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Ciência, inovação e tecnologia
Updated: 8 hours 48 min ago

Pesquisadora mineira é premiada e defende voz das mulheres cientistas

12 hours 21 min ago

“Nos seus artigos, não coloque seu primeiro nome. Assim, eles não saberão que você é mulher e vão citar mais seus trabalhos”.

O conselho foi dado a Gabriela Barreto Lemos, 36, quando era mestranda do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no período de 2004 a 2006. Ela conta que a intenção da orientadora, Maria Carolina Nemes (1952-2013), era prepará-la para seguir carreira na Europa. O território seria ainda mais hostil para uma pesquisadora da área de ciências naturais do que o brasileiro. “Ela queria que eu me protegesse, fingindo que não era mulher, não usando saia, não mostrando emoções”, lembra. Embora reconheça a preocupação da professora em garantir sua “sobrevivência” como pesquisadora, Gabriela afirma que hoje não aconselharia suas alunas a fazer o mesmo.

Em 2018, cinco anos após a morte da docente da UFMG, a Sociedade Brasileira de Física concedeu-lhe uma homenagem, com a criação do Prêmio Carolina Nemes, destinado a físicas em início de carreira. Desde 2006, ela figura entre os membros da Academia Brasileira de Ciências, na área da Física, ao lado de personalidades como Márcia Barbosa. Certamente, Maria Carolina teria se orgulhado com a presença da pupila entre as brasileiras que receberão, em 2019, a Medalha Mietta Santiago, concedida pela Câmara dos Deputados para destacar iniciativas relacionadas aos direitos das mulheres.

O nome da condecoração faz referência ao pseudônimo da escritora e advogada mineira Maria Ernestina Carneiro Santiago Manso Pereira (1903-1995), ativista do direito ao voto feminino no Brasil. Também serão agraciadas a bioquímica Débora Foguel [leia entrevista na edição nº 75 da revista Minas Faz Ciência]; a vereadora Marielle Franco, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, assassinada em março do ano passado; a professora Gina Vieira Ponte, idealizadora do Projeto Mulheres Inspiradoras; e a médica Beatriz Bohrer de Amaral, coordenadora do projeto Mulher e Saúde.

Revolução quântica

Gabriela foi indicada por ter desenvolvido uma pesquisa inovadora, que capta fotografias através da reprodução de pequenos feixes de partículas e possibilita a construção de uma imagem invisível a olho nu. O experimento teve ampla repercussão em 2014, durante sua passagem pelo Instituto de Ótica Quântica e Informação Quântica de Viena, na Áustria. Ela foi selecionada em 2012 pela Academia Austríaca de Ciências para participar do VCQ Fellowship, numa concorrida competição internacional.

Atualmente, Gabriela cursa o segundo pós-doutorado, no Instituto Internacional de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte  (UFRN), onde pesquisa informação e causalidade quânticas. “O processo de causa e efeito é básico em ciências naturais. Precisamos disto para fazer modelagens de Física, pois nos ajuda a entender o fenômeno. Por outro lado, descobrimos que este tipo de modelagem causal ajuda muito em problemas de informação e computação quântica. Podemos aplicar para entender se uma criptografia quântica será segura, se um algoritmo quântico, para funcionar futuramente num computador quântico, será rápido e eficiente”, ilustra.

A cientista explica que uma das diferenças entre um “computador clássico” e um computador quântico é a natureza dos circuitos. Enquanto o primeiro trabalha com fluxo de elétrons, o segundo pode utilizar fótons, por exemplo. “Será uma revolução, do computador clássico para o computador quântico. O número de problemas que conseguiremos resolver, tanto na própria ciência como na economia, faremos muito mais rápido e muito melhor”, prevê.

Mulheres e ciências

Para além dos laboratórios e das salas de aula, Gabriela está envolvida no projeto Sementinhas da Ciência [assista ao vídeo acima], coordenado por Laura Bohórquez, também professora da UFRN. A iniciativa promove oficinas lúdicas de física e química para crianças de seis a oito anos de idade, estudantes de escolas públicas de Natal. “A coisa mais importante desse trabalho é que elas aprendem os experimentos e depois ensinam aos meninos. Este é o momento mágico, em que elas elas têm voz”, diz.

Na avaliação da pesquisadora, há uma tendência de silenciamento nas ciências naturais, de fazer o(a) cientista desaparecer. “Precisamos não só fazer trabalhos que serão publicados na Nature; mas que sejamos escutadas”, enfatiza. Ela considera importante o fortalecimento do discurso sobre mulheres nas ciências, mas defende que é preciso avançar, de modo a ampliar a questão da representação, que ainda estaria focada na conquista da paridade numérica em relação aos homens.

DisparidadeSegundo o Instituto de Estatísticas da Unesco (UIS), menos de 30% dos pesquisadores em todo o mundo são mulheres. Privilégios

“Estamos tentando criar para nós, ainda, este momento de ter voz dentro das ciências. Isso não está contido nos dados numéricos de mulheres na ciência. As que têm são silenciadas ou têm que se transvestir de homens. E as que estão ali já são mulheres extremamente privilegiadas”.

Filha de professores da UFMG (Mauro Borges Lemos, da Faculdade de Ciências Econômicas e Sandhi Barreto, da Faculdade de Medicina) ela enumera seus próprios privilégios: uma mulher branca, de classe média, que estudou em escolas públicas de Londres, enquanto o pai e a mãe faziam doutorado, e em escolas privadas tradicionais de Belo Horizonte, após o retorno ao Brasil.

“Eu acho que são ciências por mulheres: ciências no plural, por mulheres no plural, também. Esta ideia do coletivo tem que entrar. Não mulher na ciência, como se a ciência fosse algo fixo e a gente precisasse se encaixar”.

A mudança, segundo ela, passa pelo próprio fazer científico. “As metodologias científicas, dentro das ciências naturais, muitas vezes estão presas a metodologias masculinas, desenvolvidas por homens há 400, 500 anos, que as ciências humanas já estão questionando há muito tempo”, compara.

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Categories: Pesquisa

Conheça a tanatopraxia, técnica de conservação de cadáveres

Tue, 01/22/2019 - 07:00

Já ouviu falar em tanatopraxia? Possivelmente, não.

Além de ser um nome difícil, a palavra está relacionada à morte, um tema que ainda é tabu em muitas culturas, inclusive no Brasil.

Mas mesmo não conhecendo a palavra, talvez você conheça a prática.

A tanatopraxia é a conservação de cadáveres, realizada em casas funerárias que preparam os corpos antes de velórios e enterros.

Ela ocupa nosso imaginário a partir de referências de filmes, séries e programas televisivos.

A série “A sete palmos” (foto abaixo), produzida pelo canal HBO, por exemplo, apresentou a rotina de uma família que administrava uma funerária, em Los Angeles.

E quem se lembra do filme “Meu primeiro amor”? Pois é, nele, o pai de Vada, Harry Sultenfuss, era um agente funerário, e a personagem de Jamie Lee Curtis, Shelly Devoto, era responsável pela necromaquiagem.

Na série “A sete palmos”, a história se desenrola em torno da rotina da funerária da família. Imagem: Reprodução HBO

A tanatopraxia exige cuidados e técnicas que são quase cirúrgicas.

Para saber mais sobre esta área de atuação, conversamos com José Eustáquio Pereira Barbosa, Técnico em Anatomia e Necropsia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Ele também é formado em Enfermagem e já trabalhou como embalsamador em funerárias.

Embalsamamento versus tanatopraxia

José Eustáquio nos explicou que há ligeiras diferenças entre as técnicas de embalsamamento e a tanatopraxia:

  • Embalsar: conserva o cadáver por um período maior, principalmente quando o corpo vai ser transladado por longas distâncias.
  • Tanatopraxia: conserva o corpo por um período mais curto, entre 24 e 48 horas. As técnicas incluem cuidados com a estética do cadáver, mas também com a saúde pública durante o velório, para evitar disseminação de doenças.

A necromaquiagem, por sua vez, contempla suturas para fechar boca e olhos, restaurar partes do corpo que ficam visíveis no velório, caso seja necessário, e ornamentar o caixão com flores.

“A tanatopraxia paralisa temporariamente a decomposição do cadáver e dá segurança para momentos de despedida dos familiares e amigos”, explica Eustáquio.

Mercado de trabalho

O mercado para quem quer atuar com tanatopraxia é bastante concorrido, e exige profissionais qualificados.

Principalmente no interior do Estado, há mais opções de trabalho.

“Nas cidades pequenas, muitas funerárias passam de pai para filho, mas nem todos buscam qualificação conforme as exigências da lei”, explica José Eustáquio.

Pensando na formação de profissionais qualificados para atuarem nesta função, a Faculdade de Medicina da UFMG oferece um curso de capacitação profissional em tanatopraxia, o único ofertado por universidade federal de Minas Gerais.

“Recebemos alunos de todo lugar, donos de funerária do interior, pessoas com preocupação em se qualificar para atuar na área”, conta José. O curso está com inscrições abertas até 1º de fevereiro.

Durante a formação, os interessados aprendem sobre anatomia, técnicas de conservação, embalsamento e necromaquiagem.

Um diferencial são os ensinamentos teóricos, alinhados às aulas práticas.

“Estamos em uma Universidade e estamos alinhados às pesquisas científicas da área. O corpo docente inclui médico legista, fisioterapeuta e técnicos”, detalha Eustáquio.

Como é o curso?

Temas como tanatologia forense, ou seja, o estudo de fenômenos transformativos do cadáver, são contemplados no curso intensivo, bem como questões relacionadas ao fenômeno do luto e técnicas de necropsia.

“Não ensinamos a fazer necrópsia, pois esta não é uma função das casas funerárias, mas preparamos os alunos para saberem conservar cadáveres que vieram a óbito tanto por causa natural, quanto por fatores externos, que passam pela necropsia”.

Na Faculdade de Medicina, os alunos colocam em prática os conhecimentos de anatomia e a fisiologia humana. Além disso, realizam aulas práticas no laboratório da funerária parceira da UFMG.

O curso também inclui visita ao Instituto Médico Legal (IML).

“São dias de estudo intensivo. Precisamos da teoria para atualizar os alunos. Eles saem com uma base muito boa. Isso é importante porque essas técnicas demandam autorização da família e saber explicar o que vai ser feito é essencial em um momento tão delicado”, defende Eustáquio, que é subcoordenador do curso.

Além de certificar o profissional, o curso é importante para a saúde pública:

“Ao paralisar a decomposição dos corpos, os profissionais evitam que moléstias sejam disseminadas”, destaca.

O curso pode ser realizado por qualquer pessoa maior de 18 anos com ensino fundamental completo.

Agentes funerários e tanatopraxistas também podem se qualificar.

As aulas também são voltadas para estudantes da área da Saúde que queriam atuar com conservação de cadáveres para estudo.

Para mais informações sobre o curso de tanatopraxia, clique aqui.

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Categories: Pesquisa

Pesquisa analisa gravidez e maternidade em fronteira agrícola

Mon, 01/21/2019 - 10:08

“Ela começou a entrar em trabalho de parto de madrugada e, como não havia transporte, ela e o marido tiveram que ir a pé até a sede, onde havia uma pequena infraestrutura de serviços, em uma caminhada de cerca de 5 horas debaixo de chuva e com as dores do parto”.

Essa é apenas uma das histórias ouvidas pela pesquisadora Juliana Vasconcelos de Souza Barros durante a construção do trabalho “Estratégias reprodutivas e evolução da fronteira agrícola: um estudo qualitativo para Machadinho d’Oeste, Rondônia”, tese defendida em 2017 e vencedora do Prêmio Capes de Tese 2018, na categoria Demografia. Ela realizou 60 entrevistas em profundidade com mulheres para entender mudanças sobre intenções reprodutivas e uso de métodos contraceptivos. Conheceu também relatos sobre a precariedade da infraestrutura, que torna a missão de ter filho muito difícil.

O comportamento feminino em relação à maternidade varia conforme as mudanças nos serviços de saúde sexual e reprodutiva. Há influências das condições socioeconômicas individuais que impactam as decisões sobre número de filhos e a forma como as mulheres previnem a gravidez.

Não seria possível mapear essas dinâmicas sociais sem estudos específicos, como o trabalho de Juliana Vasconcelos. A cientista comparou duas diferentes gerações de mulheres ao longo do processo de abertura, desenvolvimento e consolidação da fronteira agrícola de Machadinho d’Oeste, no Norte do Brasil.

Existem teorias que analisam a relação entre uso da terra e fecundidade, de modo que a decisão de ter ou não (mais) filhos dependeria do tipo de uso da terra (cultivo anuais ou perenes, pecuária), da posse e tamanho da propriedade e das pressões demográficas e econômicas.

No entanto, a pesquisa de Juliana Vasconcelos mostra que não há relação direta entre uso da terra e número de filhos, pelo menos no grupo estudado. A tese apontou outros fatores determinantes para o comportamento reprodutivo, que parecem não corroborar totalmente as proposições de uma única teoria.

Cidade de Machadinho d’Oeste, área urbana. Foto: Arquivos da pesquisadora

Comportamento reprodutivo e contraceptivo

O comportamento reprodutivo é a forma como as mulheres têm filhos. É a decisão delas (consciente ou não) sobre o número ideal de crianças. Ademais, é a maneira de implementarem suas preferências e intenções sobre o tamanho da família que terão.

De acordo com Juliana Vasconcelos, o comportamento está ligado ao uso de métodos contraceptivos para alcançar as preferências reprodutivas. Tem a ver com o fato de usarem ou não algum método para ter o número de filhos desejado, se elas conhecem a diversidade de métodos disponíveis e se podem escolher o que julgam ser o melhor. “Assim, comportamento reprodutivo e contraceptivo estão diretamente relacionados”, afirma.

A pesquisadora iniciou a tese com a hipótese de que distintas condições socioeconômicas que os diferentes estágios de evolução da fronteira oferecem fazem com que a decisão da mulher sobre o número de filhos. Também acreditava que a forma de evitá-los fosse diferente nas fases iniciais e nas mais avançadas da fronteira. Por isso, escolheu a cidade de Machadinho.

O Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), da UFMG, realiza pesquisas no município desde a década de 1980. Juliana Vasconcelos faz parte da equipe que acompanha mudanças ambientais, no uso da terra, na carga de doenças, entre outras dimensões. “Assim, associei minha pesquisa a outros dados sobre a região, contextualizando melhor meus dados”, explica.

Para a pesquisadora, a experiência em campo em Machadinho d’Oeste foi bastante enriquecedora, tanto do ponto de vista profissional como pessoal.

“Conhecer a realidade do público pesquisado, a forma como vivem e interagem com o contexto que estão inseridos foi essencial para as análises que realizei, entendendo na prática o que li na referência teórica. Foi uma experiência de quase um mês vivendo em Machadinho, conversando com os moradores, conhecendo a infraestrutura da cidade, escutando histórias recentes e passadas e, principalmente, entrevistando as mulheres que participaram da minha pesquisa”.

Cidade de Machadinho d’Oeste, área rural. Foto: Arquivos da pesquisadora

Perfis: duas gerações de mulheres

Conforme a pesquisa, as mulheres dos estágios iniciais chegaram no momento de abertura da fronteira, ou seja, quando começaram a conceder as terras na Região Amazônica. Vieram de outros estados, sobretudo da Região Sul, e sempre moraram em sítios e áreas rurais.

“A experiência em áreas urbanas veio com a expulsão do campo, devido a modernização da produção agrícola, mas muitas famílias não se adaptaram e preferiram arriscar a ida para a Machadinho, mesmo sem saber ao certo o que encontrariam”, detalha Juliana Vasconcelos.

O perfil é de mulheres com baixa escolaridade, que casaram e foram mães muito novas e começaram a utilizar métodos contraceptivos tardiamente. Grande parte teve mais filhos que desejavam por falta de conhecimento e acesso a métodos, optando muitas vezes pela laqueadura como forma de evitar ter ainda mais filhos.

Já as mulheres dos estágios mais avançados nasceram ou chegaram ainda crianças à fronteira. “Muitas não trabalham em atividades agrícolas. São mais escolarizadas, se casam e têm filhos jovens. Tem um menor número de crianças, mais conhecimento e acesso a métodos contraceptivos. Também realizam a laqueadura como forma de não engravidar, implementando esse método no momento em que atingem o número desejado de filhos, ao contrário do outro perfil de mulheres estudado”, compara a pesquisadora.

O rumo das histórias

Segundo Juliana Vasconcelos, as entrevistas realizadas parecem não corroborar totalmente as proposições de uma única teoria sobre relação entre uso da terra e fecundidade. As mulheres dos dois grupos entrevistados não declararam explicitamente ter tido filhos para ajudar na terra, nem acreditam que a geração de suas mães e avós tenham planejado sua fecundidade com essa intenção. .

“Assim, a relação entre produção e reprodução parece ser, para o contexto e para o grupo estudado, espúria, de modo que a disponibilidade de instituições e serviços, principalmente de saúde sexual e reprodutiva, o uso de contraceptivos, os valores pessoais e as condições econômicas estão intermediando essa relação”, conclui.

Para alcançar essas considerações, a pesquisadora presenciou a força de cada relato, principalmente sobre precariedade da infraestrutura para ter filhos. As mulheres que chegaram na fase inicial da fronteira, ajudaram a desmatar, vencer a floresta e plantar para sobrevivência. “A maioria das famílias não tinham condições financeiras para tal. Além disso, a malária era recorrente, houve casos de pessoas tiveram a doença mais de 50 vezes, muitos relatos de morte decorrente dela também”, conta Juliana Vasconcelos.

As mulheres não conseguiam realizar o pré-natal de maneira adequada e momento do parto era difícil, por conta da ausência de hospitais/médicos, energia elétrica e até de estradas e transporte.

Foto: Arquivos da pesquisadora

Três perguntas para a pesquisadora

Juliana Vasconcelos é bacharel, mestre e doutora pela UFMG. Tem uma trajetória de pesquisa é marcada pelos estudos na área de saúde sexual e reprodutiva feminina, nupcialidade e fecundidade – como acesso a serviços de saúde da mulher, planejamento da fecundidade e intenções reprodutivas. Os estudos dela transitam pelas diversas temáticas que área possui e se apoiando em análises micro e macro e de nível regional, nacional e internacional.

MFC: O que te motivou a estudar o tema?

Juliana Vasconcelos: o interesse que marca minha trajetória acadêmica de estudar temáticas relacionadas à saúde sexual e reprodutiva feminina. Entender como as mulheres decidem (de forma racional ou não) sobre número de filhos e se elas conseguem implementar essa preferência.

MFC: O que é ser cientista na área de Demografia?

Juliana Vasconcelos: o demógrafo estuda as mudanças nos componentes da dinâmica populacional, a saber, mortalidade, fecundidade e migração. Essas são as variáveis responsáveis pelo crescimento da população e determinam se essa mudança ocorre em maior ou menor intensidade/velocidade.

MFC: Quais contribuições sua tese deixa para essa área da ciência?

Juliana Vasconcelos: os resultados encontrados são um relevante subsídio para a implementação tanto de políticas de desenvolvimento regional como de saúde sexual e reprodutiva, igualdade de gênero e desenvolvimento sustentável para a fronteira. Em um cenário mundial em que as mulheres têm tido cada vez menos filhos, estudar regiões onde a fecundidade demorou mais a cair ou ainda se mantém relativamente alta, é importante entender o contexto, as motivações e os fatores associados a ela.

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Categories: Pesquisa

Plantio do grão-de-bico no Norte de Minas

Fri, 01/18/2019 - 18:25

A produtividade do grão-de-bico no semiárido do Norte de Minas Gerais é quase cinco vezes maior que a média mundial. É o que mostrou uma pesquisa conduzida no Instituto de Ciências Agrárias (ICA) da UFMG, pelo professor Cândido Alves da Costa. “A produtividade média mundial é de aproximadamente 1.200 kg por hectare. Nos nossos ensaios, chegamos a 5.200 kg por hectare”, conta o pesquisador.

Confira, no Ondas da Ciência:

Mercado para o grão-de-bico

Rico em fibras e proteínas, o grão-de-bico vem ganhando espaço no mercado nacional. Hoje, o brasileiro consome cerca de 8 mil toneladas da leguminosa por ano. Apesar disso, é uma cultura nova no agronegócio brasileiro. Os primeiros plantios comerciais foram feitos em 2016, em Goiás. Hoje, a leguminosa é cultivada também no Distrito Federal, no Mato Grosso, em Minas Gerais e na Bahia.

A demanda por informações técnico-cientificas para a cultura do grão-de-bico, aliada à necessidade de diversificação das culturas no Norte de Minas Gerais, incentivou a pesquisa desenvolvida no ICA UFMG. “A tendência é aumentar cada vez mais a produção, pois é uma commoditie, além do consumo interno que é crescente. Os grãos possuem ainda alto valor nutritivo e são bastante valorizados”, afirma Cândido Alves da Costa.

Segundo o pesquisador, há uma grande demanda pelo grão de bico em outros países. “Então é um produto que rapidamente entra na via de exportação. Comparativamente à cultura do feijão, o grão-de-bico possui um menor preço de produção e quase o dobro do preço de prateleira”, diz.

Adaptação no Norte de Minas Gerais

O primeiro passo da pesquisa foi estabelecer a melhor época de plantio da leguminosa na região. Para isso, foram feitos ensaios em Montes Claros, Janaúba e Januária, em épocas diferentes e com sementes de alto vigor. Os pesquisadores analisaram o desenvolvimento da cultura, da semeadura à colheita. Os resultados foram melhores para o plantio em períodos de temperaturas amenas com um pouco de umidade, com sua maturação e colheita no inverno, durante a seca.

A agricultura no Norte de Minas Gerais é basicamente irrigada, especialmente no período do inverno. Assim, a cultura do grão-de-bico surge como interessante alternativa ao produtor, por não demandar muita água no seu ciclo. “Há de se ressaltar ainda as possibilidades de transformação do grão-de-bico na indústria alimentícia. Por exemplo, enlatados, embalados, pré-cozidos, petiscos, farinhas e pastas, entre outros. Isso que abriria o leque de possibilidades de comercialização para o produtor”, lembra Cândido da Costa.

Características do grão-de-bico
  • Planta leguminosa pertencente ao grupo Pulses, que engloba as sementes secas de plantas leguminosas como ervilha, lentilha e feijão;
  • Originário do Oriente Médio, mais precisamente das regiões da Síria e da Turquia;
  • Planta de clima frio e seco, mas que se adapta em em regiões de clima tropical, especialmente no o inverno;
  • Apresenta uma cultura rústica, exigindo menor quantidade de água que outras leguminosas, com ocorrência de poucas pragas e doenças;
  • O ciclo da cultura é de aproximadamente 120 dias.

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Categories: Pesquisa

Arqueologia do lixo: como o modo de vida do belo-horizontino mudou em 40 anos

Thu, 01/17/2019 - 20:59

Pesquisadores e arqueólogos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estão unidos no estudo da doutoranda Vanúzia Amaral para fazer a interpretação dos costumes e modo de vida dos moradores de Belo Horizonte a partir do lixo acumulado há mais de 40 anos. Eles pretendem analisar as bacias do antigo aterro sanitário da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), localizado na rodovia BR-040, divisa com Contagem, e que esteve ativo entre 1975 e 2007.

Antes de chegarem às escavações, os pesquisadores percorreram caminhos e “embrenharam” em matas do Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, no Bairro Horto, na capital, onde descobriram, de forma inusitada (por funcionários da jardinagem), que a cidade usava o local como um depósito de lixo entre as décadas de 1930 e 1960.

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Lá, em uma clareira, os arqueólogos encontraram diversos tipos de vidros, louças e cerâmicas datadas das primeiras décadas de Belo Horizonte. Os materiais tinham diversas espessuras, mas o que despertou a curiosidade dos pesquisadores era o fato de a grande maioria das louças serem brancas e algumas terem origem no Rio de Janeiro.

Os vidros foram encontrados em todos formatos e tamanhos e serviam para conter materiais e medicamentos que hoje usam plástico como recipiente. Alguns utensílios, como mamadeiras, tinteiros, pentes de bolso, frascos de leite de magnésio, água oxigenada e seringas também foram achados em vidro.

Além disso, algumas peças de cerâmica evidenciavam atores sociais pouco registrados na história, que são crianças. Segundo Maria Jacqueline Rodet, a cor branca das louças demonstrava o período higienista em que a cidade foi fundada.

“Diferente de Ouro Preto, Belo Horizonte pretendia ser limpa, organizada e planejada. Como o branco é uma cor padrão para limpeza, na qual se pode detectar sujeiras de longe, foi muito usado à época”, diz Rodet.

O comportamento também se assemelhava com o de povos do interior de Minas Gerais, que usavam penicos, por exemplo. Destaca-se também as garrafas de bebidas, como Coca-Cola, a qual passou a ser presente nas décadas de 1950 e 1960.

Contudo, estes pequenos depósitos espalhados pela capital, como o Parque Jacques Costeau (Região Oeste), o Gameleira, a região da Mata da Baleia e o Horto foram desativados após a tragédia ocorrida no “Lixão do Morro das Pedras”, entre 1972 e 1973, em que várias pessoas morreram.

A criação da SLU e o aterro da rodovia BR-040

A partir da necessidade de centralizar o descarte de resíduos longe da cidade, a Prefeitura criou a SLU em 1974 e o aterro sanitário da BR-040 no local da antiga Fazenda Coqueiros. Ali, nos primeiros anos, Belo Horizonte despejava cerca de 250 toneladas por dia.

Aterro sanitário da BR-040 – Foto William Araújo – Minas Faz Ciência

De acordo com Vanúzia Amaral, até o momento da desativação deste aterro unificado, em 2007, eram recebidas, apenas de lixo doméstico, 2000 toneladas de resíduos. Entretanto, deve-se considerar a proporção de cobertura da SLU à época, que era bem menor que a de hoje – a qual se aproxima de 98%.

A tese de doutorado de Vanúzia aborda os anos entre 1975 e 2007 – período de funcionamento do aterro. Na primeira etapa do estudo, os pesquisadores escavaram, em abril de 2018, a bacia da década compreendida entre 1975 e 1985 e retiraram 1,5 tonelada de materiais.

As amostras foram lavadas, secadas, separadas por tipo e analisadas. Em resultados preliminares, Vanúzia destaca que o hábito do belo-horizontino mudou muito rapidamente entre o fim da década de 1960 e o início da década de 1970.

O plástico, que era raro nos outros pequenos depósitos espalhados pela cidade, agora era predominante. Embalagens de todos tipos foram encontradas e a quantidade de marcas apontava padrões de consumo.

Leites e margarinas apresentaram poucas marcas nas amostras. Assim como o vidro foi encontrado em espessuras menores do que no depósito do Bairro Horto, os frascos agora eram menos.

Jornal encontrado na primeira escavação – Fonte Vanúzia Amaral

Os metais, apesar da indústria de base já estar estabelecida no Brasil, eram ferrosos e não foram encontrados alumínios e nem recipientes de aço. As latas de cerveja, óleo e outros produtos eram feitas de ferro.

Todavia, o que intrigou os pesquisadores foi a durabilidade de materiais, considerados até então, de rápida degradação. Jornais, medicamentos e alimentos, como um bife, foram achados nas amostras, o que, segundo Vanúzia, acende o alerta para a forma como consumimos e descartamos o que consideramos inofensivo para a natureza.

São previstas três novas escavações, que servirão para estudarem as décadas de 1980, 1920 e 2000. Desde 2007, o aterro da rodovia BR-040 está desativado e tem, atualmente, 12 bairros no entorno. O lixo da cidade de Belo Horizonte é destinado, hoje, ao aterro de Macaúbas, em Sabará.

 

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Categories: Pesquisa

Pesquisadores de Minas estudam transmissão de energia sem fio

Wed, 01/16/2019 - 10:13

Dois grandes desejos: carregar o celular sem precisar de fios ou conexões e receber internet em alta velocidade no mesmo cabo da energia elétrica. Nenhum deles se tornou ainda realidade, mas são demandas que instigam pesquisadores em busca de soluções tecnológicas e inteligentes. Há pesquisas desenvolvidas nessas duas áreas que já contam com testes em pequena escala e têm expectativa de chegar ao grande público.

Cientistas do Mestrado em Engenharia Elétrica Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG) desenvolvem um método para reaproveitamento de energia eletromagnética utilizando rectennas (dispositivo composto por uma antena e um circuito retificador). A ideia é criar uma tecnologia para a transmissão de energia sem fio, reaproveitando a energia eletromagnética já existente no ambiente.

Trata-se da concepção de um Sistema para Reaproveitamento de Energia Eletromagnética (SREE), usando rectennas. O projeto dá continuidade a um estudo já em desenvolvimento.  Em fase anterior, os pesquisadores conseguiram realizar o carregamento de uma bateria de celular, alimentar sensores de presença e
temperatura, além de um relógio digital.

Os próximos passos são o desenvolvimento de modelagem matemática da rectenna, realizar projeto, simulação e construção das antenas e circuitos. Ademais, serão realizados testes, verificando a funcionalidade, eficiência e aplicabilidade do sistema desenvolvido.

Caso o carregamento de celular sem fios se torne realidade, haverá além da facilidade para o consumidor, uma redução de problemas associados ao descarte de baterias e as perdas elétricas devidas ao uso de fios e conexões.

Relembrando…

A revista Minas Faz Ciência mostrou um projeto de rede inteligente da Cemig que visa potencializar o uso dados redes instaladas da empresa, para experimentar transmissão simultânea de energia elétrica e comunicação de dados em banda larga. Sim: trata-se da possibilidade de, no mesmo cabeamento, transportar internet e luz à casa das pessoas.

Para isso, seriam usados cabos condutores especialmente integrados, com fibras ópticas em seu núcleo. Por meio de um projeto-piloto, a rede sinérgica já funciona em escala real na UniverCemig, em Sete Lagoas, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Saiba mais:

Com informações da Assessoria de Imprensa do CEFET-MG

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Categories: Pesquisa

Pesquisadores mineiros defendem investimentos públicos em infraestrutura

Tue, 01/15/2019 - 07:00

A deficiência de investimentos em infraestrutura constitui um dos maiores gargalos ao crescimento econômico sustentado e ao aumento da produtividade no Brasil.

Os pesquisadores Victor Medeiros e Rafael Saulo Marques Ribeiro, da Faculdade de Ciências Econômicas (Face) da UFMG, afirmam isso em ensaio premiado em concurso promovido pelo jornal Valor Econômico e pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), organismo da Organização das Nações Unidas (ONU) com sede no Chile.

Victor Medeiros é graduado em Economia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e cursa mestrado no Cedeplar/UFMG. Professor da Face, Rafael Ribeiro é formado pela UFMG, tendo mestrado na Unicamp e doutorado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Clique aqui para ler o documento na íntegra.

Os autores afirmam que a existência de uma fonte de financiamento pública torna-se crucial para a retomada do crescimento da renda, do emprego e da redução das desigualdades sociais.

Tal fonte, argumentam, deve ser capaz de “atuar de maneira anticíclica, garantindo o financiamento de projetos de infraestrutura de importância estratégica para o país em momentos de recessão econômica e escassez de financiamento privado”.

Para eles, as carências em termos da oferta, qualidade e acessibilidade dos transportes, energia e telecomunicações advêm, dentre outros fatores, de longos anos de baixos investimentos nos setores envolvidos.

No ensaio, a dupla cita dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), segundo os quais, no ano de 2016, “com a crise, os investimentos em infraestrutura no Brasil chegaram à marca próxima de 1,7% do PIB, enquanto no ano de 2017 ficaram em torno de 1,5% do PIB, um dos menores níveis de investimento em infraestrutura da história do país”.

Ao lembrar que esse panorama de escassez nem sempre foi a realidade ao longo da história no Brasil, os autores comentam que o período 1930-1979 foi caracterizado por elevados níveis de investimentos em infraestrutura no país (5,42% do PIB), com extensiva participação do setor público.

Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

Crescimento com igualdade

Com o tema O futuro do crescimento com igualdade no Brasil, o concurso de ensaios foi lançado em uma parceria entre o jornal Valor Econômico e a Cepal, por ocasião do aniversário de 70 anos da entidade, fundada em 1948.

Segundo o jornal,

Medeiros e Ribeiro enfatizam a relevância dos investimentos em infraestrutura para reduzir a desigualdade de renda e a pobreza: “A expansão de serviços básicos de infraestrutura traria melhores perspectivas de emprego e salário via seu efeito positivo sobre a produtividade do trabalho em todos os setores da economia”.

Puderam ser submetidos “textos originais com uma contribuição ao debate brasileiro sobre o futuro do crescimento econômico, acompanhado de redução de desigualdades”, como anunciou o jornal em julho do ano passado.

Entre os 31 ensaios inscritos, dois receberam o prêmio principal: o dos pesquisadores da UFMG e o texto Igualdade, justiça e crescimento no Brasil, de Marcelo Curado e Virginia Laura Fernández, professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Confira aqui a lista dos premiados. Via.

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Traumas geram sofrimento e crescimento pessoal para bombeiros

Mon, 01/14/2019 - 10:36

Não é muito difícil imaginar que a natureza do trabalho dos bombeiros gera estresse e, muitas vezes, traumas a esses militares. Eles lidam com pessoas gravemente feridas, mortas, em situação de dor e desespero. Por isso, a ciência já concluiu que todos esses elementos são fatores risco para a saúde mental deles. Além disso, enfrentam uma organização de trabalho com relações e pressões muito complexas, o que também os coloca em teste.

No entanto, você já parou para pensar o quanto o contato com essas cenas chocantes podem causar mudanças significativas na vida desses militares? Podem fazê-los repensar valores, mudar a forma de encerar o mundo e a percepção de si mesmos? Este é um dos temas de pesquisa do capitão Eduardo Lima, psicólogo do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais e pesquisador no Núcleo de Estudos Saúde e Trabalho (NEST) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele trabalha com uma equipe dentro da corporação de da universidade.

O capitão estuda há mais de 10 anos formas de adoecimento na corporação, saúde mental desses profissionais e, mais recentemente, o crescimento pós-traumático no setor de emergências. As pesquisas apontam que, por um lado a vivência no trabalho pode adoecer os militares – causando perda de sono e ansiedade. Por outro, os fazem mudar de vida, passando a valorizar ou dar atenção a coisas que antes não eram muito importantes, o que pode ser caracterizado como crescimento pessoal. À medida que o capitão Eduardo Lima foi estudando o tema, passou a observar o fenômeno na corporação.

“O crescimento pós-traumático é consequência da vivência de situações traumáticas de morte e risco de morte. Na literatura, os estudos cresceram na década de 1990 mostrando que esses eventos servem não só como fator de risco para o estresse pós-traumático, mas também como elemento para predispor as pessoas ao rumo que elas dão na própria vida. A mudança mais positiva foi convencionada como crescimento pós-traumático, cujo desfecho é uma alteração de filosofia de vida. Há relatos de que após ver situações de risco de morte, passa-se a valorizar a convivência com amigos e família, ou a dar valor ao que considera mais essencial e menos supérfluo. Existem também mudanças de natureza religiosa, algumas pessoas aprofundam em crenças ou dão mais importância à religião”, explica o pesquisador.

Sofrimento e crescimento

Por mais paradoxal que pareça, o estresse e o crescimento pós-traumático não são mutuamente excludentes, conforme explica o capitão Eduardo Lima. “Uma pessoa pode viver um trauma, ter sintomas de adoecimento e crescimento. Ela pode ter pesadelos, ansiedade, palpitação, sudorese, ficar sobressaltada e assustada. Ao mesmo tempo pode começar a repensar tudo, se aproximar de pessoas que tinha deixado de lado, traçar metas de vida mais significativas. A doença pode mudar os rumos no sentido de crescimento”.

Ainda de acordo com o pesquisador, o que há de mais comum entre o estresse e o crescimento pós-traumático é o efeito na visão que a pessoa tem de si e do mundo. “Quando presencia dor em um evento traumático, se depara com algo que não queria ver, não cogitava. Por isso, se força a revistar uma série de coisas. O trauma gera sofrimento e crescimento”, afirma.

Saúde mental ao longo do tempo

Um dos projetos de pesquisa realizados pelo capitão Eduardo Lima e equipe é o “Crescimento Pós-Traumático em bombeiros: coping e saúde no setor de emergências”, com fomento da FAPEMIG. Nesse caso, são usados métodos epidemiológicos com questionários de saúde aplicados a uma amostra da população de bombeiros em Minas Gerais.

Além dos inquéritos, os pesquisadores usam dados de medidas objetivas da própria instituição como, por exemplo, número de afastamentos por licença que podem indicar adoecimento. “As medidas quantificáveis nos ajudam a investigar a relação entre exposição a situações traumáticas e o desfecho disso para o profissional. São avaliados elementos do trabalho que podem influenciar a saúde, tanto no caso do estresse quanto no crescimento”, afirma o capitão Eduardo Lima.

A pesquisa tem uma metodologia longitudinal, cuja coleta e mensuração de dados se dá ao longo do tempo. Quer dizer que um mesmo militar poderá responder ao questionário mais de uma vez deixando seu autorrelato para os pesquisadores. Esse método é necessário para avaliar a exposição do bombeiro em momentos diferentes da vida profissional e entender as relações de causalidade.

“O momento A é na primeira semana de trabalho, quando entram na instituição e ainda não atenderam a nenhuma ocorrência. Eles ficam recolhidos para treinamento antes de ter contato com o dia a dia de bombeiros. Depois ,fazemos nova avaliação de dois em dois anos. São pesquisas baseadas no critério de tempo de serviço e na frequência que vivenciam situações no trabalho”, detalha o pesquisador.

“A gente vai caracterizando o perfil de exposição como, por exemplo, nível de participação em desastres naturais de dois em dois anos. Ao final de oito anos, é possível saber se a pessoa exposta a essas situações tem saúde mental pior, melhor ou não difere daquelas que não passaram por tantos eventos”.

Foto: Divulgação/CBMMG/Agência Minas

Desfecho

Os resultados da pesquisa ainda não estão prontos. O questionário aplicado tem 20 perguntas que incluem assuntos relacionados ao crescimento pós-traumático. Os militares respondem sobre forma de ver o mundo, mudanças espirituais, relações interpessoais. Os pesquisadores agora estão analisando os dados específicos dos bombeiros em Minas.

“O que se sabe é que o crescimento é muito frequente em profissionais de emergência: Samu, médicos de Pronto Atendimento, bombeiros e policiais. O desfecho é comum, segundo a literatura da área. Quanto mais trauma, mas crescimento desenvolvem”, conclui o pesquisador. No próximo mês, haverá nova etapa de colega de dados.

Pesquisa dentro e fora da universidade

O capitão Eduardo Lima destaca a importância do desenvolvimento de pesquisas fora do ambiente das universidades, uma prática que ele considera “incipiente e incomum”. “Tive trajetória dentro da universidade e sei das diferenças em pesquisar lá e numa instituição como os Bombeiros”. Ele é psicólogo formado pela UFMG e desenvolveu estudos sobre problemas neurológicos na graduação e no mestrado.

Depois disso, tomou um rumo profissional fora da universidade atuando como psicólogo por um tempo. Logo após, ingressou no Corpo de Bombeiros, quando decidiu voltar a desenvolver pesquisas, mas desta vez, com temáticas ligadas à experiência como psicólogo da instituição. Por isso, no doutorado estudou estresse pós-traumático nos bombeiros, mais especificamente, como os militares lidavam com situação de trauma e morte e também o quanto administravam os fatores de risco ligados a organização do trabalho dentro da corporação.

“A forma como o trabalho é organizado é um fator de risco. É menos evidente, mas com consequências noviças. As pressões, relações com as pessoas, autonomia e formas de reconhecimento”, explica.

Um dos questionários de pesquisa, usados no doutorado do capitão Eduardo Lima, acabou se tornando instrumento de avaliação periódica da saúde mental do Corpo de Bombeiros, denominado Programa de Saúde Ocupacional (PSO). Todos os militares passam por avaliação médica, psicológica e odontológica a cada dois anos. “Parte da minha pesquisa virou uma política pública dentro da instituição”, se orgulha. Por isso, ele considera fundamentais as pesquisas desenvolvidas também fora das universidades.

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Livro coloca Chomsky e Foucault em debate

Thu, 01/10/2019 - 08:00

Imagine reunir dois dos mais importantes pensadores do século XX, Chomsky e Foucault, para que pudessem “prosear” à vontade.

Tal encontro não apenas ocorreu, como os resultados da profícua conversa acabaram por se transformar em livro.

Para saber mais sobre tal história, voltemos, pois, ao ano de 1971, quando, a convite do filósofo holandês Fons Elders, os intelectuais Noam Chomsky e Michel Foucault postam-se, face a face, para discutir a complexa questão: “existe uma natureza humana ‘inata’ que independe de nossas experiências e influências externas?”

As respostas de ambos, estimuladas e mediadas, com sabedoria, por Elders, podem ser conferidas em Natureza humana – Justiça vs. Poder, publicado, em 2014, pela WMF Martins Fontes.

Na obra, para além do debate em torno da temática proposta, pode-se entrar em contato com elementos, princípios e ilações de tudo aquilo que viria a embasar as estruturas conceituais das teorias e do pensamento de Chomsky e Foucault.

Dentre as abordagens suscitadas durante a “prosa intelectual”, destaque para o riquíssimo “choque de paradigmas e ideias”, assim como para os “conflitos” socioculturais problematizados – da história à criatividade, da liberdade à luta política.

Leia um trecho:

Chomsky: […] Toda pessoa que se interessa pelo estudo de línguas depara com um problema empírico bem definido. Ela depara com um organismo, digamos, um organismo maduro, adulto, falante, que, de alguma forma, adquiriu uma fantástica gama de habilidades que lhe permitem, especialmente, se fazer entender, compreender o que as pessoas lhe dizem, e fazer isso de uma forma que penso, podemos chamar de altamente criativa… ou seja, muito daquilo que uma pessoa diz numa comunicação normal como os ouros é novo, muito do que se ouve é original, não tem a menor semelhança com nada que você já experimentou; não se trata, certamente, de um comportamento novo, aleatório, e sim de um comportamento que é – num sentido que é muito difícil de caracterizar – adequado às situações. E, de fato, tem muitas das características daquilo que eu acho que podemos muito bem chamar de criatividade.”

Em diálogo…

Foucault: […] É verdade que tenho certa desconfiança da noção de natureza humana. Pela seguinte razão: acredito que nem todos os conceitos e noções que uma ciência pode utilizar têm o mesmo grau de elaboração e que, em geral, eles não têm nem a mesma função nem podem ser usados da mesma forma no discurso científico. Tomemos o exemplo da biologia. Encontraremos nela conceitos que têm a função de classificar, conceitos que têm a função de diferenciar e conceitos que têm a função de analisar. Alguns deles nos possibilitam caracterizar objetos, por exemplo, o do ‘tecido’; outros, isolar elementos, como o do ‘traço hereditário’; outros, a estabelecer relações, como a do ‘reflexo’. Ao mesmo tempo, existem elementos que desempenham um papel no discurso e nas regras internas do exercício do raciocínio. Mas existem também noções ‘periféricas’, aquelas por meio das quais a prática científica se dá a conhecer, se diferencia com relação a outras práticas, delimita seu domínio de objetos e indica o que para ela é o conjunto de suas futuras tarefas. Durante determinado período, a noção de vida desempenhou, até certo ponto, esse papel na biologia.”

Ficha técnica:

Livro: Natureza humana – Justiça vs. Poder – O debate entre Chomsky e Foucault

Autor: Noam Chomsky e Michel Foucault

Editora: WMF Martins Fontes

Edição: Fons Elders

Tradução: Fernando Santos

Páginas: 86

Ano: 2014

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Teclado inteligente criado por startup mineira recebe prêmio internacional

Wed, 01/09/2019 - 08:00

Um dispositivo com 11 teclas grandes, espaçadas e coloridas que, quando combinadas, permite a formação de palavras. Essa é a premissa do Teclado Inteligente Multifuncional TiX, desenvolvido por um grupo de empreendedores formado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O teclado permite que pessoas com limitação de movimentos e de coordenação motora usem o computador com mais facilidade, garantindo maior acessibilidade a pessoas com deficiência.

Carro-chefe da startup Geraes Tecnologia Assistida, o TiX é também compatível com um sensor de piscadelas, o que permite a comunicação para indivíduos com restrições severas de movimento ou que só dispõem do movimento dos olhos. Por esses e outros motivos, a equipe que criou o dispositivo recebeu, no fim do ano passado, o prêmio Entrepreneur Hero durante a  EdTech Innovation Start-up Competition 2018, realizada em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes.

A Minas Faz Ciência conversou com Adriano Rabelo Assis, um dos criadores da tecnologia e um dos responsáveis pela Geraes Tecnologia Assistida para saber mais sobre a empresa e seus produtos. Confira:

 

Adriano Rabelo Assis, um dos criadores da tecnologia e responsáveis pela Geraes Tecnologia Assistida (Divulgação)

 

Como funciona o Teclado Inteligente Multifuncional TiX?

Ele substitui o teclado e o mouse do computador para pessoas que não têm coordenação motora fina, e, consequentemente, têm dificuldades para usar um teclado e um mouse convencionais. Ele é um painel que tem 11 botões, grandes, bem espaçados entre si e que são sensíveis ao toque. Cada botão tem uma cor e em torno desses botões há orientações de como escrever cada letra ou como operar as funções do mouse. Basicamente, cada toque em dois botões seguidos do painel TiX equivale a uma tecla do teclado convencional. Por exemplo, para escrever “a”, a pessoa deve tocar no botão azul e depois no amarelo. Para alguém que não tem coordenação fina é muito mais fácil de fazer do que tentar acertar uma letra pequena em um teclado convencional no meio de várias teclas também miúdas. Além disso, o teclado é compatível com um sensor de piscadela que desenvolvemos. Esse sensor ajuda as pessoas que têm uma deficiência ainda mais severa, aquelas que não conseguem nem encostar nem com a mão nem com os pés os botões do TiX. O sensor capta o piscar dos olhos da pessoa e faz com que ela consiga escolher quais os botões devem ser acionados.

Como e quando ele começou a ser desenvolvido?

A ideia básica por trás do TiX surgiu da monografia de um aluno da Ciências da Computação, chamado Gleison Fernandes de Faria, apresentada em 2006. Ele nasceu com paralisia cerebral e fez o curso com muita dificuldade. Durante a graduação,  ele utilizava um capacete adaptado que o ajudava a teclado convencional. Depois de algum tempo, ele se formou e apresentou essa monografia que propunha um dispositivo chamado Teclado Iconográfico Combinatório. Em 2013, conheci o Gleison e a Geraes Tecnologia Assistida começou a ajudá-lo no desenvolvimento deste protótipo. Em 2015 conseguimos lançar o produto no formato em que ele é conhecido hoje.

Como e quando surgiu Geraes Tecnologia Assistida?

A Geraes surgiu em 2009 por iniciativa de um pesquisador da UFMG, Julio Cesar de Melo, que tinha um projeto acadêmico propunha ajudar os cegos a utilizar o transporte coletivo sem precisar de ajuda. Ele me convidou, juntamente com outro aluno da UFMG, para montarmos uma empresa para transformar aquele produto e se implantar o produto na cidade. Durante os quatro primeiros anos da empresa, trabalhamos em cima deste produto. Mas, em 2013, ele acabou ficando obsoleto. Foi nesta época que começamos a trabalhar com o TiX.

Existem outros produtos e serviços que a empresa vem desenvolvendo para serem comercializados no futuro?

Em 2018, finalizamos um novo produto chamado TiX Letramento. É um programa que envolve os produtos oferecidos pela Geraes e mais um conjunto de títulos eletrônicos que cobrem todo conteúdo da Base Nacional Curricular de Ensino Fundamental para Português e Matemática. Com isso conseguimos garantir uma maior inclusão e acessibilidade para os alunos com deficiência.

Qual é a importância de ter recebido o prêmio Entrepreneur Hero?

Receber este prêmio foi importante para chancelar a reputação que viemos criando no Brasil e também para dar um pouco mais de impulso para nossa estratégia de internacionalização que começou em 2018 com a criação da Key2enable, nossa base nos EUA. Temos a intenção de explorar outros mercados, então, ter recebido o prêmio vai nos ajudar a impulsionar essa relação.

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Pesquisa avalia impacto humano em ecossistemas aquáticos

Tue, 01/08/2019 - 07:30

Janeiro é verão, tem férias escolares, tempo de praia e cachoeira. Tem gente até que pode se arriscar num banho de rio! Lugares naturais e refrescantes que são também ecossistemas aquáticos!

Você já parou para pensar no impacto da sua ação humana nesses ecossistemas?

Pesquisadores da Universidade Federal de São João del-Rei sim!

A pesquisa desenvolvida pela professora Iola Boechat, do Departamento de Geociências da UFSJ, estuda os impactos de ações humanas nas relações entre os organismos presentes em um ambiente, com foco em ecossistemas aquáticos.

Algumas dessas relações são conhecidas como interações tróficas e envolvem a interação entre organismos presas e seus consumidores.

Mas por que isso é importante?

Nas palavras da professora:

“Um fator importantíssimo na compreensão de qualquer ecossistema é como os organismos que compõem a parte biológica deste sistema interagem entre si. Como essas interações vão responder face a distúrbios como distúrbios naturais, flutuações climáticas, alterações normais nas paisagens, mas também alterações em função de atividades humanas”, conta Iola.

Na UFSJ, um dos principais campos de pesquisa da professora são os rios da região.

“A gente estuda, por exemplo, seja aqui no Rio das Mortes ou em outros riachos da região, as fontes nutricionais de diversos organismos aquáticos – o que eles comem, qual é a qualidade nutricional desse alimento, se isso flutua ao longo do tempo, se eles mudam essas fontes nutricionais quando acontece alguma perturbação no ambiente”, explica.

Como é feita a pesquisa?

Em alguns projetos, a pesquisa é feita diretamente no local, em tempo real. Já em outros, é necessário trazer os organismos para o laboratório, colocá-los em condição de cultivo e alimentá-los com eventuais presas que existam ou que poderiam vir a existir naquele sistema.

As interações tróficas em sistemas aquáticos são apenas uma das linhas da pesquisa desenvolvidas pela professora e seu grupo. Uma outra importante linha é a detecção das principais formas de impactos do uso da terra sobre o funcionamento dos ecossistemas aquáticos.

Um destes estudos revelou que, na bacia do Rio das Mortes, o maior impacto vem da urbanização.

“Embora a urbanização, em termos de porcentagem de área ocupada na bacia do Rio das Mortes, seja menor que a área agrícola, o impacto é muito maior, porque o tipo de atividade diz muito sobre o que vai acontecer dentro do sistema. Então, descarga de esgoto é uma terrível consequência da urbanização para sistemas aquáticos, e ocorre muito descarte de esgoto nos rios da região”.

Trecho do Rio no Centro Histórico de Tiradentes. Foto de Rejane Sarmento via Wikimedia

Parcerias pela ciência

Na busca por compreender impactos humanos sobre ecossistemas aquáticos, a professora desenvolve parcerias com diversas instituições e pesquisadores no Brasil e no mundo. Um dos resultados dessa cooperação internacional é o projeto “One Thousand Rivers Project” (Projeto dos Mil Rios).

“É um projeto coordenado por um pesquisador da França, mas tem pesquisadores do mundo inteiro envolvidos. Nós buscamos entender alguns processos em rios intermitentes, rios que secam em determinado período de tempo”, conclui a professora.

O projeto gerou um importante trabalho publicado em maio de 2018 pela revista Nature Geoscience.

Com informações da UFSJ.

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Genética revela data e caminho dos primeiros ocupantes humanos da América

Mon, 01/07/2019 - 07:00

Estudos em genética têm ajudado pesquisadores a definir a datação e cenário da ocupação pré-colombiana do continente americano. Recentemente, foi publicado na revista Current Biology, a pesquisa de cientistas do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que estima a data-limite da separação entre nativos americanos e siberianos em 19.500 anos.

É crescente o consenso entre pesquisadores de que a América foi um dos últimos continentes habitados por seres humanos, entre 15 e 25 mil anos atrás. O estudo dos pesquisadores da UFMG traz mais precisão para essas datas, por meio da análise genômica do cromossomo Y, conhecido por ser determinante do sexo masculino em humanos. O artigo é assinado pelo mestrando Thomaz Pinotti e o orientador, professor Fabrício Santos, além de colaboradores do Reino Unido, Alemanha, Peru, Equador e Bolívia.

O objetivo da investigação foi entender melhor o caminho dos primeiros ocupantes humanos da América desde a Ásia. Há evidências de que essa população não veio diretamente, mas teria permanecido na Beríngia (ao redor do atual Estreito de Bering), uma “ponte de terra” que existiu entre o nordeste da Ásia e o Alasca.

Como essa porção de terra está hoje debaixo d’água, há poucos vestígios arqueológicos para calibrar o tempo de ocupação. De acordo com os pesquisadores, há debates no meio científico sobre quanto tempo essa população ficou ali, até se deslocar para as Américas. Os dados existentes não ofereciam um período preciso, mas com a análise do cromossomo Y, foi possível definir o limite de 4.600 anos.

Análises

Os cientistas avaliaram as sequências de 222 cromossomos Y, de DNA antigo e moderno, da literatura e 24 sequências inéditas de cromossomo Y. Os dados foram analisados por Thomaz Pinotti em parceria com o Wellcome Sanger Institute de Cambridge, um dos principais centros genômicos da Europa. O grupo usou genomas completos de DNA antigo extraído de esqueletos escavados em diversos sítios arqueológicos da América do Sul e do Norte.

As sequências inéditas permitiram a geração de dados de pesquisa mais precisos, que possibilitou aos pesquisadores propor um modelo muito detalhado de ocupação das Américas. Esse modelo envolve uma ocupação rápida até a América do Sul, acompanhada de uma estruturação geográfica surpreendente.

Os dados do cromossomo Y geram os modelos, dispensando análises de virtuais em cenários computacionais e testes estatísticos. O pesquisador faz a interpretação desses dados e compara com arqueologia, climatologia, antropologia física e ecologia humana.

Por que o cromossomo Y?

O foco no cromossomo Y se justifica por algumas características peculiares, como a exclusividade em homens e o fato de ser transmitido de pai para filho. Segundo os pesquisadores, ele sofre menos interferências ao longo do tempo, por isso, é a parte do genoma humano mais sensível a mudanças demográficas e eventos migratórios, além de ser a que melhor se correlaciona com fatores culturais e linguísticos.

Há várias formas de calcular datação e cenário da ocupação de populações antigas, lançando mão de diferentes linhas de evidências, como as utilizadas pelos arqueólogos, linguistas ou até mesmo pela genética. Mas foi a precisão fornecida pelo cromossomo Y que gerou maior exatidão. Comparando-se cromossomos Y americanos e siberianos, estimou-se a data da última separação.

Distribuição Geográfica de Amostras. Imagem: reprodução do artigo Y Chromosome Sequences Reveal a Short Beringian
Standstill, Rapid Expansion, and early Population
structure of Native American Founders

Modelo de ocupação das Américas

Outra importante contribuição da pesquisa foi a apresentação de um modelo de ocupação das Américas pelos primeiros exploradores, com a identificação das rotas de entrada, da rápida expansão populacional e povoamento estruturado regionalmente na América do Sul.

Segundo os especialistas, no período Pleistoceno, quando o nível do mar na Beríngia estava 120 metros mais baixo, as pessoas e animais, como mamutes, mastodontes e bisões, transitavam de um lado para o outro.

Com o derretimento das geleiras e a inundação dessa ponte de terra, a população foi dividida entre os dois continentes, originando, de um lado, todas as populações indígenas das Américas, mas também deixando um rastro genético na Ásia em forma de algumas linhagens muito raras.

Os cientistas conseguiram, por exemplo, traçar linhagens de várias populações brasileiras conhecidas como Xavantes, Maxacalis, Paresís, Kayapós.

Desse povoamento inicial, os pesquisadores traçaram a ocupação até a América do Sul, propondo o modelo que engloba duas rotas anacrônicas, uma inicial e mais antiga pela costa do Pacífico e outra com o derretimento das geleiras no final do Pleistoceno.

Registros arqueológicos dão indícios de que esta rota costeira facilitou a chegada dos primeiros exploradores, guiados pela fartura de alimentos oferecida pelo Oceano Pacífico. Há estudos que indicam que esse deslocamento levou apenas dois mil anos, e os sítios arqueológicos de 14 mil anos mostram que a ocupação e a expansão foram tão rápidas que deixaram rastros genéticos na principal linhagem que se expandiu para mais de 85% dos povos nativos indígenas.

Essa rápida expansão populacional quase sem precedentes na história humana, segundo os pesquisadores, é demonstrada pelo processo da ocupação americana, marcada por grande sucesso dos novos habitantes em sobreviver e deixar descendentes.

De acordo com eles, as populações indígenas têm raízes muito profundas nos lugares onde estão localizadas na América do Sul, onde é possível visualizar que os dados genéticos apresentam grande estruturação geográfica, isto é, parentes próximos tendem a estar mais próximos geograficamente.

O artigo “Y Chromosome Sequences Reveal a Short Beringian Standstill, Rapid Expansion, and Early Population Structure of Native American Founders” publicado na Current Biology confirma e aumenta a resolução de um modelo de ocupação das Américas publicado recentemente pelo mesmo grupo de cientistas da UFMG na revista Science.

Com informações da Assessoria de Imprensa da UFMG.

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Pesquisa contempla história das praças de Minas Gerais

Fri, 01/04/2019 - 08:00

As praças de Minas Gerais são um símbolo do Estado, um espaço público central à vida em diversas localidades, formatada por afetos, memórias e relações capazes de impactar a vida dos moradores e fomentar o desenvolvimento dos municípios.

Por isso, o desenho e a ornamentação de tais espaços tornaram-se preciosos objetos de estudo para pesquisadores interessados em compreender e documentar as dinâmicas que ali se materializam.

Conhecer e compreender a história de praças de cidades da Estrada Real permitiu à pesquisadora Patrícia Duarte de Oliveira Paiva, da Universidade Federal de Lavras (Ufla) evidenciar a evolução de tais espaços e os vários movimentos que levaram os municípios a instituí-los.

Análise da evolução paisagística e sociocultural de praças da região da Estrada Real com ênfase em cidades históricas de Minas Gerais” é um trabalho inédito, que também colaborou com a investigação da história da arte de jardins no Brasil.

Desde 2008, Patrícia desenvolve a linha de pesquisa responsável pela análise da trajetória das praças. Para cada estudo realizado, foi possível reconstruir a história do lugar, desde seu nascimento, assim como analisar a evolução do espaço até hoje.

“É comum termos conhecimento sobre a história de uma cidade ou de personalidades que lá nasceram, mas as praças, mesmo sendo importantes espaços públicos, são muitas vezes negligenciadas. Trata-se, porém, de áreas intrinsecamente relacionadas à evolução dos municípios”, destaca a professora, ao lembrar que, até então, não existia tal tipo de estudo em muitas localidades, sobretudo naquelas que marcaram um período muito importante da história brasileira: no caso, os municípios localizados ao longo da Estrada Real.

“Os resultados contribuem para a maior valorização do contexto histórico, social e ambiental das praças das cidades históricas”, conclui.

Largo do Carmo na década de 1940. Reprodução

Passo a passo

A primeira fase da pesquisa consistiu de estudo de campo em cidades mineiras, com o objetivo de identificar o significado histórico – a partir de resgates paisagísticos e culturais – das praças Carlos Gomes e Severiano Resende, em São João del-Rei, e Dr. José Esteves, em Lavras (MG), além de espaços variados em Serro.

No que diz respeito à bibliografia, realizou-se leitura de registros escritos, consulta a memoriais descritivos de projetos, relatos de viajantes, jornais, revistas e outros periódicos, assim como buscaram-se arquivos oficiais municipais, estaduais e federais.

No que se refere à iconografia, analisaram-se pinturas, fotografias e cartões-postais em museus, bibliotecas, coleções particulares e instituições responsáveis pelo patrimônio artístico, cultural e histórico de cada localidade.

A pesquisa de campo contou, também, com a realização de entrevistas com poetas, pintores, escritores, historiadores, bem como cidadãos idosos ou pessoas que conheceram antigos usuários, ou frequentaram jardins e praças no passado e no presente.

Praça João Pinheiro / Reprodução

O presente das praças

Além da pesquisa de caráter histórico, foi verificado o atual estado de cada praça.  Procurou-se identificar a legislação incidente sobre a área, nas instâncias municipal, estadual e federal, considerando monumentos culturais e históricos. Os especialistas também analisaram o último projeto de ajardinamento ou as propostas de reforma, para identificar plantas, equipamentos, mobiliário, obras ornamentais, pontes, estátuas, fontes, chafarizes, dentre outros itens que compõem o espaço.

“O entorno, a evolução e a preservação também foram considerados e analisados. Realizamos amplo registro fotográfico de todo o estudo, com detalhamento dos principais elementos e levantamento físico, para constituição da planta do local”, esclarece a professora.

Em relação aos estudos sobre jardins históricos, Patrícia e seu grupo de pesquisa compreenderam a necessidade de divulgação dos conhecimentos adquiridos a um público mais amplo, principalmente a pessoas que vivenciaram a evolução desses espaços, usuários das praças e visitantes – daí surgiu a já citada coleção “Praças da Estrada Real”, que atualmente, conta com 15 títulos publicados: “Ela não está finalizada porque ainda há muitas praças e histórias a serem contadas”, destaca a professora.

Resgate histórico

O levantamento das praças de Minas Gerais indica que elas tiveram origens diversificadas, desde finalidades político-militares, como a Tiradentes (Ouro Preto) e a dos Expedicionários (São João del-Rei); religiosas, a exemplo da praça da Basílica de Bom Jesus do Matosinhos (Congonhas) e Carlos Gomes (São João del-Rei); e comerciais – João Pinheiro (Serro) e Severiano Rezende (São João del-Rei). Tais espaços também foram criadas para compor áreas de grande importância e circulação de pessoas nas cidades, como é caso das “praças de estação”, como a Dr. José Esteves, em Lavras.

“Interessante observar que a religiosidade sempre esteve muito presente nessas áreas, seja pela proximidade ou pela origem junto a igrejas. Também os fatos e interesses políticos nortearam as intervenções sofridas nessas áreas, especialmente pela realização de reformas, pela introdução de monumentos, como bustos, e pelas alterações de nomes, o que chamamos de toponímia”, explica Patrícia.

No ver da professora, o grande desafio da pesquisa está nas limitações e nas dificuldades de acesso aos materiais necessários para construção da história de cada lugar. “Os registros e as memórias de nossa história são restritos. Nem sempre encontramos documentos específicos sobre as praças, projetos de ajardinamento ou indicações dos responsáveis pela elaboração e pela implantação dos jardins”, detalha. Em função disso, o estudo da evolução histórica centrou-se nas transformações morfológicas do espaço ocupado pelas praças e na representação social no inconsciente coletivo da população de cada cidade.

Praça Severiano Rezende meados década 1930 / Reprodução

Preservar a memória

Para que se avance no estudo socio-histórico das praças de Minas Gerais, a preservação da memória é fundamental.

“Há, no Brasil, indicações de como proceder com a reforma de jardins históricos, o que deve ser respeitado. Alterações ou manutenções, normalmente, de responsabilidade do poder público, mas realizadas sob coordenação de paisagistas, devem considerar a história do lugar. O conhecimento sobre a origem e a evolução do espaço é fundamental para nortear as intervenções, de forma a preservar características”, conclui a professora, ao alertar para o perigo de ações que destroem e modificam os espaços públicos em nome da construção de ambientes absolutamente novos e sem história.

Leia a reportagem completa na Minas Faz Ciência n. 74:



 

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Responsabilidades políticas estão atreladas a sistema de governo

Thu, 01/03/2019 - 08:00

Que avaliação você faz do atual prefeito de sua cidade? Você acompanha suas responsabilidades políticas?

Felipe Nunes dos Santos, doutor em Ciência Política pela Universidade da Califórnia (UCLA), averiguou se os eleitores são capazes de identificar os verdadeiros responsáveis pelas ações realizadas em seu município.

Parte da tese de doutorado do pesquisador, o artigo intitulado “Quem recebe recompensas eleitorais? Um estudo experimental sobre como os eleitores respondem aos benefícios produzidos pela União, estados e municípios no Brasil” revelou características interessantes acerca das recompensas eleitorais no País.

Segundo Felipe – que, durante a pesquisa, recebeu tutoria da professora Maria de Fátima Anastasia, do departamento de Ciência Política da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) –, a investigação partiu do fato de que, em sistemas federativos pouco centralizados (como nos casos do Brasil e do México), o repasse de verbas do governo federal aos municípios ocorre, mais efetivamente, quando há coerência partidária entre as esferas de governo.

Ou seja, a distribuição de verbas será destinada, mais facilmente, aos municípios com prefeitos filiados ao mesmo partido do Presidente da República. Já em países cujo sistema federativo é centralizado (como Venezuela e Argentina), o repasse de verba pelo governo federal é feito, de forma mais efetiva, a cidades onde o eleito obteve mais votos.

No ver de Felipe Nunes dos Santos, foi vital compreender melhor a maneira como os eleitores atribuem crédito eleitoral aos políticos, quando mais de um tem autoridade legítima para reivindicar crédito para resultados observados nas diversas localidades brasileiras. A questão que surge, a partir desse cenário, é: quando uma obra é realizada na cidade, quem receberá os créditos, o prefeito ou o presidente?

“Normalmente, o que se vê em países com o sistema federativo menos centralizado é a tendência de o prefeito receber as recompensas. Já em países centralizados, a responsabilidade vai para o governo federal. Minha intenção era verificar tal hipótese. O objetivo, então, foi investigar como e por que os eleitores brasileiros atribuem crédito político a determinadas figuras, e não a outras”, explica, ao destacar que outro ponto explorado refere-se às condições nas quais os eleitores revelam-se mais propensos a identificar os verdadeiros responsáveis por resultados que lhes interessam.

Para isso, o pesquisador adotou, como método de pesquisa, o chamado endorsement experiment (ou “experiência de endosso”, em tradução livre).

Endorsement experiment

A metodologia tem sido usada para medir os níveis de apoio político a grupos minoritários que, aos olhos da sociedade, adotam comportamentos não tradicionais. Em tal mecanismo, um grupo de pessoas é selecionado de forma aleatória, e convidado a expressar sua opinião sobre ações políticas.

“Na sequência, dividimos os participantes em três grupos: placebo, controle e tratamento. Fazemos perguntas semelhantes a todos, mas com sutis modificações, e comparamos as respostas obtidas”, esclarece o pesquisador.

Durante a realização da pesquisa, foram entrevistados 2400 eleitores, em 195 cidades. Na ocasião, os entrevistados responderam, primeiramente, às seguintes perguntas: “Que avaliação você faz do atual prefeito de sua cidade?”, “E do atual presidente do País?”. Em seguida, o grupo placebo deveria responder à seguinte pergunta: “Você deve estar percebendo melhorias em infraestrutura que devem estar sendo realizadas aqui na cidade. Você concorda com a realização dessas obras?”.

Já o grupo controle deveria responder a outra questão: “Você deve estar percebendo melhorias na infraestrutura da cidade sendo realizadas pelo prefeito. Você concorda com a realização dessas obras?”. Por fim, aos integrantes da equipe de “tratamento”, perguntava-se: “Você deve estar percebendo melhorias na infraestrutura da cidade sendo realizadas pela Presidência da República. Você concorda com a realização dessas obras?”.

Após a realização de outras tantas perguntas, os grupos voltavam a responder às duas questões iniciais, relativas à avaliação dos desempenhos dos governos municipal e federal. “No primeiro grupo, não houve alteração na avaliação feita pelas pessoas. Já no segundo grupo, depois de afirmarmos que a melhoria era de autoria do prefeito, os eleitores passaram a avaliar positivamente o governo municipal. Por fim, no terceiro grupo, não notamos alteração, mesmo tendo sugerido que as melhorias teriam sido realizadas pelo governo federal”, analisa o cientista.

Leia a reportagem completa na Minas Faz Ciência n. 72:



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Categories: Pesquisa

Epamig produz azeite com ares tropicais

Wed, 01/02/2019 - 07:00

Clássico da culinária contemporânea, elemento fundamental da dieta mediterrânea. Além de benéfico para a saúde humana, o azeite adiciona sabor e aroma peculiares aos mais diversos tipos de preparação da boa mesa.

Por sua vez, a oliveira, de onde os frutos são extraídos, é uma árvore milenar, venerada por diversos povos, desde o período neolítico, quando a extração do óleo servia a fins religiosos e de sobrevivência – pois era utilizado como remédio, combustível, e, também, na alimentação.

Espanha, Itália e Grécia são, hoje, os países líderes na produção de azeite no mundo: juntos, são responsáveis por cerca de 75% da fabricação no Planeta.

Mesmo com história ainda recente de plantio e colheita de azeitonas, o Brasil se destaca, pela persistência e pelo aprimoramento de técnicas de produção em terras tropicais.

Já há alguns anos, os azeites nacionais figuram no guia Flos Olei, um dos principais catálogos de referência da área, e o primeiro de alcance internacional dedicado às empresas produtoras de extravirgens – que, para entrar na lista, passam por criteriosa seleção, em rigoroso painel de peritos.

Bem… Mas o que faz um bom azeite de oliva?

Segundo o guia técnico da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), as azeitonas precisam estar em perfeitas condições de maturação e devem proceder de oliveiras sadias.

O óleo também há de ser processado imediatamente após a colheita, para evitar tratamentos que alterem a natureza química de seus componentes, durante a extração ou o armazenamento.

Condições climáticas na região de plantio também importam. Não é à-toa que a Serra da Mantiqueira, a 1,3 mil metros de altitude, caracteriza-se como ambiente ideal, em Minas Gerais, para desenvolvimento das árvores, que carecem de frio para se desenvolver.

Fato é que a ciência tem contribuições importantes para o crescimento da oferta do azeite nacional. Estudos desenvolvidos pela Epamig têm gerado cultivares de oliveira melhores e mais adaptadas às condições de solo e temperatura da Mantiqueira.

Além disso, a empresa orienta os produtores sobre técnicas de cultivo, escolha de áreas com condições climáticas adequadas, adubações e tratos culturais, como poda e ponto correto de maturação dos frutos para colheita.

A Epamig também apoia os produtores da região no processo de extração do azeite, ao oferecer o serviço de processamento no campo experimental de Maria da Fé.

Uma das pesquisas desenvolvidas no local, que conta com financiamento da FAPEMIG, visa à determinação do melhor ponto de colheita das azeitonas, ao usar diferentes metodologias com o objetivo de otimizar a produção de azeite.

Analise química de azeite / Divulgação Epamig

Olivicultura

Luiz Fernando de Oliveira da Silva, engenheiro agrônomo e coordenador do Programa Estadual de Pesquisa Olivicultura da Epamig – Maria da Fé, explica que a olivicultura ainda é, de fato, uma atividade recente, mas em plena expansão no País.

Justamente por isso, trata-se de linha de trabalho com várias questões a serem elucidadas sobre os melhores métodos e técnicas para produção de azeite em território nacional, o que, segundo ele, faz do trabalho um valoroso desafio.

“Buscamos resolver questões reais, que ajudarão o produtor a solucionar problemas que encontra no dia a dia da produção. Trabalhamos e acreditamos que podemos fazer a diferença no agronegócio mineiro, ao possibilitar que os produtores tenham mais uma opção de cultivo. E que os consumidores tenham, em suas mesas, produtos de excelente qualidade, e a preços justos. Isso traz grande satisfação pessoal”, afirma Luiz Fernando.

No ver do pesquisador, por não ter tradição de cultivo de oliveiras, o Brasil tornou-se, por muitos anos, dependente de importações de países europeus (Portugal, Espanha, Itália e Grécia) ou sul-americanos (Chile e Argentina). “Tais países localizam-se entre os paralelos 30° e 40°, tanto Norte como Sul. Ou seja, estão mais perto dos polos e longe da linha do Equador, o que torna a região ideal para que a oliveira floresça e produza”, explica.

Retirar uma planta de suas condições naturais requer que ela seja adaptada à sua nova condição, para que produza tanto quanto na origem.

“Eis o desafio que enfrentamos: encontrar regiões aptas ao cultivo e ao manejo das plantas no campo, adequar processamentos e ter conhecimento das características físico-químicas dos azeites produzidos para garantir a comercialização”, esclarece.

Investimentos em pesquisa são fundamentais, portanto, para elucidar questões e tornar a atividade mais sustentável e segura aos produtores.

Mudas de oliveira. Divulgação / Epamig

Inovação verde e amarela

O projeto financiado pela FAPEMIG trabalha, especificamente, com a etapa de colheita das azeitonas, para determinação do ponto ideal de maturação, como forma de otimizar a relação quantidade/qualidade do produto final: o azeite.

As etapas de colheita são importantes para a produção de um bom óleo porque a formação do fruto, que ainda não é capaz de produzir azeite quando começa a se desenvolver.

“A partir do momento em que ocorre o endurecimento do caroço, começa a produção de azeite. Tal processo é uma curva, com um ponto máximo de acúmulo. Nossos estudos permitem determinar tal ponto e realizar a colheita na hora certa”, detalha Luiz Fernando.

Aspecto relevante do processo diz respeito ao fato de que as características químicas da azeitona se alteram durante todo o processo de formação do azeite.

Como a qualidade química está relacionada à formação de substâncias no fruto, saber o melhor ponto em que ocorre o maior acúmulo das substancias desejáveis também é um bom indicador para realização da colheita.

“Também trabalhamos na otimização do processamento de extração do azeite, com determinação do tempo e da temperatura de batido e uso de coadjuvantes”, completa o pesquisador.

Os resultados têm sido mais do que satisfatórios e o cenário da produção de azeite em Minas Gerais é promissor: em fevereiro de 2018, comemoraram-se 10 anos da primeira extração de azeite extravirgem no Estado.

Cerca de 40 marcas são produzidas na região da Mantiqueira, com tecnologia desenvolvida pela Epamig. A região Sudeste conta com média de 160 produtores de oliveiras, distribuídos em 2.000 hectares. Estima-se que 60% deles estão em solo mineiro.

Com o conhecimento adquirido, produtores passam a conhecer melhor as características de seus azeites e ofertam, a seus compradores e consumidores, um azeite com características químicas distintas, fruto das peculiaridades do plantio e da colheita em terras brasileiras. Isso gera um azeite com DNA nacional que pode ser harmonizado com diferentes sabores.

“No futuro, também podemos indicar a realização de misturas de dois ou mais tipos de azeites, a fim de chegarmos a um produto com características sensoriais únicas e equilibradas, de maneira a manter a uniformidade, independentemente da safra”, conclui Luiz Fernando.

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Categories: Pesquisa

Grafeno: de commodity a recurso tecnológico

Tue, 01/01/2019 - 08:00

Lápis e papel. Os mais básicos materiais escolares fazem parte do imaginário da sala de aula, e, geralmente, do primeiro contato da pessoa com a escrita. Enquanto palavras ou desenhos marcam as folhas em branco, é possível observar uma série de propriedades do grafite: na ponta do lápis, lá está o material de estrutura laminar – formado por diversas camadas, uma sobre a outra – composto por átomos de carbono, devidamente organizados em arranjo planar de hexágonos. Ao rabiscar algo, crianças e adultos deixam, sobre a superfície, inúmeras folhas de grafite, também conhecidas como “grafeno”.

Folha atômica do grafite, isolada pela primeira vez em 2004, o material apresenta diversas propriedades de interesse para a indústria: além de excelente condutor de calor e eletricidade, revela-se resistente, maleável, leve e transparente. “Por se compor de carbono, o grafeno conta com propriedades muito interessantes, com aplicações em várias áreas do conhecimento e ramos tecnológicos”, afirma Marcos Assunção Pimenta, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador geral do CTNano, centro de tecnologia em nanotubos de carbono e grafeno.

Atualmente, o material é aplicado na eletrônica, por meio da produção de substâncias diversas, e pode ser incorporado a plásticos, cerâmicas e borrachas, para que adquiram outras características. A riqueza das propriedades e as múltiplas aplicações tecnológicas do grafeno tornaram-no produto de alto valor agregado. Enquanto uma tonelada de grafite é comercializada por um dólar no mercado internacional, o mesmo volume de grafeno pode custar até 10 mil vezes mais.

A possibilidade de transformar uma commodity em recurso para desenvolvimento de tecnologias, com diversificação da economia nacional, gera novas perspectivas para a indústria da mineração. O Brasil é, hoje, o terceiro produtor e maior detentor de reservas de grafite do mundo. “As maiores reservas exploráveis do País estão em Minas Gerais. O potencial para obtenção do grafeno a partir do mineral grafita é enorme”, explica a química Clascídia Aparecida Furtado, pesquisadora do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN).

Da pesquisa à indústria

Segundo o professor Marcos Pimenta, existem dois métodos principais para obtenção do grafeno: de cima para baixo; e de baixo para cima. O primeiro consiste na esfoliação química e mecânica do grafite, com separação das folhas do material. O segundo se refere à construção da folha de grafeno a partir da deposição de átomos de carbono. “Monta-se, então, a estrutura, como se cada átomo fosse uma peça de Lego. Esse método é interessante quando há necessidade de amostra de boa qualidade, para produção de sensores, por exemplo”, explica. Já a esfoliação do grafite é vantajosa devido à possibilidade de produção em larga escala. “Tal processo químico, porém, danifica o material e leva à perda de qualidade”, completa.

Hoje, os estudos sobre grafeno e nanotubos de carbono HIPERLINK 2 procuram se alinhar com o mercado. A ideia é ampliar o desenvolvimento da cadeia de produção, da extração mineral à fabricação de ampla gama de produtos de alta tecnologia. Trata-se de cenário em que universidades, centros de pesquisa e indústria trabalham em conjunto. Que o diga um projeto do CDTN, parceria entre mestres e doutores com uma empresa mineira, que busca investigar modos de produção do grafeno. “Trabalhamos a obtenção do óxido de grafite em escala piloto. Além de bem-sucedido, o estudo é importante para otimização do processo de produção na empresa e para nossa capacitação”, esclarece Clascídia Furtado.

A empresa já operava com a rota de produção, que foi otimizada e teve qualidade atestada pelos pesquisadores. “A parceria entre academia e setor produtivo permite que novas tecnologias alcancem, de fato, o mercado.

A indústria só consegue inovar se tiver apoio dos centros de desenvolvimento tecnológico. E o conhecimento gerado na universidade, e nos centros de pesquisa, só pode se transformar caso conte com a demanda industrial”, afirma a pesquisadora.

De que modo usá-lo?

Diversas são as possíveis aplicações do grafeno, a depender, apenas, de propriedades e usos. Confira exemplos:

Condução de calor: o grafeno é ótimo condutor de calor, propriedade que pode conferir a materiais que, geralmente, dissipam energia. Seria o caso de misturá-lo a polímeros.

Componente eletrônico: o material é apontado como estratégico para desenvolvimento de nova era da eletrônica. “Todos os dispositivos eletrônicos são, hoje, feitos com silício. Nos últimos anos, experimentamos computadores mais rápidos, com maior capacidade de memória, que chegarão aos limites do que permite o silício. Existe a perspectiva de que o grafeno permita a continuação da evolução da informática, com materiais mais rápidos e eficientes”, afirma o professor Marcos Pimenta.

Energia: o grafeno pode ser usado para aumentar a eficiência de pilhas e de baterias para armazenar cargas. Também há de ser aplicado em dispositivos de conversão, fotovoltaicos, para aumentar a eficiência energética.

Leveza: materiais leves e resistentes são cada vez mais interessantes para a indústria. Que o digam as pás eólicas, que convertem a força do vento em energia elétrica. Quanto maior o catavento, maior a eficiência da conversão – ou seja: pás maiores e mais leves resultam em maior eficiência energética. Na indústria aeronáutica, é possível produzir aviões mais leves, que gastem menos energia e provoquem menor impacto ambiental.

Resistência: é possível misturar o grafeno a outros materiais, como o plástico, que é flexível, mas rasga com facilidade. Por ser resistente, o grafeno manteria a maleabilidade do plástico, conferindo-lhe mais resistência.

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Categories: Pesquisa

Design de panelas de ferro fundido é tema de pesquisa

Mon, 12/31/2018 - 08:00

Presente nas cozinhas de Minas, e, com frequência, associada à tradição do fogão à lenha, a panela de ferro fundido traz à tona cheiros, gostos e sentimentos em relação ao ato de cozinhar.

Na região oeste do Estado, as peças também integram e movimentam a economia local.

No maior polo de empresas produtoras desse tipo de artefatos da América Latina, cerca de 100 empresas de pequeno e médio portes confeccionam panelas – e outros itens – por meio de processos semiartesanais, a partir de moldagem manual.

O termo “artefatos” é mais adequado do que “panelas” no contexto desta pesquisa, pois o estudo tratou também de frigideiras, rechauds, chapas e bifeteiras.

A difusão da tecnologia de esmaltação em tais artefatos é um tipo de recurso que melhoraria a competitividade dos produtos, ao inserir nova categoria de panelas no polo industrial.

Nesse cenário, surge a pesquisa “Artefatos de cocção em ferro fundido: agregação de valor a partir do design e da seleção e aplicação de processos de revestimento cerâmico”, coordenado por Maria Regina Álvares Dias, professora da Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg).

A investigação buscou o desenvolvimento de técnicas do processo de esmaltação para posterior transferência da tecnologia de revestimento em cerâmica de artefatos de cocção em ferro fundido.

Os pesquisadores almejavam agregar valor aos itens, a partir da seleção e da especificação de texturas e cores aliadas ao design dos produtos.

“Os estudos sobre as panelas valem para outros objetos de cozinha, e impactam, diretamente, a produção do artefato, a valorização junto ao mercado nacional e o uso mais adequado pelo usuário final”, comenta Regina Álvares.

Demanda do setor produtivo

O projeto foi uma resposta a demandas do setor produtivo: em 2009, foram atendida 15 empresas da região Centro-Oeste de Minas, nas cidades de Cláudio, Divinópolis e Carmo do Cajurú, em projeto financiado pelo Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas].

Os pesquisadores realizaram ações de consultoria e otimização de produção, com agregação de valor por meio do design.

“Durante as pesquisas, percebemos a necessidade de análises de objetos similares e de concorrentes, para desenvolvimento de tecnologia que permitisse a aplicação de revestimento cerâmico nos produtos, de forma a melhorar sua aparência estética e otimizar o uso cotidiano. Tal etapa só se tornou viável a partir do financiamento da FAPEMIG”, explica Carlos Miranda.

O trabalho consistiu no desenvolvimento de revestimento cerâmico que pudesse ser reproduzido com matérias-primas já disponíveis e acessíveis no mercado, tendo em vista que os concorrentes e similares trabalham com formulações importadas, com alto custo de aquisição.

“Como a tecnologia se destinava às empresas da região, buscamos focar a formulação em seus processos e artefatos, para incrementar, tecnologicamente, a produção, frente à concorrência de outros estados e países, a exemplo da China”, destaca.

Além de promover estética mais agradável aos produtos fundidos, o revestimento confere mais nobreza às peças, em comparação à tradicional pintura preta, com tinta à base de teflon, comum em objetos orientados ao ambiente rústico de fazendas e fogões a lenha.

“A aplicação do revestimento torna os produtos mais aptos a mesas mais requintadas e ao uso em cozinhas domésticas. Abre-se a possibilidade de criação de linhas premium, mantendo-se as tradicionais, rústicas, também de identidade mineira”, destaca o professor.

Um dos diferenciais do estudo está na possibilidade de trabalhar cores em produtos que, tradicionalmente, são segregados ao ambiente rústico de fazendas e sítios: “Contribuímos para trazer tais artefatos a ambientes domésticos mais requintados, com estética otimizada, revestimento limpo e refinado”.

Economia, saúde e paladar

A principal característica das panelas de ferro fundido é a segurança para a saúde, pois não dispersam elementos nocivos durante o processo de cocção.

“Ao contrário! Elas liberam ferro, que combate a anemia, por exemplo. Além disso, são extremamente duráveis e mantêm a temperatura dos alimentos por mais tempo, além de economizar gás durante o cozimento dos alimentos”, esclarece Carlos.

A produção de itens com design diferenciado tem se tornado uma vantagem competitiva às pequenas e médias indústrias da área em Minas Gerais.

Os conhecimentos de Engenharia e de materiais usados na confecção dos artefatos são de extrema importância ao processo de design, pois definem formas de processamento e propriedades requeridas, que afetarão, diretamente, a interface e a usabilidade dos produtos por parte do ser humano.

No caso das empresas, o estudo de matérias-primas mais adequadas e disponíveis aos pequenos empresários torna o produto mais competitivo no mercado interno, frente à forte oferta de objetos importados, de diversos níveis de qualidade e procedência.

“Os estudos enfatizam a usabilidade do produto, da valorização estética à melhoria da qualidade percebida, do conforto à ergonomia. Além disso, o design pode aprimorar questões de segurança e redução de riscos de queimadura durante o uso”, destaca Regina Álvares, a coordenadora da pesquisa.

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Categories: Pesquisa

Estudo analisa arquitetura de imóveis centenários em São João del-Rei

Fri, 12/28/2018 - 08:00

Cidade na qual a poesia se debruça nas janelas dos casarios. E onde becos bucólicos misturam-se a igrejas grandiosas, largos de tradição e montanhas de contorno. No mais, a mineira São João del-Rei caracteriza-se por portas e fachadas, meio desalinhadas e coloridas, capazes de garantir o tom de diversidade à arquitetura.

Resgatar a história desse importante patrimônio do Estado, por meio das construções, é a tarefa de preservação de uma série de pesquisadores da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Ao encarar a missão, eles realizaram o levantamento de edificações remanescentes no município, com o intuito de documentar a diversidade de estilos arquitetônicos. O resultado é um inventário com mais de 40 imóveis, sobre os quais foram descritos o tipo de alvenaria predominante, a tipologia construtiva, as características do entorno e o estado de conservação.

Inventário enumera tipos de alvenaria, tipologia construtiva, características do entorno e estado de conservação. Foto: Arquivos do pesquisador

“São João del-Rei é muito rica em construções históricas. A cidade se diferencia de outros municípios mineiros porque não ficou congelada. Ouro Preto, por exemplo, conta com um dos maiores acervos de casarios barrocos e coloniais do mundo. Lá, existem técnicas de alvenaria e materiais correspondentes ao contexto de um período. Em São João, é diferente, pois ocorreram modificações a cada ciclo econômico e histórico”, comenta o professor Mateus Martins, coordenador do projeto de pesquisa, ao destacar que, hoje, existem, no município, construções com estilo barroco, neoclássico e neogótico, dentre outros. “As alvenarias e as técnicas acompanharam as mudanças”, explica.

O grupo de pesquisadores escolheu os casarões que integrariam o inventário segundo seus estilos arquitetônicos. Para tal, visitaram os imóveis, fotografaram, entrevistaram moradores e observaram os tipos construtivos. A equipe encontrou grande diversidade de técnicas: há casarios de terra crua, tijolo maciço, taipa de pilão, pau-a-pique, bloco de concreto, pedra, adobe, dentre diversas outras alvenarias.

No ver de Mateus Martins, o banco de dados com informações sobre os imóveis contribui com a preservação do patrimônio cultural edificado. Mesmo que certas construções estejam descaracterizadas, é possível saber se foram compostas de pedra, tijolo, argamassa de cal ou barro. Além disso, compreende-se a estrutura de fundação das casas.

Uma alvenaria em adobe, por exemplo, diz respeito ao uso de tijolos crus, que não passam pela queima. Eles são secos, naturalmente, pela ação do sol e do vento. Para confecção dos adobes, recorre-se a água, palha, areia e estrume, que funciona como estabilizante. Em seguida, misturam-se os elementos, até que se forme a massa consistente que é posta em formas de madeira, para configuração dos tijolos.

Construções históricas revelam diversidade arquitetônica. Foto: Arquivo do pesquisador

Segundo o professor, tais paredes têm alta capacidade estrutural, sendo usadas, predominantemente, nas partes externas dos edifícios. O modelo adobe foi muito empregado em casarios de São João del-Rei. Mateus explica que, apenas no final do século XIX, e no início do XX, surgiram as alvenarias de tijolos cerâmicos, que dependem de queima e resultam em tipo construtivos bem mais resistentes à água.

A pesquisa de resgate histórico envolve equipe multidisciplinar de arquitetos, historiadores e engenheiros.

“É muito importante envolver outras áreas. Não posso, por exemplo, restaurar uma igreja histórica, de 200 ou 300 anos, com um problema no altar, sem saber algo sobre a fundação e a alvenaria daquela construção. O restauro que não se atenta a questões estruturais pode significar trabalho jogado fora”, esclarece.

Se que saber mais sobre patrimônios históricos encontrados nas zonas rurais de Minas, leia na versão impressa da revista Minas Faz Ciência:



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Categories: Pesquisa

Inovações tecnológicas mudam rotinas de produtores rurais

Thu, 12/27/2018 - 08:00

Não é de hoje que a inovação e a tecnologia têm sido grandes parceiras, em diversas frentes, do setor agrário brasileiro. Tais iniciativas permitem que o País obtenha ótimos resultados, tanto na agricultura quanto na pecuária. Não é à toa que o agronegócio foi o setor que desconheceu, por completo, os movimentos da crise, e, no ano passado, tornou-se responsável, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), por contribuir com 23,5% do Produto Interno Bruto (PIB) – maior participação em 13 anos.

Na atualidade, as inovações do campo – antes a cargo de grandes produtores, que investiam em pesquisa ou importavam tecnologia estrangeira – vêm ganhando a companhia de outro ator do segmento: as startups. Por isso, são muitas as empresas iniciantes, principalmente, de base tecnológica, com projetos relacionados ao agronegócio.

De olho nesse mercado, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) lançou, em 2018, o “NovoAgro 4.0”. Trata-se de programa composto por um conjunto de iniciativas do Sistema Faemg, com vistas a aproximar e fomentar o ecossistema de inovação reunido em startups e universidades. Busca-se, assim, a geração de tecnologias aplicadas, que promovam o desenvolvimento do agronegócio. Objetivo?  criar ambiente institucional e empresarial de apoio à inovação, para desenvolvimento do agronegócio, além de identificar e catalisar iniciativas que gerem tecnologias de ponta, inovadoras e aplicáveis ao setor.

Dentre os principais focos do programa, está a digitalização do campo no País, revestida de grandes desafios técnicos, operacionais e humanos. Espera-se, por exemplo, difundir tecnologias de informação e comunicação, ao pensar em infraestruturas com acesso à internet, já que muitas áreas de Minas Gerais não têm, sequer, rede de telefonia celular. Também almeja-se preparar os agricultores a receber e usar, ao máximo, as novas tecnologias.

“O universo agrícola é muito extenso e diversificado, e comporta produtores em todo o mundo, que se encontram nos mais variados estágios de desenvolvimento e adoção de tecnologias. Por isso, esse será um grande desafio”, acredita Pierre Santo Vilela, superintendente do Instituto Antônio Ernesto de Salvo (Inaes), braço de desenvolvimento de projetos e pesquisa do Sistema Faemg.

Segundo ele, há dicotomia entre os agricultores, que usam os mais rudimentares instrumentos na produção, mas são importantes para o fornecimento de alimentos, nas regiões onde atuam, a produtores que já adotam os mais sofisticados equipamentos e softwares para gestão de atividades. “Todos são essenciais nos mercados em que estão. Há, contudo, regiões onde fatores naturais, locacionais ou econômicos demandam que tecnologias de ponta sejam constantemente adotadas, para a própria sobrevivência do negócio”, observa o superintendente, ao salientar que, sem produtividade alta e máxima eficiência para uso de recursos, certamente, a agricultura não existiria ali.

Por isso, uma das frentes do programa busca apoiar o pequeno produtor. Pierre não é contra as tecnologias, mas acha que elas precisam adequar-se, ou estar acessíveis, à realidade do trabalhador. “Um dos gargalos enfrentados pelos pequenos produtores é a deficiência da assistência técnica e a extensão rural no País, fatores que os alijam das oportunidades que as novas tecnologias podem trazer à sua atividade”, lamenta.

O programa está atento a tais necessidades, pois muitas – e importantes – atividades desenvolvidas em Minas Gerais têm, predominantemente, pequenos e médios agricultores a frente do desenvolvimento agrícola, em áreas como cafeicultura, fruticultura, olericultura e pecuária de leite, dentre outras. “Dessa forma, priorizamos projetos que se adequem ou pretendam atender a esse público”, garante.

Foto: Reprodução Novo Agro 4.0

Na prática, o programa NovoAgro 4.0 pretende apoiar iniciativas, em estágio mais avançado de desenvolvimento, para, posteriormente, buscar ideias novas ou ações que suplementem deficiências, e ainda não foram apresentadas ao mercado. O programa não tem caráter típico de aceleração. Apesar disso, usam-se estratégias semelhantes para apoiar e desenvolver os bons projetos apresentados. “Mentorias de vasta e diversificadas equipes do Sistema Faemg, assim como de produtores rurais experientes, podem ajudar muito na fase de modelagem e de adaptação dos projetos”, destaca Pierre.

O Espaço NovoAgro 4.0 também é o ambiente de interação das empresas e empreendedores com as equipes do Sistema Faemg e de parceiros do programa. O diferencial são as fazendas espalhadas por todo o Estado, laboratórios vivos que apoiarão o desenvolvimento e a melhoria dos projetos.

Rural e digital

O programa tem chamado a atenção de empresas de tecnologia, que observam, no NovoAgro 4.0, uma oportunidade de crescimento. Uma delas é a startup  Agrodez Gestão, que produz software de gestão agrícola para culturas convencionais e orgânicas. A plataforma web e o aplicativo conta com mais de 15 recursos capazes de possibilitar, ao produtor rural, a realização de gestões financeira por meio de planejamento, fluxo de caixa, relatórios de custos e apontamento dos maiores gastos. Além disso, também permite a execução técnica, por meio de ordem de serviço, da organização de safra, do cadastro de pragas e da análise de solo e folhas.

A plataforma realiza, ainda, o gerenciamento de fluxo de produtos no estoque, a gestão de maquinários (próprios e alugados) e de funcionários (CLT e terceirizados), a agenda de contatos e o calendário virtual. “Dessa maneira, garantimos que os produtores realizem toda a gestão necessária e obtenham resultados práticos, acessíveis por meio de relatórios de gráficos e lista”, observa Maria Glória do Nascimento Younes, CEO e fundadora da Agrodez Gestão.

Estudante de Engenharia Agronômica, Maria pertence a uma família de produtores rurais. Segundo ela, a ideia surgiu a partir da análise das dificuldades de gestão de produtores rurais, que contam, no mercado, com soluções muito difíceis. “Passamos pela troca de gerações, em que pais transmitem aos filhos, que, por sua vez, necessitam e sobrevivem com tecnologia, e não mais com ‘papel e caneta’. Nossos clientes, portanto, são produtores mais jovens, que começaram a atuar nos negócios da família”, explica.

Na visão da CEO, a inovação cresce exponencialmente no agronegócio. A cada dia, startups inovam com tecnologias jamais esperadas em curto e médio prazos. “Sem dúvidas, as inovações estão em alta, e as startups são grandes detentoras dessa inovação”, acredita a jovem, ao salientar que a aceleração, por meio de programas como o da Faemg, abre vasto leque de validação da ideia, com aumento do alcance do produto que já está no mercado.

Se quiser saber mais sobre tecnologias, especialmente, para pecuária – desenvolvimento e o desempenho dos animais – leia na versão impressa da revista Minas Faz Ciência:



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