisador

MFC: O que te motivou a estudar o tema?

Daniel: a escolha por trabalhar a manufatura de incertezas e a campanha que busca negar a existência das mudanças climáticas perpassou a compreensão de que o tópico era pouco abordado por estudos de comunicação, apesar de possuir uma grande importância no mundo contemporâneo. Trata-se, assim, da aposta de que uma pesquisa orientada para compreender as lógicas e dinâmicas envolvidas na criação de dúvidas, assim como a forma com que certas práticas abusivas de relações públicas visam influenciar a opinião pública, pode ampliar a compreensão sobre esses fenômenos e seus limites éticos, ajudando a desvelar forças e estratégias que muitas vezes permanecem ocultas.

“A tese faz parte de um percurso focado na construção de uma visão crítica sobre as Relações Públicas, que busca deixar em segundo plano a orientação funcional tradicional dessa área de estudos para eleger como eixo central de investigação as ambiguidades das práticas da área e seus impactos nas disputas de sentido e na conformação do mundo social”

MFC: O que é ser cientista na área de Comunicação?

Daniel: na minha perspectiva, focada principalmente no campo de Relações Públicas, o fazer científico está ligado com a tentativa de compreender as disputas de sentido presentes no mundo contemporâneo, desvelando lógicas e dinâmicas que muitas vezes passam despercebidas e investigando como práticas diversas de comunicação atuam nos embates de poder e na formação da opinião pública. Não se trata de um conhecimento exato, mas de esforços para ampliar o entendimento sobre os diversos elementos em jogo e os aspectos das relações entre organizações e públicos.

MFC: Quais as principais contribuições sua tese deixa para a área de Relações Públicas?

Daniel: a tese aponta para uma visão crítica sobre as Relações Públicas que oferece novas possibilidades de pesquisa que vão além das perspectivas funcionais que há tempos limitam o campo. Ainda mais importante, o trabalho confere centralidade para as ambiguidades subjacentes às práticas da área, que muitas vezes são simplesmente deixadas de lado ou minimizadas por perspectivas tradicionais. A minha visão é que são justamente as contradições e tensões que perpassam as atividades de relações públicas que constituem os objetos mais candentes de pesquisa.

Daniel Reis Silva, vencedor do Prêmio Capes de Tese 2018, na área de Comunicação. Foto: Arquivo do pesquisador

Por fim, a tese apresenta também noções acerca da desmobilização, relacionada com a forma com que a campanha de manufatura de incertezas tenta criar entraves para a formação e movimentação de públicos, e do uso estratégico da cacofonia como elemento para a construção de dúvidas, especialmente a partir das novas tecnologias digitais de comunicação, que podem ser importantes elementos conceituais para futuras investigações da área.

Sobre o pesquisador

Daniel Reis Silva é graduado em Comunicação Social, com ênfase em Relações Públicas, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O mestrado e doutorado em Comunicação Social também foram na UFMG. Atualmente, é professor na Universidade Federal de Santa Maria. As pesquisa realizadas buscam uma noção crítica das Relações Públicas, para compreender, a partir de uma perspectiva não-linear da comunicação, as formas com que a atividade impacta nas disputas de sentido e poder na sociedade contemporânea. Em especial, a ele interessa entender as ambiguidades que perpassam a atividade, assim como discutir sobre práticas abusivas que buscam influenciar a opinião pública.

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Pesquisa propõe método alternativo para controle de pragas

ter, 12/02/2019 - 08:00

Nas rotinas de controle de pragas e doenças em plantações de alimentos, o uso excessivo de agrotóxicos traz prejuízos à saúde e também problemas ambientais, como mudanças no ecossistema.

Por isso, é importante desenvolver pesquisas em busca de métodos alternativos, que visam à sustentabilidade e tenham em vista a segurança alimentar.

Uma dessas soluções foi encontrada no trabalho de Alinne Brandão Braga, orientada pelo professor Eloízio Júlio Ribeiro, no Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Alimentos da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Ela pesquisou o método de microencapsulação do fungicida Trichoderma asperellum, com o objetivo de prolongar a vida útil dos alimentos.

Maior vida de prateleira

O estudo partiu do interesse em se obter maior vida de prateleira e estabilidade para produtos à base do Trichoderma asperellum, um fungo.

Além de apresentar potencial de crescimento vegetal, este fungo é utilizado mundialmente para o controle de fitopatógenoorganismo que transmite alguma doença ou causa problema infeccioso em plantas.

Porém, os produtos formulados com Trichoderma apresentam pouca durabilidade e viabilidade do agente biológico durante o armazenamento e aplicação no campo.

Como alternativa, a pesquisadora utilizou o processo de microencapsulação, que fornece uma barreira física entre os conídios – esporos responsáveis pela reprodução dos fungos -, e outros componentes do meio externo, como umidade, oxigênio e calor.

Tais componentes do meio externo afetam a estabilidade da soja, milho, café, feijão, cana-de-açúcar e algodão, além de frutas como tomate, melão e uva.

“A metodologia é capaz de favorecer a produção e o armazenamento de fungicidas microbiológicos, uma vez que a população mundial está cada vez mais preocupada com o meio ambiente e com a pureza dos alimentos”, conta a pesquisadora.

Com o uso da técnica, é possível reduzir o uso de agrotóxicos nas plantações.

“Os resultados demonstraram que os conídios microencapsulados podem ser uma alternativa para alcançar maior vida de prateleira e estabilidade para os produtos, almejando assim obter metodologias para a agricultura sustentável”, conclui Brandão.

Com informações da Diretoria de Comunicação Social da UFU.

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E-book “Mulher faz ciência” reúne histórias de cientistas brasileiras

seg, 11/02/2019 - 07:00

“Quando nós analisamos os números, as estatísticas, no mundo inteiro, apenas um terço dos cientistas são mulheres. Quando analisamos os cargos mais elevados, só cerca de 10% são ocupados por mulheres. Então, nós ainda temos um problema, sim, de desigualdade”.

A análise é da bióloga Rafaela Salgado Ferreira, uma das 15 jovens cientistas de todo o mundo que receberam um prêmio international para talentos promissores da ciência, o International Rising Talents, em 2018.

Rafaela é uma das dez personagens reunidas no e-book Mulher faz Ciência: dez cientistas, muitas histórias, que o projeto Minas Faz Ciência lança para marcar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, comemorado em 11 de fevereiro. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2016.

Objetivo da publicação é inspirar meninas e mulheres que tenham o desejo de seguir a carreira científica

No e-book, Rafaela relembra sua trajetória, iniciada como aluna do Colégio Técnico da UFMG, Coltec, depois como participante do programa de vocação científica do Centro de Pesquisas René Rachou, ligado à Fundação Oswaldo Cruz, em Belo Horizonte, até se tornar professora do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG.

Num trecho inédito da entrevista, que você pode ouvir a seguir, Rafaela comenta a situação do Brasil em comparação a outros países e cita um estudo que ilustra o “preconceito implícito”. “Foi dado a várias pessoas exatamente o mesmo currículo para elas avaliarem. A única diferença era que em um currículo foi colocado o nome de um homem e, no outro, o nome de uma mulher. O currículo do homem foi melhor avaliado e o salário proposto para o homem foi mais alto”, revela.

DEZ CIENTISTAS, MUITAS HISTÓRIAS

O e-book Mulher faz ciência: dez cientistas, muitas histórias traz também os depoimentos da historiadora e escritora indígena Aline Pachamama; da bióloga Fernanda Staniscuaski, fundadora do projeto Parent in Science [leia entrevista na edição nº 74 da revista Minas faz Ciência]; da cientista da computação Ingrid Splangler; da física Márcia Barbosa; da técnica em Meio Ambiente Myllena Crystina da Silva; da bióloga Natália Oliveira; da arquiteta e urbanista Priscila Gama; da astrônoma e vulcanóloga Rosaly Lopes e da professora de Física Experimental Sônia Guimarães.

Primeira mulher negra a obter o título de doutora em Física no Brasil, Sônia Guimarães avalia que a política de cotas, recentemente instituída no País, foi um importante avanço para ampliar o acesso de estudantes negros às instituições públicas de ensino superior. Ouça um trecho da entrevista:

HISTÓRIA REESCRITA

Assim como o racismo é um obstáculo a mais para mulheres negras na carreira científica, o apagamento das narrativas indígenas é outro equívoco histórico que a escritora Aline Pachamama, fundadora da Pachamama editora, busca contornar com seu trabalho acadêmico. Ouça:

O e-book Mulher faz ciência: dez cientistas, muitas histórias está disponível para download no site Minas Faz Ciência.

 

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Reconhecimento e integração de imigrantes no Brasil

sex, 08/02/2019 - 15:34

Segundo o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), em 2017 foram reconhecidos 587 refugiados no Brasil. Outros 86.007 ainda esperam ser reconhecidos. Violência, coerção e violação de direitos humanos historicamente criam movimentos migratórios. Hoje, venezuelanos, sírios, haitianos, congoleses e palestinos representam os mais expressivos fluxos de entrada de imigrantes deslocados forçados no país.

“Há os casos de migração motivadas por estudos, relacionamentos ou passeio. Por outro lado, há o que nós pesquisadores chamamos de Migração de Crise ou Imigrantes Deslocados Forçados”, explica Eric Júnior Costa, coordenador do Grupo de Estudos Migratórios (Gemalp), do Cefet-MG. São solicitantes de asilo político, refugiados, portadores de visto humanitário e apátridas.

O Gemalp surgiu em agosto de 2018, com uma proposta inovadora em Minas Gerais. “Há carência de pesquisas sobre a relação entre a Linguagem, os Direitos Humanos e a Imigração”, diz Costa. O grupo tem como objetivo levantar informações técnicas e práticas sobre temas relacionados à imigração e em especial às políticas linguísticas.

Confira, no Ondas da Ciência:

Ser imigrante no Brasil

“Diferentemente do que se diz no Brasil, os solicitantes não recebem o documento de refúgio logo na entrada ao Brasil“, esclarece Eric Costa. Imigrantes deslocados forçados precisam preencher formulários do Conare e justificar os pedidos. O processo pode demorar até alguns anos. Em Minas Gerais, foram feitas 237 solicitações de refúgio em 2017. O perfil desses imigrantes é:

  • majoritariamente de homens;
  • residentes em Belo Horizonte ou região metropolitana;
  • solteiros;
  • maioria vem da Síria, de Guiné-Bissau e de Cuba.

“Embora a lei de migração em vigor (Lei 13.445/2017) seja apontada pelo Direito Internacional como avançada e moderna, na prática os imigrantes encontram muitas dificuldades“, afirma Costa. O pesquisador lembra que os problemas começam logo no atendimento na Polícia Federal, muitas vezes feito em português. “Há dificuldade de participar do sistema de saúde e educação. Um grande obstáculo é o reconhecimento dos títulos dos países de origem. Muitos refugiados são médicos, advogados e engenheiros e que não conseguem trabalhar e nem estudar nas suas áreas aqui no Brasil”, diz.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Ministério da Justiça indicam que as principais dificuldades dos imigrantes são idioma e conseguir trabalho, documentação e acesso a serviços.

Português como língua de acolhimento

Os direitos dos imigrantes deslocados forçados são amparados por diversos instrumentos legais. É o caso da Carta das Nações Unidas, de 1945, da Declaração de Cartagena, de 1984, e das Leis 9.474/1997 (Lei do Refugiado) e 13.445/2017 (Lei de Migração). Países que recebem essas pessoas devem garantir o respeito universal aos direitos humanos e às liberdades fundamentais de todos. E um dos direitos fundamentais a ser assegurado é a aprendizagem da língua do país de acolhimento. Leia mais.

Proficiência em língua portuguesa torna-se fundamental para que os imigrantes exerçam a cidadania no país. “É por meio da língua que o refugiado realizada tudo aqui no Brasil, desde preencher os formulários para qualquer documentação, como solicitar um CPF ou a carteirinha do SUS. É importante para a compra e venda no comércio, para estudos em escolas ou faculdades, entre diversos outras atividades”, exemplifica Eric Costa.

Para o pesquisador, o ensino do idioma para esse público deve passar pela estrutura da língua, mas focar nas necessidades imediatas do aluno. Outra preocupação é com a inclusão, nos projetos pedagógicos, da diversidade linguística e cultural de todos os estudantes.

No Cefet-MG, o Grupo de Estudos Migratórios é responsável pela execução do projeto de extensão Português como Língua de Acolhimento. Já participaram do projeto mais de 200 imigrantes. Atualmente, 110 alunos estão inscritos para os cursos de 2019. A maior parte do grupo é composta por mulheres.

Mulher e imigrante

“Fazemos o acolhimento linguístico a todas elas, criamos espaços de diálogo sobre a temática das mulheres migrantes e oferecemos palestras sobre o SUS e sobre os Direitos Humanos”, conta Costa. O Gemalp tem ainda parceria com o Coletivo das Mulheres Migrantes – Cio da Terra.

Doutorandas pesquisam especificamente sobre as mulheres migrantes. “A intenção para esse ano é criar espaços específicos para o diálogo entre as pesquisadoras e as alunas, um lugar de interação e fortalecimento das redes das mulheres migrantes. Acreditamos no potencial das mulheres migrantes em conjunto com as brasileiras que abraçaram a questão”, diz o coordenador do grupo.

Costa explica que pontos comuns entre mulheres brasileiras e migrantes são agravadas entre as últimas: o racismo, a xenofobia e o machismo. “Muitas mulheres, pelo fato de em sua cultura não denunciarem ou procurarem auxílio em caso de violência, acreditam que aqui é igual. Elas carregam consigo suas histórias de violências sexuais e casamentos forçados em seus países, e precisam de apoio psicossocial aqui”, explica.

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Obra de Sennett trata da relação entre indivíduo e esfera pública

qui, 07/02/2019 - 08:00

As múltiplas tensões entre público e privado rendem discussões as mais diversas.

Na década de 1970, Richard Sennett, professor da London School of Economics e da Universidade de Nova York, dedicou-se ao tema por meio de questão basilar:

o cidadão tornou-se egoísta, a ponto de desprezar tudo o que não diz respeito às suas “fronteiras emocionais”, ou, ao contrário, a esfera pública impossibilitou o desenvolvimento e ceifou as expectativas do indivíduo?

Clássico das ciências sociais, O declínio do homem público – As tiranias da intimidade parte de tal problematização para dissecar uma série de conceitos seminais à vida em coletividade – a exemplo de “burguesia”, “cidade”, “plateia” e “relação ‘teatro-sociedade’”.

Para além disso, Sennett promove acurada reconstituição analítica, ao delimitar, com precisão, o período histórico no qual observa a sobrevalorização da “burocracia impessoal da ordem pública”.

Dividido em quatro partes, a obra discute, respectivamente,

  • “O problema público”;
  • “O mundo público do ‘Antigo Regime’”;
  • “O tumulto da vida pública no século XIX”; e
  • “A sociedade intimista”.

Ao longo de tal complexo percurso, busca-se alinhavar as causas do que, para o autor, pode ser chamado de “fim da cultura pública”.

Em tempos de exacerbação do “eu” – por vezes, em detrimento da própria existência do “outro” (inimigo-mor do indivíduo-ator) –, o pensamento de Sennett apresenta-se como importante contribuição ao debate de ideias.

Leia um trecho:“Hoje, a vida pública também se tornou questão de obrigação formal. A maioria dos cidadãos aborda suas negociações com o Estado com um espírito de aquiescência resignada, mas essa debilitação pública tem um alcance muito mais amplo do que as transações políticas. Boas maneiras e intercâmbios rituais com estranhos são considerados, na melhor das hipóteses, formais e áridos e, na pior, falsos. A própria pessoa estranha é uma figura ameaçadora, e muito poucos podem sentir um grande prazer nesse mundo de estranhos: a cidade cosmopolita.

Uma res publica representa, em geral, aqueles vínculos de associação e de compromisso mútuo que existem entre pessoas que não estão unidas por laços de família ou de associação íntima: é o vínculo de uma multidão, de um “povo”, de uma sociedade organizada, mais do que vínculo de família ou de amizade. Como na época romana, a participação na res publica é hoje, na maioria das vezes, uma questão de estar de acordo; e os fóruns para essa vida pública, como a cidade, estão em estado de decadência.” Ficha técnica:

Livro: O declínio do homem público – As tiranias da intimidade

Autor: Richard Sennett

Editora: Record

Tradução: Lygia Araujo Watanabe

Páginas: 530

Ano: 2018

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Indústria 4.0 é tema do Prêmio Mercosul de C&T

qua, 06/02/2019 - 08:00

A Indústria 4.0, também conhecida como manufatura avançada ou indústria inteligente configura-se como importante mudança de paradigma em relação à maneira como as fábricas operam.

Nessa visão de futuro, ocorre uma completa descentralização do controle dos processos produtivos e uma proliferação de dispositivos inteligentes interconectados ao longo de toda a cadeia produtiva e logística.

O nome Indústria 4.0 refere-se à 4ª revolução industrial, caracterizada pela integração e o controle remotos da produção, a partir de sensores e equipamentos conectados em rede, associados a sistemas ciberfísicos, dados e serviços inteligentes de internet.

É entendida como o futuro da produção, dentro de um esforço para revitalização das empresas e pela busca de liderança tecnológica em mercados globais cada vez mais competitivos.

Tal instigante área é o tema do Prêmio Mercosul de Ciência & Tecnologia, que está com inscrições abertas até 31 de maio de 2019.

Podem participar estudantes e pesquisadores residentes nos países membros ou associados ao Mercosul: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

A inscrição individual ou em equipe deve ser feita no endereço: www.premiomercosul.cnpq.br em uma das cinco categorias:

Categorias de participação do Prêmio Mercosul / Reprodução

A premiação consiste em quantias em dinheiro para os agraciados com o primeiro lugar em cada categoria, variando de US$ 2.000,00 (para a categoria Iniciação Científica) a US$ 10.000,00 (para a modalidade Integração).

Os vencedores também recebem, cada um, um troféu. Os contemplados com Menção Honrosa recebem placas. Todos os trabalhos premiados são publicados em livro.

Temáticas e linhas de pesquisa

Os trabalhos submetidos ao Prêmio devem abordar uma ou mais das seguintes linhas de pesquisa:

1. Inovação, tecnologias disruptivas e novos modelos de negócio

  • Uso de tecnologias disruptivas para impulsionar as organizações, aumentar a produtividade e inserir a inovação nas etapas do processo produtivo.
  • Novos modelos de negócios impulsionados pelas transformações causadas nos processos industriais

2.  Agricultura 4.0

  • Utilização de novas tecnologias para contribuir para a produção e industrialização de produtos agrícolas.
  • Utilização da Agricultura 4.0 (TICs e novas tecnologias digitais) para elevar os índices de produtividade, da eficiência do uso de insumos, da redução dos custos com mão-de-obra, melhoria da qualidade do trabalho e segurança dos trabalhadores, e a redução dos impactos ao meio ambiente.

3. Manufatura Avançada e futuro do trabalho

  • Impactos da Indústria 4.0 na sociedade e nos modelos tradicionais de trabalho
  • Como as novas tecnologias mudam o cenário de trabalho e as competências e habilidades necessárias para o trabalho.
Clique aqui e acesse o regulamento completo. Sobre o prêmio

Criado em 1998, o Prêmio Mercosul de Ciência & Tecnologia é uma iniciativa da Reunião Especializada em Ciência e Tecnologia do MERCOSUL (RECyT) e dos organismos de ciência e tecnologia dos países membros e associados ao MERCOSUL, organizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil (MCTIC) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e conta com o apoio institucional do Movimento Brasil Competitivo (MBC).

O Prêmio tem como objetivos reconhecer e premiar trabalhos que representem potencial contribuição para o desenvolvimento científico e tecnológico dos países membros e associados ao MERCOSUL.

Visa também incentivar a realização de pesquisa científica e tecnológica e a inovação no MERCOSUL, e contribuir para o processo de integração regional entre os países membros e associados, mediante incremento na difusão das realizações e dos avanços no campo do desenvolvimento científico e tecnológico no MERCOSUL.

Leia sobre a Indústria 4.0 na edição n. 72 da Minas Faz Ciência:   

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Reduzir a poluição do ar diminui internações e mortalidade

ter, 05/02/2019 - 08:00

A redução das emissões de poluentes atmosféricos e de sua concentração na atmosfera tem efeito direto sobre o número de internações hospitalares e mortalidade associadas à poluição do ar.

Só em Belo Horizonte, entre 236 e 656 mortes evitáveis por todas as causas foram estimadas somente para os anos de 2013 e 2014.

As informações são parte de uma pesquisa que apontou excessos de mortes em 24 cidades brasileiras causadas pelos níveis de concentração atmosférica de material particulado fino.

No estudo, foram analisados dados monitorados pelos órgãos ambientais estaduais de 2000 até 2017.

Apenas 24 cidades brasileiras monitoram as partículas finas que são respiráveis, todas no sudeste brasileiro. Quase 90% das concentrações anuais destas partículas nas cidades brasileiras foram superiores às diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Riscos da poluição do ar para a saúde

Os dados acima estão disponíveis em artigo publicado em colaboração internacional com a participação da pesquisadora Taciana Toledo de Almeida Albuquerque (foto).

Ela é professora do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Poluição do Ar e Meteorologia Aplicada (GPAMA).

Taciana trabalha há mais de 15 anos na área de Ciências Atmosféricas, com foco em Poluição do Ar.

Mestre e Doutora pela Universidade de São Paulo (USP) com pesquisas sobre o tema, Taciana participa de diversos projetos de pesquisa, nacionais e internacionais, vinculados aos problemas causados pela poluição atmosférica no clima, na qualidade do ar e na saúde humana.

Ela também é coordenadora geral da Air Pollution Conference Brazil, evento que será realizado em julho de 2019, em Belo Horizonte, e está com inscrições abertas para submissão de trabalhos.

Confira entrevista com a pesquisadora: Minas Faz Ciência: Como é o cenário da qualidade do ar, hoje, no Brasil e, mais especificamente, em Minas Gerais e Belo Horizonte?

Taciana Toledo de Almeida Albuquerque: O monitoramento da qualidade do ar no Brasil é restrito e insatisfatório em termos do histórico amostral, cobertura territorial, do número de parâmetros monitorados e da representatividade nas medições.

Muito disso se deve às dificuldades gerenciais e o baixo número de técnicos envolvidos, assim como a falta de recursos para a compra e manutenção de equipamentos e redes de monitoramento.

Minas Gerais por exemplo, conta com 29 estações de monitoramento automáticas, sendo dez localizadas no eixo Belo Horizonte/Ibirité/Betim. As demais localizam-se em apenas seis municípios.

Apesar deste número de estações localizadas nessas três cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), os dados não são disponibilizados para a população e comunidade científica, dificultando ainda mais o entendimento das consequências causadas pelos níveis de contaminação atmosférica na saúde da população da região.

Devido a este cenário crítico, poucos trabalhos têm sido desenvolvidos com foco na poluição atmosférica para Minas Gerais. 

É carente, especialmente, a identificação das fontes de emissão e avaliação dos processos de dispersão e contaminação ambiental.

Por exemplo, o único inventário de emissões atmosféricas existente para o estado foi elaborado pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (FEAM, 2003) com referência ao ano de 2002. Considera as fontes fixas e veiculares somente para os municípios de Belo Horizonte, Betim e Contagem, presentes na RMBH, frente à dimensão total do estado que conta com 853 municípios.

Diante desse contexto, o conhecimento das fontes e a quantificação dos poluentes emitidos no espaço e no tempo em Minas Gerais e em Belo Horizonte poderiam trazer melhores respostas a respeito de quais setores são os mais poluentes, bem como os locais e períodos de tempo em que as emissões estão concentradas, sendo mais críticos para a saúde da população nos dias atuais.

MFC: Que cenários ou atividades mais impactam, hoje, a qualidade do ar?

Taciana Toledo de Almeida Albuquerque: Os processos de urbanização têm sido uma das tendências mais marcantes da atividade humana ao longo da história.

Em meados do século XIX, apenas 1,7% da população mundial vivia em cidades, mas já no ano de 2007 essa fração correspondia a 50%.

Associados à intensificação dos processos de urbanização estão o rápido crescimento econômico, o desenvolvimento de uma diversidade de processos industriais, o dramático aumento no uso de combustíveis fósseis e não fósseis e o elevado nível de uso de veículos automotores, que têm contribuído significativamente para o aumento da emissão de poluentes para a atmosfera.

Nos países em desenvolvimento, o problema da poluição do ar é geralmente agravado pelas legislações mais permissivas, pela falta de controle nos processos industriais, pela elevada idade da frota de veículos e pela ausência de manutenção em seus sistemas de controle, bem como pela utilização intensiva de combustíveis fósseis em vez de fontes de energia de baixa emissão.

Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

MFC: Que respostas a ciência tem oferecido para o problema da poluição do ar?

Taciana Toledo de Almeida Albuquerque: Muitas ferramentas numéricas (modelos matemáticos) surgiram com o objetivo de auxiliar na avaliação e diagnóstico da poluição do ar de uma região.

A modelagem matemática capaz de realizar uma previsão  da qualidade do ar é uma ferramenta complementar ao monitoramento e economicamente viável para se realizar a estimativa dos impactos causados pelas emissões na atmosfera e nos seres humanos e meio ambiente, sendo também utilizada para projetos de redes de monitoramento da qualidade do ar.

Na ausência de monitoramento ambiental, em regiões afastadas ou mesmo em grandes estados, a modelagem meteorológica e da qualidade do ar permitem um entendimento da dinâmica da atmosfera, dada a complexidade das interações existentes entre poluentes e a atmosfera.

Desta forma, é possível estimar quais os benefícios que uma melhoria da qualidade do ar poderá trazer na saúde da população local e também uma estimativa do valor economizado pelo estado com a redução do número de internações hospitalares de crianças, idosos e pessoas que possuam doenças pré-existentes.

MFC: Nas fronteiras da ciência, qual o maior desafio para os pesquisadores da área?

Taciana Toledo de Almeida Albuquerque: Diante das questões citadas acima, tem sido um desafio para os estudiosos e gestores da qualidade do ar identificar as fontes de emissão de poluentes, entender os processos de dispersão e contaminação, e desenvolver estratégias efetivas de controle da poluição atmosférica nas áreas urbanas.

MFC: Conte-me um pouco sobre o evento que vocês vão realizar em julho na capital…

Taciana Toledo de Almeida Albuquerque: A Conferência Internacional da Poluição do Ar Brasil será realizada em conjunto com a tradicional Conferência da Comunidade de Modelagem e Análise de Sistemas (CMAS) norte-americana, que é financiada pela Agência de Proteção Ambiental Americana (US-EPA).

Estarão presentes na conferência cientistas internacionais e nacionais, professores universitários, profissionais das diversas indústrias e de órgãos ambientais, consultores ambientais, além de estudantes.

O objetivo principal do evento é divulgar as tecnologias mundiais mais atualizadas para controle da poluição do ar e monitoramento atmosférico, apresentar metodologias novas para avaliar o grau de exposição à poluição do ar e seu impacto à saúde da população, além do estado da arte sobre técnicas de modelagem numérica aplicadas a estudos da qualidade do ar, clima e energia.

MFC: Qual a expectativa da organização em relação ao tamanho do evento, número de participantes brasileiros e estrangeiros e frutos que podem sair deste encontro?

Taciana Toledo de Almeida Albuquerque: Na América do Sul, esta conferência ocorreu pela primeira vez em 2013 em São Paulo com um público de aproximadamente 100 pessoas.

Em 2015, a segunda edição foi realizada na cidade de Bucaramanga na Colômbia.

A terceira edição da conferência ocorreu em 2017, em Vitória, ES, com aproximadamente 200 participantes, demonstrando que a comunidade da América do Sul e, principalmente, do Brasil está se organizando para participar deste que é o único evento brasileiro voltado para a Poluição do Ar.

Nesta quarta edição, esperamos receber cerca de 300 pessoas. O evento permitirá compartilhar as experiências de todos os participantes e contribuir para o aprimoramento da ciência no país.

Já temos muitos palestrantes confirmados de países como Estados Unidos da América, Inglaterra, Alemanha, China, Coreia, Índia, Colômbia, dentre muitos nomes que se destacam no cenário nacional.

Um momento importante e de destaque da conferência é a tradicional mesa redonda, que reunirá especialistas nacionais e internacionais, importantes agências ambientais nacionais (CETESB, INEA, FEAM e IEMA) e internacionais (US-EPA e UK-EPA) e representantes das indústrias para discutir problemas ambientais relacionados à poluição do ar.

Para saber mais sobre o evento, acesse: cmasconference.com.br. E mais: Leia na Minas Faz Ciência n. 64 sobre pesquisa que usa técnicas nucleares para monitoramento da qualidade do ar:

  

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Tecnologia e computação ajudam na coleta de informações debaixo d’água

seg, 04/02/2019 - 11:01

Você sabia que mais de 95% do volume dos oceanos nunca foram vistos pelos seres humanos? Isso significa que há muitos segredos escondidos no fundo dos mares e somente com tecnologia descobriremos esse ambiente inexplorado. Um das possibilidades é o uso de redes de sensores sem fio, que ajudam a coletar dados debaixo d’água, revelando informações essenciais e submersas. 

As redes de sensores sem fio aquáticas (RSSFAs) são compostas por dispositivos computacionais (nós sensores) que têm capacidades de processamento, armazenamento e comunicação sem fio, bem como de sensoreamento de variáveis e eventos de interesse em ambientes aquáticos.

Os nós sensores aquáticos não são exclusivamente usados em oceanos. São depostos, também, em lagos e rios para a coleta autônoma de dados. Podem ser úteis para:

– monitoramento da qualidade da água em reservatórios e rios;

– detecção precoce de tsunamis e maremotos,

– acompanhamento da vida marinha;

– verificação do impacto da atividade humana nos oceanos (medições da temperatura nos oceanos, por exemplo);

– monitoramento de vazamentos em plataformas de petróleos, entre outros.

O pesquisador Rodolfo Wanderson Lima Coutinho é um especialista no assunto. Ele é autor da tese “Controle de topologia e roteamento oportunístico em redes de sensores aquáticas”, desenvolvida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e vencedora do Prêmio Capes de Tese 2018, na categoria Ciência da Computação. Ele pesquisou a topologia das RSSFAs e desenvolveu um protocolo de roteamento para melhorar a entrega dos dados dessas redes.

Desafios de informações submersas

Segundo o cientista, a topologia tem um papel fundamental no processo de comunicação entre os dispositivos em uma rede e, no caso de informações submersas, há algumas especificidades.

“Diferentemente de uma rede celular ou uma rede local cabeada, a topologia de uma rede de sensores sem fio aquática dificilmente seguirá um planejamento, dado as dificuldades de deposição dos nós sensores aquáticos e os eventos que acontecem nos meios aquáticos como, por exemplo, correntes aquáticas que fazem com que os nós sensores não permaneçam em uma mesma localização. A topologia dinâmica da rede resulta em desafios para a comunicação. Contudo, ela pode ser controlada por meio do ajuste de parâmetros em nós sensores, por exemplo, a potência de transmissão usada na comunicação sem fio”, explica.

Essas informações coletadas debaixo d’água são enviadas pelos nós sensores a uma central de monitoramento. Sendo assim, o controle de topologia em RSSFAs é fundamental para aprimorar a coleta e eficiência dos caminhos de roteamentos. Além disso, melhora o aproveitamento energético e, consequentemente, prolonga o tempo de vida útil de uma RSSFA.

Durante os trabalhos da tese, Rodolfo Coutinho criou o GEDAR, protocolo de roteamento com objetivo de resolver o “vazio de comunicação”. “Esse problema acontece sempre que um nó não possui um vizinho cuja distância para o destinatário é menor que a sua. A abordagem que havia na literatura para lidar com esse problema era a busca de um caminho de roteamento alternativo. Para isso, era necessário o envio de pacotes adicionais de controle, para descobrir e manter esse caminho de roteamento alternativo. Isso resultava num gasto excessivo de energia, visto que a topologia da rede mudava frequentemente devido a mobilidade no meio aquático”, detalha o pesquisador.

Na tese, conforme explica Rodolfo Coutinho, foi proposto um método inovador para lidar com o problema. Quando um nó sensor está em uma área de “vazio de comunicação”, o GEDAR determina uma nova profundidade para o nó, que permitirá a entrega de pacotes de dados produzidos a partir das informações que ele coletou do ambiente. “Essa abordagem evita que se tenha um gasto excessivo de energia, visto que alguns nós sensores aquáticos no mercado apresentam mecanismos para o movimento vertical (ajuste da profundidade) com um baixo custo de energia”.

Para testar o modelo matemático, o pesquisador usou o simulador ns2 (network simulator 2) para reproduzir o ambiente aquático e as RSSFAs. Com ele, é possível imitar o ruído que afeta as transmissões acústicas no meio aquático, como por exemplo, a temperatura da água, vento, turbulência e atividades marítimas. Simulam-se também as colisões de pacotes quando há vários nós sensores aquáticos em um mesmo instante e em uma mesma área de cobertura; a absorção do sinal acústico e outras características importantes de RSSFAs e da comunicação acústica nos ambientes aquáticos. De acordo com o cientista, essa ferramenta permitiu simular a mobilidade dos nós sensores aquáticos em função das correntes marítimas.

Três perguntas para o pesquisador MFC: O que te motivou a estudar o tema?

Rodolfo Coutinho: os grandes desafios presentes nessas redes e a importância em habilitar aplicações de monitoramento de ambientes aquáticos. Na graduação, tive meu primeiro contato com redes de sensores sem fio terrestres para aplicações de monitoramento do meio ambiente. Fiquei fascinado naquela época por estar conhecendo uma algo diferente das tradicionais redes de computadores.

Alguns anos depois, me aprofundei sobre o tema, inicialmente para escrever um projeto de pesquisa para minha inscrição no mestrado e posteriormente para desenvolver a dissertação na área. Foi nessa época que conheci os trabalhos desenvolvidos no SensorNet, um grupo de pesquisa no Departamento de Ciência da Computação (DCC) na UFMG, que estudava os desafios de pesquisa na área de redes de sensores sem fio terrestres.

Conheci as redes de sensores aquáticas e comecei a estudar. Quanto mais eu aprendia sobre RSSFAs, mais identificava os desafios que precisavam ser superados e entendia a verdadeira importância dessa tecnologia para os seres humanos e o meio ambiente. Isso fez com que eu desenvolvesse minha pesquisa nessa área, buscando entender e resolver problemas fundamentais no roteamento dos dados para que possamos ter uma coleta eficiente, autônoma e em larga escala de variáveis.

MFC: O que é ser cientista na área de Computação?

Rodolfo Coutinho:  estudar problemas desafiadores, avançar a fronteira do conhecimento e resolver problemas fundamentais que permite o aperfeiçoamento e a criação de novas tecnologias que impactam positivamente na vida dos seres humanos.

Rodolfo é vencedor do Prêmio Capes de Tese 2018, na categoria Ciência da Computação. Foto: DCC UFMG/Divulgação

MFC: Quais contribuições sua tese deixa para essa área da ciência?

Rodolfo Coutinho: o desenvolvimento de soluções que permitirão uma coleta de dados mais eficientes em RSSFAs. Essas soluções avançam o estado da arte em direção a uma nova tecnologia de redes das coisas aquáticas, que quando atingir maturidade, permitirá coletar grandes volumes de dados sobre os oceanos e a vida marítima. Isso ajudará a entender o papel dos ambientes aquáticos na manutenção da vida na Terra.

Sobre o pesquisador

A formação escolar e acadêmica Rodolfo Coutinho é toda em escolas públicas – do ensino básico ao doutorado.  É graduado em sistemas de informação pela Universidade Federal do Pará (UFPA), onde iniciou os caminhos de pesquisa em projetos de iniciação científica. Fez mestrado de Engenharia Elétrica, na linha de Computação Aplicada, na mesma universidade, quando pesquisou modelagem de um controle conjunto de admissão de chamadas para redes 4G e WiFi co-localizadas.

O doutorado na UFMG foi sob orientação do prof. Antonio A. F. Loureiro e, posteriormente, sob a co-orientação do prof. Luiz Vieira.  Rodolfo Coutinho foi aceito no doutorado cotutela na UFMG e Universidade de Ottawa, Canadá, onde passou a trabalhar sob a orientação do prof. Azzedine Boukerche e, atualmente, desenvolve as pesquisas do pós-doutorado.

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2019 é o ano internacional da Tabela Periódica

sab, 02/02/2019 - 17:59

Em 1869, o químico russo Dimitri Mendeleev organizou os elementos químicos na primeira versão reconhecida da Tabela Periódica. Passados 150 anos, e como forma de reconhecimento a esse modelo, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) determinou que 2019 é o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos.

“É o reconhecimento da importância desse modelo de racionalizar fenômenos da natureza. E é um certo reconhecimento ao trabalho da Química, porque a Tabela Periódica é o maior símbolo do trabalho desse campo da ciência. Todo espaço em que se discute química tem uma Tabela Periódica fixada na parede”, diz Teodorico de Castro Ramalho, professor do Departamento de Química da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

Confira, no Ondas da Ciência:

A Tabela Periódica

A Tabela Periódica ordena os elementos químicos segundo números atômicos, configuração eletrônica e recorrência das propriedades periódicas. É uma forma de organizar todos os elementos químicos de acordo com suas propriedades, apresentando tendências periódicas. “Entender diversos conteúdos da química exige um certo grau de abstração. Visualizando a Tabela Periódica, fica claro que existe uma racionalização, uma sistematização da natureza”, explica Ramalho.

A tabela conta com todos os elementos químicos descobertos pelo ser humano. Fornece informações sobre o estado físico à temperatura ambiente, classifica os elementos em metais, metalóides e ametais, de acordo com suas propriedades, e possibilita entender melhor ligações químicas e como formam-se as moléculas. “Com isso, teve um grande impacto em relação ao desenvolvimento de tecnologias. A Tabela Periódica pode ser usada para deduzir as relações entre propriedades e elementos químicos. Ela pode prever as propriedades de novos elementos ainda não descobertos, além de analisar e prever o comportamento de átomos e moléculas”, afirma o professor.

Hoje, a Tabela Periódica tem 118 elementos, sendo que os 92 primeiros são encontrados na superfície da Terra. Do 93 ao 118, os elementos foram sintetizados em laboratório. “Ainda hoje, há uma pesquisa intensa para desenvolver novos elementos químicos. Existe a previsão de síntese do elemento 119 para os próximos dois anos”, diz Teodorico Ramaho. Quando criados, mesmo que por frações de segundo, os dados sobre os novos elementos são levados para a União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC). A IUPAC valida os experimentos e inclui os novos elementos na Tabela Periódica.

História: propostas de organização dos elementos químicos

Apesar de existirem conhecimentos sobre elementos químicos como ouro, prata, estanho, cobre, chumbo e mercúrio desde a antiguidade, apenas em 1669 foi descoberto e reconhecido cientificamente um elemento químico: o fósforo. A partir de então, diversos elementos foram descobertos. “Passados 200 anos e com o aumento do número de elementos químicos, tornou-se necessária a sistematização desse conhecimento. Vieram várias propostas para isso”, conta Teodorico Ramalho.

Tríades

Desenvolvida por Johann Wolfgang Döbereiner, em 1817, a primeira proposta aceita pela comunidade científica foi a das Tríades. Os elementos com propriedades semelhantes, que reagiam de maneira semelhante a outros elementos, eram organizados em grupos de três, separados pela massa atômica.

Parafuso Telúrico

Em 1866 uma nova classificação emergiu entre cientistas. Criado por Alexandre Béguyer de Chancourtois, o modelo do Parafuso Telúrico agrupava os elementos químicos em uma espiral, em ordem decrescente de massa atômica. Os elementos com características semelhantes ficavam um embaixo do outro. “Essa proposta foi utilizada por algum tempo, mas não conseguia-se classificar e inserir novos elementos químicos descobertos”, explica Ramalho.

Lei das Oitavas

Surgiu então a Lei das Oitavas, proposta por John Newlands, em 1864. Ele agrupou os elementos químicos de sete em sete, em ordem crescente de massa atômica, e observou que o primeiro elemento tinha propriedades semelhantes ao oitavo, e assim por diante. “Foi um grande avanço, entretanto, ela falhou no seguinte: nenhuma regra numérica foi encontrada para que se pudesse organizar completamente os elementos químicos. Elementos químicos próximos não tinham tanto a ver. Então essa classificação foi abandonada”, conta o professor da UFLA.

Tabela de Mendeleev

A primeira versão da tabela periódica, publicada por Mendeleev em 1869, demonstrou as tendências periódicas dos elementos até então conhecidos e deixou espaços para outros que ainda seriam descobertos. O químico propôs classificar os elementos por ordem crescente de massas atômicas, distribuídos em 8 colunas e 12 faixas horizontais. “Ele foi tão genial que as propriedades de elementos químicos descobertos depois batiam com o que Mendeleev havia proposto”, afirma Ramalho. A Tabela Periódica atual é baseada na de Mendeleev.

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Dicas para as famílias de estudantes na volta às aulas

sex, 01/02/2019 - 18:36

Conversamos com Anna Cláudia Eutrópio, psicóloga, doutora em Educação e coordenadora do Nós e Voz, em busca de dicas para facilitar a vida dos pais neste período.

Ela lembra que a volta às aulas mobiliza uma série de emoções e questões nas famílias.

“Para famílias em que as próximas semanas marcam o início da trajetória escolar de suas crianças, a expectativa e a ansiedade são enormes. Há, por um lado um enorme desejo que a criança fique bem na escola e que se adapte. Porém, por outro lado, há também uma angústia com a separação da criança e até mesmo um certo ciúme de novos adultos que possam se tornar queridos e referência para as crianças”.

Neste sentido, a psicóloga destaca que

“Lidar com essa ambivalência de sentimentos é uma tarefa que exige disponibilidade, abertura para a reflexão e para acolher esse misto de sentimentos internamente. É comum vermos nas portas das escolas infantis crianças entrando e dando tchau e pais chorando com essa despedida (assim que a criança não está vendo). Também vemos crianças que choram e não querem sair do colo das mães. Entender essa fase de adaptação como natural e integrante do processo de escolarização reduz a ansiedade das famílias”.

Algumas dicas:

1. Tenha clareza do significado de escola para a família

Levar uma criança pequena para a escola pode ser compreendido de diferentes maneiras. É importante que a família faça uma reflexão sobre quais os significados que a escola tem na concepção de educação que querem oferecer à criança.

Entender a escola como um espaço de desenvolvimento e de socialização para essa criança, facilita suportar as dificuldades iniciais, pois se acredita que pertencer àquele universo será benéfico para a criança. Isso também se relaciona com a próxima dica.

2. Confie na escola que você escolheu para seu filho

Existe escola perfeita? Não! Existe escola que faz tudo exatamente do jeitinho que uma família imaginou? Não. E sabe porquê? Porque os critérios que definem o que é uma boa escola dependem de algumas concepções de cada família.

Claro que existem critérios que são universais como higiene, segurança, profissionais qualificados, atenção às características da infância. Mas, existem nuances de cada instituição escolar que irão ser mais ou menos aderentes às suas concepções de educação. Ao definir a escola para o seu filho é preciso que você confie na instituição.

Então, durante o processo de adaptação, quando houver medos e ansiedade, é preciso que você recorde porque escolheu essa escola e confie nos profissionais que dela fazem parte. É possível que as crianças chorem ou tenham algumas dificuldades com a nova rotina e o novo ambiente.

Converse com a equipe da escola num tom colaborativo e que demonstre que você confia na instituição. Peça ajuda para que sua atuação enquanto família seja o mais próximo possível da atuação da escola e que possam já, desde o começo, estabelecer uma relação de parceria e colaboração.

Isso será extremamente positivo para seu filho e a relação dele com o ambiente escolar.

3. Celebre a volta às aulas

Se você entende que estudar é uma oportunidade para o desenvolvimento integral de sua criança, celebre a volta as aulas, mostrando como o ano será cheio de novas aprendizagens! Se referir à escola ou a volta às aulas como punição, castigo ou algo negativo só dificulta o processo de readaptação à rotina escolar.

4. Escute atentamente as emoções de sua criança

Entenda que a criança pode viver emoções ambivalentes em relação à volta às aulas: se por um lado pode estar animada com novos colegas, novos professores, novos conteúdos, também pode estar assustada com tudo isso. Lidar com essa ambivalência entre a curiosidade da novidade e o medo do desconhecido é uma tarefa humana eterna. Ajude sua criança a viver isso, permitindo que ela fale desses dois lados.

5. Entenda que pode haver um luto pelas férias

Perder a leveza das férias, com uma rotina menos estruturada e horários mais flexíveis, passeios e viagens pode gerar uma tristeza e saudades antecipadas. Ajude sua criança a valorizar tudo que viveu e a entender que agora uma nova fase estar por vir.

6. Observe se há medo de encontrar colegas

A escola é um espaço de desenvolvimento cognitivo e afetivo, marcado pela socialização entre pares. Essa socialização é, para várias crianças (e, especialmente adolescentes) algo definidor da relação deles com a escola.

A volta às aulas, muitas vezes, é esperada e desejada pela possibilidade de reencontro com os amigos. Porém, em alguns casos, o que se observa é exatamente um medo de encontrar os colegas. Num mundo em que os casos de bullying são constantes, essas emoções na época da volta às aulas podem ser um sinal de alerta para que observemos como estão as amizades e a socialização de nossa criança no ambiente escolar.

7. Entenda que a volta às aulas é uma readaptação

Cobrar excessivamente desempenho acadêmico e “nova postura” nas primeiras semanas de aula pode aumentar a ansiedade que o próprio retorno já causa. Vá com calma e gradativamente construa o ritmo do ano letivo.

Temos também dicas para os estudantes na volta às aulas. Acesse aqui.

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Dosagem incorreta com anti-inflamatórios retarda cura de tecidos

qui, 31/01/2019 - 20:58

“Todas as substâncias são venenosas. Não há nenhuma que não seja um veneno. A dose certa é o que diferencia um remédio de um veneno.”

Frase atribuída a Paracelso, médico e físico suíço do século XVI

O estudo do pesquisador Gustavo Menezes, do Departamento de Morfologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sobre anti-inflamatórios e reações no organismo, também está envolvido com medidas medicamentosas. De acordo com o cientista e colaboradores, a dosagem e o tempo de uso dos remédios sintomáticos, como o paracetamol e tylenol, caso não sejam corretos, podem causar atraso na reparação tecidual e outra série de complicações. As análises tiveram base na alteração sofrida pelo fígado quando houve superdosagem com as substâncias.

Resposta inflamatória

Menezes explica que a resposta inflamatória, há algumas décadas, era observada como uma doença. O que é um erro. O processo inflamatório é um recurso do organismo que, no interesse de se restabelecer, fomenta o combate a estranhezas no corpo, o que gera sintomas, como dor, edema e febre.

Em informações prestadas à assessoria de imprensa da UFMG, Menezes compara a resposta inflamatória com “uma cidade atingida por um míssil: para reconstruir, é preciso demolir as construções danificadas e limpar o terreno. Os neutrófilos, células de defesa que chegam rapidamente ao tecido inflamado, precisam acabar de digerir os tecidos mortos, para que o órgão possa se reconstituir. Assim, bloquear sua ação completamente e por longos períodos impede que o tecido se repare corretamente”.

Diante desse desconforto (sintomas) causado por diversos fatores, como patógenos, as pessoas minimizam o problema com medicamentos anti-inflamatórios. O que, segundo pesquisador, não é obrigatoriamente um problema, desde que sejam prescritos por profissionais de saúde no momento exato.

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As complicações ocorrem quando pacientes não procuram ajuda médica para saberem quais remédios devem tomar, qual a dosagem e por quanto tempo. No caso dos anti-inflamatórios, de acordo com o estudo, a sobremedicação causa maior resistência aos princípios ativos do remédio (“o corpo aprende a destruir a medicação mais rapidamente”) e retarda a cura dos tecidos afetados pela enfermidade.

“Os processos esculpidos pela evolução são uma dádiva para fixação humana na terra”, diz o pesquisador. Por isso, dosagens que amenizam os sintomas não devem afetar a cura natural do organismo.

Segundo Menezes, entre os três momentos possíveis para uso desses medicamentos (antes dos sintomas aparecerem, durante os sintomas e depois dos sintomas terem acabado), a pior resposta ocorreu quando houve o prolongamento do anti-inflamatório sem motivos. Por outro lado, quando houve intervenção medicamentosa logo no aparecimento dos sintomas, as respostas foram melhores.

A facilidade de compra dos anti-inflamatórios cria uma cultura de automedicação nada benéfica. “As pessoas sentem uma leve dor de cabeça e começam a fazer uso do medicamento. Mesmo depois de terem acabado os sintomas, elas continuam tomando para se precaver. Essa prática pode resultar em outras doenças e maiores complicações”, afirma Menezes.

O artigo científico foi publicado, recentemente, na Revista Cells com o nome Paradoxical Role of Matrix Metalloproteinases in Liver Injury and Regeneration after Sterile Acute Hepatic Failure. Para acessar, clique aqui.

Veja abaixo o vídeo da entrevista como pesquisador.

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Patógenos humanos são resistentes aos agrotóxicos

qua, 30/01/2019 - 10:27

O governo brasileiro tem buscado flexibilizar o uso de agrotóxicos no país desde o final do ano passado. Esse processo resultou na liberação do registro de agrotóxicos com alto grau de toxicidade, no último dia 10.

Entre os produtos liberados para comercialização, está o Sulfoxaflor que ficou conhecido nos Estados Unidos por exterminar populações de abelhas. Como já era esperado, a medida gerou críticas da comunidade científica e da população em geral.

Na semana seguinte, a Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins do Ministério da Agricultura publicou lista com mais de 131 pedidos de registros de agrotóxicos solicitados ainda em 2018. Esses pedidos deverão passar por avaliações técnicas do governo antes de serem liberados.

Não é de hoje que pesquisadores brasileiros buscam identificar os impactos dos agrotóxicos para o meio ambiente e na saúde da população. Os riscos diretos que a exposição às essas substâncias gera na população já são bastante conhecidos pela comunidade científica. Entretanto, pouco se sabe sobre os impactos indiretos dessa exposição.

Impactos indiretos dos agrotóxicos

Com o intuito de investigar quais são esses efeitos indiretos, Rafael Bastos, doutor em microbiologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisou em seu doutorado as influências de antifúngicos usados para tratar doenças de plantas nos fungos que causam doenças em humanos e que vivem no ambiente.

” Nós sabemos que existem fungos que causam problemas em humanos e animais. Por exemplo, micoses, meningite, entre outros. No mundo inteiro, cerca de 1,5 milhão de pessoas morrem por causa desse tipo de infecção. Isso acontece porque há poucos medicamentos para tratar as doenças causadas por fungos. Além disso, as poucas drogas que existem, não são eficientes, pois os fungos se tornaram resistentes aos medicamentos”, explica.

A ideia do estudo foi, portanto, tentar compreender o porquê e como os fungos podem se tornar resistentes aos antifúngicos. Para isso, o pesquisador partiu da hipótese de que o contato com agrotóxicos poderia fazer com que esses micro-organismos adquirissem resistência aos antifúngicos ainda no ambiente.

Durante o estudo, Bastos expôs os fungos aos agrotóxicos até o máximo que eles conseguiram aguentar. Posteriormente, o cientista averiguou se esses fungos tinham ou não se tornado mais resistentes aos medicamentos.

“Vimos que uma parcela de fungos de Cryptococcus (gênero estudado pelo pesquisador) se tornava mais resistente. Mesmo depois que retiramos os fungos do contato com o agrotóxicos, depois de 10 meses, eles continuaram resistentes aos antifúngicos clínicos. A conclusão é que o agrotóxico induziu uma mutação do DNA do fungo e fizesse que ele fosse permanentemente resistente”, afirma Bastos

Pesquisa necessária

A pesquisa realizada por meio de uma parceria entre o Departamento de Micologia na UFMG e do Instituto Pasteur, em Paris, também mostrou que nem todos os agrotóxicos aos quais os fungos foram expostos alteraram a resistência das espécies aos antifúngicos clínicos. Por isso, Rafael Bastos avalia a necessidade de realização de pesquisas sobre a toxicidade e os impactos diretos e indiretos causados pelos agrotóxicos.

“As pesquisas devem ser constantes. Ainda tem muita coisa que não sabemos sobre os agrotóxicos. Esse meu estudo, por exemplo, é recente. Até então não sabíamos desses impactos indiretos que os agrotóxicos podem causar. É preciso avaliar a toxicidade antes da liberação. Entretanto, liberar agrotóxicos com mais toxicidade, como vem sendo feito, vai na contramão do que estamos vendo no resto do mundo”, finaliza.

 

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Uso de bactérias contribui para a remoção de metais pesados da água

ter, 29/01/2019 - 09:27

Com um procedimento barato e seguro, uma pesquisa do Departamento de Biologia (DBI) da Universidade Federal de Lavras (UFLA) removeu metais pesados da água com o uso da biomassa das bactérias.

Nocivos à saúde e ao meio ambiente, metais pesados como chumbo e cádmio estão na água aparentemente pura e cristalina que chega às torneiras.

Originados do esgoto industrial, mineradoras e atividades agropecuárias, despejos em mananciais destinados ao consumo humano atravessam estações de tratamento que adotam processos ineficientes de remoção de alguns compostos.

Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

Como os metais pesados foram removidos?

A professora Cristina Batista explica que, naturalmente, baixas concentrações de metais podem estar presentes nas águas.

O próprio ambiente elimina as impurezas pelo processo natural de recuperação do corpo d´água, chamado de autodepuração.

“Mas a indústria despeja elementos químicos tóxicos na água que não são eliminados. As empresas realizam tratamentos químico e físico, bastante caros, desses contaminantes. Por isso, testamos biomassa de bactéria para remover esses compostos de forma eficiente e com baixo custo”, explica.

Em laboratório, seis microrganismos foram testados até encontrar a espécie mais eficiente para a remoção dos metais pesados em efluentes líquidos.

Primeiro, os pesquisadores selecionaram bactérias encontradas em amostras de água de uma lavoura do Triângulo Mineiro, com alta concentração de cádmio.

Depois, utilizaram os mesmos microrganismos selecionados para remover poluentes, segundo variações no PH da água e concentrações do metal.

A bactéria Serratia marcescens contribuiu para a retirada de todo o chumbo encontrado na água, 50% de cádmio e 15% de zinco.

O estudo foi realizado em parceria com a universidade portuguesa do Algarve.

Atração físico-química

Gustavo Magno dos Reis Ferreira, pós-doutor em Microbiologia, esclarece que a atração físico-química entre metais pesados e a parede celular das bactérias permitiu a limpeza da água contaminada.

“A afinidade das moléculas das bactérias, de carga positiva, com os elétrons dos metais pesados, faz com que eles se aproximem. Dessa forma, os metais que estão no líquido são absorvidos pela biomassa da bactéria. Com o tratamento, é possível recuperar essa biomassa e eliminar o metal pesado que estava na água”, argumenta.

Embora a água seja tratada, por questão de segurança, ela não é indicada nem para consumo humano nem para irrigação de atividades agrícolas.

“Limpa, a água pode ser utilizada para irrigação de área de reflorestamento, sem contato direto com ser humano ou animais que entrarão na cadeia alimentar”, ressalta.

Riscos dos metais pesados para a saúde

Metais pesados presentes em águas contaminadas podem chegar ao corpo humano a partir do consumo de alimentos e animais contaminados.

Os metais pesados podem ser causa de doenças como o câncer já que, em contato com o organismo, esses metais acabam atraindo elementos essenciais do corpo, como proteínas e enzimas. Eles se unem a elas e impedem que funcionem normalmente.

Conheça mais sobre os metais pesados:
  • Chumbo: metal pesado largamente utilizado em processos de soldagem, na construção civil, na indústria de munições e tintas. É um dos mais perigosos, afetando principalmente os sistemas nervosos central e periférico, medula óssea e rins.
  • Cádmio: metal pesado utilizado principalmente na indústria de baterias e na galvanoplastia. Esse elemento pode atingir órgãos vitais como rins, fígado e pulmões. A intoxicação por cádmio pode provocar danos no sistema ósseo e cânceres.
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